Me
lembrei de Nina. Uma guria que conheci, uns anos atrás, no dia
de uma entrevista de emprego, acho que era pra trabalhar de
telemarquetingue, acho que numa escola de informática, não
estou bem lembrado. Mulher linda, inteligente, articulada, etc. Mas,
em matéria de relacionamento, dessas cousas de sentimentos,
emoções... acho que posso dizer, sem medo de errar, que
ela não tinha esse tipo de inteligência mais emocional,
como se diz... era meio fria. Porque diz-que, né, que mulher é
que é mais sentimental, mais emocional, tem mais inteligência
pra essas cousas, que nós homens é que somos os frios e
calculistas, e tal e coisa... tá bom, né, tchê,
pra quê que vamos discutir?! Eu só queria, então,
ser mais homem, pra ser mais frio e não sofrer tanto com essas
roubadas que o nosso coração insiste em nos meter...
mas enfim!
Nina
não era dessas mulheres sentimentais, não, ao contrário
do que ela própria dizia, sendo que uma vez até se
disse “sinestésica”, e desconfio que não usando a
palavra no seu real sentido. E eu sei bem disso daí. Quer
dizer, agora eu sei! Caso contrário, se fosse exatamente a
pessoa que dizia ser, não teria, diversas vezes, brincado com
os meus e sabe-se lá com os de quantos outros viventes! Na
maioria das vezes, desconfio, só para sentir-se desejada,
querida, amada, pra levantar a sua moral, pra ter certeza de que,
haja o que houvesse, sempre tinha algum panaca capaz de se arrastar a
seus pés, a beijar o chão que ela pisa. Toda vez que
estava com a baixa estima lá no alto, ela recorria ao Julinho
“do seu coração”, pra modo de lhe levantar o moral.
E sei que eu fazia isso muito bem... acho que ainda o faço!
Por vezes ela sumia e retornava só quando estava assim, meio
down, como diriam Kleiton e Kledir. E vinha deitar a cabeça no
ombro do Julinho do coração – que sou eu – e
reclamar que estava só, que as pessoas não lhe
compreendiam, que sua irmã, ou sua tia, não sabiam de
nada e blá, blá, blá. Ou então, me
chamava no messenger, quase sempre quando eu estava ocupado com algum
trabalho, da faculdade, do estágio, ou algum dos meus
escritos... e eu parava tudo, só para ficar a sua disposição,
à disposição da Nina, da doce e linda Nina. Seu
nome era Sheila, mas preferia ser chamada de Nina. Era o que me
dizia, pelo menos... nas internet, no tal de iorkuch, eu via vários
“amigos” lhe chamando por outros apelidos, um a denominava de
gazela. Lá na minha terra, gazela é outra cousa... mas
pelo que eu me lembre, Nina não tinha gogó! Enfim,
tentei lhe dar um apelido carinhoso de bichinho, uma vez a chamei de
“coelhinha” no messenger... e ela virou onça! Disse que
não era pra eu nunca mais chamá-la de animal algum, que
não gostava de se ver comparada a qualquer animal que fosse. E
eu, burro e constrangido, nem me lembrei de lhe perguntar: “E
aquele moço, lhe chama de gazela por quê?”. Pra quê
discutir... com cara de guri cagado, aceitei a reprimenda.
Pois
é, tchê, os sinais estavam ali, claros, cristalinos
feito água de poço, os tais carinho, amizade e
cumplicidade que ela dizia serem parte de nossa relação,
não eram recíprocos: de minha parte, achava que
sentíamos igual, mas eu lhe dava mais do que recebia. Mas, o
burro aqui não via. Nem ouvia. Ou melhor, via e ouvia, sim,
mas não queria crer, não admitia, se esforçava
por perceber apenas aquilo que queria perceber.
