Conversas de bar: o que se diz na mesa de
bar, não se escreve. É algo que já ouvi em algum lugar, só não me lembro onde.
Talvez, numa mesa de bar!
De vez em quando gosto de sair para beber
com os amigos. O que mata é o preço da cerveja... mas enfim, gosto de sair,
espairecer, conversar, aquela coisa toda. Gosto de cometer alguma indiscrição,
de vez em quando... só de vez em quando! Mas é quase inevitável que numa mesa
de bar você acabe soltando algo além do que gostaria, ou do que poderia dizer.
Talvez por isso se diga que o que se diz na mesa de bar, fica na mesa de bar.
Mas mês passado tive um daqueles insigts
que sempre tenho, não só quando estou bêbado, aquelas idéias de jumento que nem
sei de onde surgem. Foi a última, numa conversa com um professor de história,
muito inteligente, porém grande cachaceiro... ou cervejeiro, como se
autodenomina. Falávamos sobre a identidade nacional brasileira, etc, até que
ele disse algo que, achava ele, provavelmente causaria uma acalorada discussão,
afinal, eu era desse Brasil “que não é Brasil”, o Rio Grande do Sul. Estando um
tanto bêbado, já àquela altura, fiz o contrário do que esperava o nobre
professor, eu concordei com ele. Por quê? Bem, senão vejamos...
O professor universitário esse, que conheci
numa informal conversa de bar, fez uma afirmação que pra mim não é inédita: o
gaúcho não é brasileiro. E concordo, efetivamente o gaúcho não é da tal “nação”
brasileira, ou seja, aquela que aceita se colonizar e se adaptar ao que o Eixo
do Mal dita como “cultura” e “identidade nacional” genuinamente brasileiras. Um
parêntese: pra quem não conhece a expressão, que não foi usada por mim pela
primeira vez com um outro sentido, não se referindo a Alemanha, Itália e Japão,
os três países que firmaram aliança durante a II Grande Guerra, entre o fim dos
anos 30 e metade dos 40, mas para designar o eixo Rio – São Paulo, esse é o
termo que alguns internautas – de fora do Eixo do Mal, obviamente – usamos para
nos referir a essas duas metrópoles.
Pois bem, voltando: concordei com o
referido professor que, realmente, os gaúchos não têm aquele “quociente de
brasilidade” tão superestimado pelo já referido também Eixo do Mal e que
ninguém entende que #¬&*@ é essa! Por quê? “Ah, porque o gaúcho teve mais
influência dos argentinos e uruguaios na sua cultura que do português, índio e
negro.” te dirá algum professor de história da 5ª série do ensino fundamental.
E ele está errado: recentes pesquisas, feitas por diversos folcloristas,
inclusive o mais renomado especialista em folclore e cultura sul-brasileira,
Paixão Cortes, demonstram que, o que menos ouve no Rio Grande do Sul, foi uma
influência da cultura platina na cultura sul-rio-grandense, que em verdade fora
influenciada, sim, e muito, por portugueses, índios e africanos trazidos como
escravos nos séculos XVII e XVIII. Pasmem! Sim, muito historiador e folclorista
de fora do RS, principalmente aqueles vindos do Eixo do Mal ficaram pasmos com
tal informação. “Ah, mas na fronteira...” sim, sim, amigo, na fronteira ainda
há uma maior troca entre pessoas de dois países do que no resto de seu
território, isso é óbvio! Daí a achar que todo gaúcho brasileiro foi influenciado
da mesma maneira que os nascidos e criados na região de fronteira...
Mas então, o que faz do gaúcho tão peculiar
e diferente do resto dos brasileiros? Bem, comecemos dizendo que nem todo
sul-rio-grandense é gaúcho. Embora, claro, nos digamos todos gaúchos. O gaúcho
propriamente dito é uma pessoa do campo, é um povo de fortes ligações com o
meio agrícola, de criação de gado, etc. O que, por exemplo, não é o meu caso:
nascido no Rio Grande do Sul e tudo o mais, mas essencialmente urbano, não
curto muito o campo, lugares isolados, imensidões de espaço livre, essa coisa
toda. Talvez como um turista, como uma mudança de ares ocasional, mas não me
vejo muito tempo longe de uma cidade, grande, ou pequena. Portanto, se analisarmos
friamente... só o fato de gostar de um bom churrasco de costela na brasa do
carvão, ou da lenha, não faz de mim um gaúcho, não é mesmo...!? Outra coisa: “gaúcho”
não se restringe aos nativos do Estado do Rio Grande do Sul, mas é um povo que
se espraia por todo Norte da Argentina e Uruguai; o próprio RS, Oeste de Santa
Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul, mais boa parte de Rondônia, no Brasil, e um pequeno pedaço do
Paraguai. Há uma identidade cultural e folclórica que está acima das fronteiras
impostas meramente pela política, que une esses vários “gaúchos” – ou gauchos,
como são chamados por nossos hermanos argentinos, uruguaios e paraguaios – numa
espécie de nação própria, sem pátria e sem território próprios.
Sim, isso é uma tese de botequim, sem a
devida pesquisa aprofundada, nem nada. A mesma tese usei em relação aos
amazonenses e ao Amazonas. Que poucos sabem – inclusive aqui, veja você – mas não
era para pertencer ao Brasil. Voltemos às aulas de história lá da 6ª série,
quem lembrar: até o começo do século XIX Portugal não mantinha apenas uma
colônia aqui na América do Sul, mas sim duas: o Brasil, que ia do Nordeste –
exceto o atual Estado do Maranhão – até a atual República Oriental do Uruguai,
e o Grão-Pará, ou melhor dizendo, Vice-reino de Grão-Pará e Maranhão. O
Amazonas, boa parte do atual Norte brasileiro e a Guiana Francesa – sim, sim! –
eram para ser um outro país de língua portuguesa na América do Sul, mas quando
o rei dom João VI veio para cá, fugido das tropas de Napoleão Bonaparte,
resolveu unificar as duas colônias portuguesas numa só, o que causou uma certa
revolta por aqui, provocando até mesmo uma guerra.
A Amazônia também é uma nação sem
território próprio, formada obviamente pelos Estados do Norte do Brasil, parte
de Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, mais as Guianas. O guianês é amazônida,
bem como o surinamês, pelo menos metade dos peruanos, colombianos,
venezuelanos... estes também têm uma cultura e um folclore bastante similares
ao nosso, da nossa Amazônia brasileira. Isso é fato, adianta nada brigar
comigo. O povo da Amazônia brasileira se ressentem e sabem-se isolados do resto
do Brasil. Bom, os gaúchos não temos essa necessidade de sermos reconhecidos
como brasileiros. Nos sabemos como os bascos, galegos e catalães, nações
diferentes unidas de forma meio forçada a uma Espanha. Não temos idiomas
diferentes, temos dialetos diferentes – o gauchês tem algumas diferenças bem
marcadas do amazonês, mas não passam de dialetos de um mesmo idioma, o
português – mas temos uma rica cultura própria que nos diferem dos brasileiros.
Eu não me importo de admitir que sou mais gaúcho – e amazônico – que brasileiro.
Uma é a nação em que nasci, que só não tem bandeira nem Estado próprios, e nem
precisa, a outra é a nação em que me naturalizei, com uma diversidade maior de
idiomas e dialetos.