Pensava
nela, desde a hora que acordava até a hora que ia dormir...
quando conseguia dormir, senão varava a madrugada pensando
nela! Demorei a lhe contar que estava louco de amores, perdidamente
apaixonado por ela. E, de vez em quando, cheguei a pensar que ela
pudesse sentir a mesma coisa, ou algo próximo, porque toda vez
em que ela estava pra baixo, fazia insinuações e dava
sinais de que, se eu quisesse tentar me aprochegar, ela também
estaria afim. E por muito tempo me culpei, achando que, se não
tivesse demorado tanto, até ela ir embora, morar com uma outra
irmã mais velha, funcionária da prefeitura em Manaus,
talvez as coisas fossem diferentes. Claro que era só cousa da
minha cabeça, que não tinha nada a ver e não
fazia a menor diferença. Podia ter me declarado assim, logo no
nosso segundo encontro, que ela agiria exatamente da mesma maneira!
Ela só gostou “muito” de mim, enquanto achava que eu lhe
fosse útil. Tenho amigos que chegaram a me avisar sobre isso,
uns amigos em comum, inclusive. A irmã dela, daqui de Viamão,
acho que quis me avisar alguma coisa assim, num dia aí, de que
só iria me ferrar se me apaixonasse por Nina. Mas é que
não adiantava! Eu já tava muito apaixonado, estava
sempre mais inclinado em acatar o que ela me dizia, não
importando nem as minhas próprias dúvidas quanto a sua
sinceridade. Quando a gente tá perdido assim por alguém,
não tem Cristo que dê jeito, amigo. Eu falo por mim...
E
o gozado é que foi paixão à segunda vista. Já
era um sinal! Sim, porque quando a vi pela primeira vez, naquela
entrevista de emprego que te falei, numa escola de informática
lá perto do quartel do 5º Comando Militar do Sul, na rua
dos Andradas, não tive uma muito boa impressão daquela
piguancha, não. Por sua aparência física, gostei
foi bastante, moça miúda, 1,65m de altura, no máximo,
cabelos longos até a cintura, bem negros, boca um poquito
larga, com um beicinho charmoso, corpo pequeno, mas proporcional à
altura, o bumbum bem torneado dava conta que era adepta da malhação,
pela regatinha branca que usava naquele dia, notava-se que os seios
eram médios, também proporcionais ao corpo, e
pontudinhos. Detalhes interessantes aos olhos, mas mesmo com esses
atributos, havia algo na moça, não sei se o olhar, o
jeito, meio de nariz empinado, ou se havia alguma aura, alguma
energia em volta dela que me fez sentir, à primeira vista, uma
certa antipatia pela guria. Mas sabe que a entrevista era daquelas em
que tu tem que te apresentar, ao entrevistador preguiçoso, num
canto da sala, e às outras pessoas que estão ali
tenteando a mesma vaga pra qual te candidataste... eu também
detesto essas tais de dinâmicas de grupo! Se eu gostasse, faria
terapia psicológica em grupo! Mas enfim, estando nós
lado a lado, e tendo sido separados os candidatos em dupla, acabamos
trocando umas idéias, falando sobre nós mesmos e, como
sobrou um tempinho da tal dinâmica, conversando sobre outras
coisas. E ela me contou que era rondoniense, mas filha de colonos
vindos de Putinga, do interior do Rio Grande do Sul, e descendentes
de italianos. E eu lhe contei que era do Alegrete, fronteira com o
Uruguai, que tinha chegado há uns dois anos a Porto Alegre,
pra estudar jornalismo na UFRGS, que estava tentando um trabalho,
porque, né, aluguel não tava lá muito fácil...
ela disse então que também queria estudar na federal,
mas que só conseguira passar pra advocacia em uma faculdade
particular, dessas novas e pouco conceituadas. O seu cantor preferido
era Jorge Vercilo: menos um ponto. Disse que torcia para o Flamengo,
no Rio, mas que tinha uma certa simpatia por um time do sul, o
Grêmio: menos dois! Mas, depois daquela entrevista, trocamos
números de telefone e endereços de e-mail, e messenger,
mas não esperei que fôssemos mais longe que aquilo.
Nos
ligamos, nos falamos, teclamos, ficamos amigos... e combinamos de nos
encontrar de novo, dessa vez pra um chopp na praça de
alimentação do shopping Total, que fica num prédio
que era da antiga fábrica da cervejaria Brahma. Lá, ao
vê-la chegar, mais ou menos uma hora depois da que tinha dito
que viria, é que deu aquele estalo, e ao vê-la sorrir e
acenar para mim, acabei me encantando naquele sorriso – é
quase sempre assim comigo, começa com um encantamento com um
sorriso bonito – quando dei por mim, já estava perdidamente
apaixonado na primeira troca de palavras.
Mas...
isso foi ela quem me contou, por ocasião da segunda vez em que
nos vimos, ela tinha um namorado. Um alemão, parece que piloto
da Lufthansa, ou Aerolíneas Argentinas, não lembro
direito, também porque não fazia a menor diferença.
Aquilo foi como um banho de água fria. E muito conveniente,
também. Cheguei a pensar nisso, na hora, logo depois me
recriminando por sequer cogitar alguma fraqueza de caráter
numa guria tão bonita, meiga e agradável. Pois é,
né tchê... homem apaixonado fica cego e burro, já
dizia minha avó.
Só
que não demorou muito, não tinha mais alemão. O
bagual não tinha paradeiro, só viajava mundo afora, pra
cima e pra baixo, coisa e tal... sabes, não ia dar certo, a
longo prazo! Isso, mais uma vez, foi o que ela disse. Daí que,
quando começava a tomar coragem, pra me declarar pra ela,
tentando combinar algum novo encontro, mas nunca dava. Até que
aparecia uma nova paixão, um novo homem da sua vida. Aí,
só dava pra sair com a turma – na verdade, as turmas, a
minha e a dela.
Mas,
num verão, pouco antes de eu voltar pro Alegrete, pra visitar
a família, não havia, novamente, nenhum homem da sua
vida e deu o acaso de nossas agendas combinarem e podermos nos
encontrar, num bistrô daqueles meio frescos, lá pros
lados do bairro Moinhos de Vento. Até então, estava
sendo uma noite agradável, o sol só estava começando
a se pôr, eram quase 9 horas da noite, observávamos os
transeuntes, bebemos, conversamos, rimos... e, quando o brilho na
mente, por conta da cerveja, já estava soltando a minha
língua, estava me sentindo pronto para lhe declarar todo amor
que por ela guardava – e que não conseguia mais segurar no
fundo da garganta, sem deixar que saísse pela garganta – ela
pega na minha mão e, com um sorriso que li como meio triste,
como que lamentando por isso, me contou que dali há dois dias
estaria indo, de mala e cuia, para Manaus, morar com a irmã, e
tentar o vestibular para a universidade federal de lá. Mais um
delicioso banho de água fria. Sorri um sorriso amargo e lhe
desejei sorte. Engoli, de novo, as palavras que já vinha
ensaiando.
E
depois de uns dois meses sem dar as caras, sem dizer palavra, sem
aparecer onlaine no messenger, sem ligar, o celular sempre desligado,
ou fora da área de cobertura... veio um e-mail seu: ela tinha
passado, ia mesmo ficar por Manaus, lá do outro lado do país,
no meio da Amazônia. “Bah, que tri!”, foi o que lhe
respondi, “Fico muito feliz por ti, guriazinha!” Claro que menti.
Na internet não tem como ver claramente isso. Mas desconfio
que ela já esperasse não me agradar muito tal notícia.
Ela ficaria longe. Provavelmente já antevira os sentimentos
que me esforçava por não demonstrar, e sabia que a
distância, além de uma boa desculpa, como bem sabia meu
colega Giorgio, que inclusive chegou a me avisar a respeito, seria
uma boa maneira de me enlouquecer, com esses sentimentos que já
começavam a me corroer o coração por dentro.
Mas... o que é que eu podia fazer?
Num
belo dia, uns tempos depois, ela me ligava. Estava em Porto e queria
me ver, pra conversar, matar as saudades, aquele papo de sempre.
Ouvir sua voz já era um sonho doce, já derretia meu
coração, mas voltar a vê-la, isso me animara como
nada mais poderia animar, naqueles tempos. Nesse meio tempo ela já
havia conhecido, namorado e dispensado, ou sido dispensada, por uns
dois homens de sua vida, donos do seu coração, ou
qualquer coisa assim. Pelo pouco que sabia, das vezes que
conversávamos no messenger, geralmente nas madrugadas de
sexta-feira, ela estava sem ninguém. E ainda me lembrava,
talvez estivesse afim. Era mais uma chance que eu tinha para me
declarar, dizer-lhe da minha paixão, quase obsessão, do
quanto gostava dela, do quanto a queria, essas coisas todas. Até
o encontro, no mesmo bar do mesmo shopping da segunda vez que nos
vimos, passei quase uma semana ensaiando, projetando em minha mente a
nossa conversa, como faria, como me declararia, etc.
No
domingo nos encontramos, conversamos, bebemos, olhamos as pessoas que
zanzavam observando as vitrinas das lojas. E depois do terceiro
chopp, adquiri bastante coragem, com a mão pousada sobre as
dela, exitante em fitá-la nos olhos, contei-lhe do que me ia,
há uns dois anos, já, em meu coração. Sem
dúvida vi em seus olhos uma certa surpresa. Ela tirou suas
mãos de baixo da minha, colocou-as sobre os joelhos, e agora
era ela que não conseguia me olhar nos olhos. Ficamos uns bons
minutos em silêncio, sem trocar palavra. Pensei ver em seus
lábios dançar por uns segundos um sorriso de satisfação
um tanto mórbida, mas não queria crer. Ainda mais que
uma ou duas olhadelas dela em minha direção, talvez
simulando algum constrangimento, me fizeram sentir-me culpado por
ter-lhe declarado o meu amor. Voltamos a falar, sobre outras coisas,
ela me contou algumas coisas de Manaus, disse do que gostava por lá,
e do que a fazia sentir imensas saudades da capital de todos os
gaúchos. Depois de mais um silêncio, decidimos ir-nos,
paguei a conta e fomos cada um para um lado, ela pegar o ônibus
para Guaíba e eu caminhar até minha casa, não
muito longe dali. Mas enquanto caminhava, deu pra remoer aquele fim
de tarde, o nosso encontro, etc. Estava com uma sensação
bastante estranha e nada boa. Tinha consciência de que não
fora bem como eu esperava, que ela não reagira da forma que
parecia que reagiria.
Sim,
pois ela, até então, sempre tinha um alguém,
sempre conhecia o homem da sua vida daquele mês, mas não
perdia, jamais, a oportunidade de flertar comigo, de me fazer pensar
que poderia corresponder, quase plenamente, os meus sentimentos. Por
isso achei difícil tê-la assustado, tê-la
surpreendido tanto assim, se flertava comigo da maneira que flertava,
dando a entender que aceitaria uma maior aproximação,
uma maior intimidade entre nós dois, que até lhe
agradaria se a tivesse... mas, apesar da dor praticamente física
no peito, não falei nada.
Mais
tarde, ela voltou pra Manaus, não sem antes deixar-me a par de
que lá havia um “dono do seu coração” lhe
aguardando, que por isso, apenas por isso, por sentir-se obrigada a
ser-lhe fiel, não me daria chance alguma. Eu acreditei que era
isso. Só sei que quando pra lá voltou, não tinha
mais nenhum homem apaixonado a lhe esperar. Já tinha partido
pra outra, o tal índio bagual. Isso não foi ela quem me
contou, fui eu que descobri, quando vi a mudança de status no
seu iorkutchê, e quando um outro amigo virtual em comum me
confirmou, que não tinha mais ninguém e que também
estava tenteando, flertando com ela. Não sei se a ele Nina
pretextou o mesmo empecilho que me dissera haver. Dissera e me dera a
entender que não era porque ela não queria, que não
correspondia a meus sentimentos, era porque não podia... e eu
acreditei, mais uma vez. E mais muitas vezes, depois.
Por
algum tempo não flertava mais comigo... foi por mais ou menos
uma semana, depois voltando ao velho flerte sutil que só as
mulheres sabem fazer, me encantando e engambelando vezes e vezes
repetidas. Não podia me corresponder, porque não dava,
nunca dava, sempre tinha um novo empecilho.
Por
exemplo, num dia Nina me disse que não estava com ninguém,
que não podia me dar nenhuma esperança, que não
poderia nem mesmo cogitar manter uma relação amorosa de
qualquer tipo, pois estaria sofrendo com uma doença grave,
tinha até mesmo medo de morrer! Quem quase morreu fui eu, de
dor no peito, de tristeza e preocupação, tive muito
mais medo de ela partir, como se a tivesse, já, e pudesse vir
a ficar sem ela. Pobre diabo imbecil... se havia alguma doença,
obviamente fora aumentada, mais um empecilho para não estarmos
juntos, mesmo à distância, porque... veja bem, não
é que ela não quisesse... outra vez, acreditei!
Um
dia recebi um e-mail dela. Dizia-se meio deprimida, pensando em mudar
novamente para Porto Alegre, desistir da faculdade de advocacia, quem
sabe, talvez, fazer algum outro curso, mudar de rumo, de emprego, de
cidade... ela não gostava de inverno, mas Manaus já não
lhe era mais tão agradável quanto dissera, das outras
vezes. Dizia ter pensado muito em mim, estaria até cogitando
de vir ficar comigo, dando a entender que admitiria dividir espaço,
talvez morar na mesma casa... “nem que fosse só pra te fazer
companhia”, dizia ela, na mensagem. E sim, eu acreditei. Eu
acreditei! Já estava pensando nas modificações
que teria que fazer, nas adaptações, para recebê-la
e hospedá-la em minha casa, um simples apartamento tipo
kitinete, sem muita mobília, alguns eletrodomésticos
antigos e usados na minha cozinha/quarto/sala: um frigidaire de duas
portas, daqueles primeiros duplex que surgiram, no tempo da minha
mãe. O endereço não era muito glamouroso, nem
era exatamente um bairro do tipo que eu imaginava ter mais a ver com
Nina, o apartamento ficava num prédiozito antigo, na
Garibaldi, próximo ao Indiscretu's – uma casa de tolerância,
como diria minha avó – e ao hospital Presidente Vargas.
“Pelo menos, não fica muito longe do Centro”, pensei eu.
Lhe respondi que “mi casa és su casa”, etc. Mas pouco
menos de dois dias vinha uma outra mensagem, ela dizia que tinha
decidido outra coisa: que não sairia de Manaus, que ia voltar
para o noivo, que ia parar de ficar mudando de rumo toda hora. Sei
que ficou por lá, mesmo, mas o tal do noivo, esse parece que
não aceitou voltar. Alguém me dissera – acho que sua
irmã, de Guaíba – que ela já havia deixado o
mancebo por um paquera que conhecera num forrozinho, um segurança,
que trabalhava no Grupo Simões, a empresa que vende os
produtos da Coca-cola lá pro Norte do país, que também
já lhe dera um amigável pé na bunda. Não
foi difícil entender por que o tal ex-noivo não aceitou
voltar com ela.
Depois
disso, sei que Nina sumiu por quase dois anos, sem dar notícias,
sem sms, nem aparecer no messenger. Quando voltou a aparecer, a foto
de avatar era ela, sorridente, com os braços parecendo duas
jibóias apertando o pescoço de um rapaz com um sorriso
meio cínico e olhar de Alain Delon. Teclando, falou-me que
tinha uma grande notícia: agora iria morar no Rio de Janeiro.
Dizia ela que ficaria mais fácil de nos vermos, do que ela
continuando a morar na Amazônia, que muito em breve ela
voltaria por aqui e iria me visitar. Fora isso, não me deu
muitos detalhes, mas eu já havia somado dois e dois. Nem quis
perguntar de quem se tratava, quem lhe bancaria a casa na cidade
maravilhosa, se seria aquele rapaz atarracado de sorriso cínico.
Depois de tantas, eu mesmo já estava assumindo um ar mais
cínico em relação a ela. Pensei que o rapaz até
poderia levá-la ao Rio, mas que não a levaria pra sua
casa, e que assim que cansasse dela, a dispensaria. No final das
contas, assim se deu. E, já vacinado com todos os empecilhos
que ela criara para não ter dado-me nenhuma chance, só
falsas esperanças, sabia que talvez agora ela estivesse se
iludindo, e não adiantaria nada querer ser seu amigo e lhe
avisar. Confesso, senti algum prazer mórbido, ao saber de seu
desengano! Senti-me, até, de certa forma vingado. Não
me orgulho disso, mas enfim.
E
então, foi-se mais um ano em que Nina sumiu completamente,
como gostava de fazer, quando estava se sentindo o máximo, sem
deixar rastro, nem mandar notícias. Por um tempo até
lhe enviei mensagens de e-mail, pedindo encarecidamente que ela se
pronunciasse, que mandasse notícias. Mas sem muito entusiasmo.
Já estava saindo pras baladas da Cidade Baixa, sozinho, ou com
a turma, já estava mais interessado na campanha do meu Inter
na Libertadores e no Brasileiro; me preocupavam as eleições
de outubro e a simples lembrança de Nina já não
me causava, nem nostalgia, nem tristeza, meu peito já não
doía mais como se estivessem enfiando pregos em meu coração.
Conheci uma guria no Beco, uma loirinha de sorriso insinuante e
grandes olhos verdes-água, que não me fez esquecer
totalmente de Nina, que na verdade não influenciou em nada:
Nina já era um fantasma distante que não me assombrava
mais. Na mesma noite em que conheci Amanda, mandei uma mensagem a
Nina, uma despedida. Falei que devia ter medo de perder de perder as
pessoas que me eram importante, mas só se realmente as
tivesse, se também fosse importante para elas. Mandei-lhe
desejos de felicidades, mas na verdade já não me
importando com o que lhe acontecesse, dali em diante. Ela não
era mais nada para mim. Senti-me liberto, após enviar a
mensagem.
Depois
disso, saí várias outras vezes com Amanda, ficamos,
namoramos, passamos uns 15 dias numa casa alugada em Capão da
Canoa, no verão, terminamos. Sem expectativas destruídas,
sem decepções, sem traumas. Eu estou solteiro, sozinho
de novo. Serei padrinho do casamento de Amanda, que vai ser na
catedral de pedra, lá em Canela, mês que vem. Ficamos
amigos! E nesse meio tempo, recebo uma mensagem, depois de mais de
ano, da nossa querida Nina. Dizia-me que não devia sentir-me
triste, que não deveria ficar assim, tão perdido, sem
ela. Nossas vidas seguiam, não tinha por quê isso... que
não importava o que eu tinha feito, se agisse diferente, que
ainda assim as coisas teriam acabado da mesma forma, e tal. Que eu
mesmo havia me enganado. Foi o que ela falou. E eu? Eu ri... o que
mais poderia fazer?! Eu dei uma gostosa gargalhada, como há
tempos não dava. Mandei-lhe uma resposta, também, curta
e grossa: eu agi como deveria agir, nada do que fiz, nem do que
disse, eu mudaria. As coisas poderiam, sim, ter acabado de outra
forma... mas só se ELA agisse de outra forma! Mas que ela não
se preocupasse com isso... não fazia a menor diferença,
agora!

Dito
isso, a deletei. Da agenda do meu celular, do messenger, da minha
lista de contatos de e-mail, da minha vida. Aí ontem ela me
adicionou nos seus amigos do Feicebuqui...