PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Propaganda Negativa

Ouvi ontem à noite alguém falar algo do tipo: “se a boate Kiss estivesse em Belém do Pará, já tinham reaberto.” Sim, não duvido, acredito mesmo que sim! Em Santa Maria – interior do Rio Grande do Sul – também! O que impede, na realidade, de reabrirem a Kiss é o fato da “propaganda negativa” ter sido muito grande, ter repercutido muito mal, inclusive com projeção nacional e internacional! Sabe como são essas coisas... houveram mortes... e não foram poucas! Os donos da casa noturna e os músicos da banda que fez a cagada do show pirotécnico foram indiciados por homicídio doloso... e isso tudo complica um pouco o cronograma de reabertura! Se a casa só tivesse pegado fogo, se não tivesse morrido ninguém, ou pelo menos o número de vítimas não tivesse chegado ao absurdo de 239... aí, claro que um mês depois ninguém lembraria mais, teria havido alguma propaganda negativa, mas a casa já estaria de volta em funcionamento, as pessoas voltariam a frequentá-la como se nada tivesse acontecido, o vocalista da banda já estaria solto e espocando rojões em locais fechados, tudo bom, tudo bem, tudo na mais santa paz!
Porque, vamos e venhamos, amigo “estou no pior lugar do mundo, esquecido por Deus”, o único motivo para não haver uma boate Kiss em sua cidade é o puro acaso! Somente por acaso ela não foi estabelecida na sua cidade, bem como o Remulo's não existe em Santa Maria pelo mesmo motivo! Se um desastre como o que ocorreu lá acontecesse no Dama da Noite, a “propaganda negativa” teria exatamente as mesmas proporções e apenas e tão somente por ela não teria mais voltado a funcionar. O saldo positivo, se é que se pode dizer assim, de toda essa “propaganda” sobre a boate Kiss é de que foi chamada a atenção das pessoas sobre as condições de segurança dos locais que costumamos frequentar – inclusive shopping centers, escolas e igrejas – e o poder público, meio a contragosto, se obrigou a aumentar a vigilância sobre esses mesmos lugares. A esperança é sempre a mesma, de que desta vez as pessoas não esqueçam, não deixem de cobrar as autoridades e, quando fizer um ano do incidente, as coisas estejam bem melhores. Senão, aí é imagina na Copa!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

#Chateado!

To chateado... mas chateado mesmo, tipo # chateado! Quase um mês sem computador, usando internet de celular, enquanto não tenho maneira melhor de acessar as redes sociais, escrevendo mais ao ponto de as ideias estarem até meio esgotadas! Quero viajar... quero praia... quero conhecer lugares novos... estou muito # chateado! Estou entediado... estou viajando nas fotos de viagens de outras pessoas... estou pensando em dar uma passada no aeroporto, no final de semana... ver os aviões decolarem, me imaginar subindo em um deles... aquele que estiver levando passageiros para Manaus terá overbooking, pois meu espírito vai embarcar nele!
Minh'alma quer praia, ela tá afim de molhar os pés no mar. To tão afim de pegar uma praia que decidi hoje que as ondas do rádio iriam me levar até lá, sintonizei uma rádio de Florianópolis on-line! To tão afim de praia que to pensando em pegar uns caraminguás e rumar para alguma praia “nudista”, tipo Cidreira, Balneário Pinhal, Quintão, Praia do Peixe...
Tá tão grande a vontade de viajar que tenho viajado no tempo e no espaço... tenho viajado por lugares que nos antigamentes parecem até legais, tenho viajado à Floripa dos meus tempos de moleque, quando meu pai enchia de tralhas a Brasília azul e levava a gente pra lá, no verão... ou então, ao porto de Rio Grande, à bela praia de água doce, repleta de figueiras, de São Lourenço do Sul, à fronteira com o Uruguai, onde hoje eu iria pra comprar uns produtinhos eletrônicos, comer parrilla, beber várias Norteñas e perder um pouco de dinheiro num cassino... saudades, Rivera!
Hoje eu queria estar traçando rotas e cursos para viajar. Hoje estou romanceando, desejando ter algo como um barco, ou um motor home, qualquer coisa que me permitisse botar a casa nas costas e sumir estrada afora. Queria ser o novo 50 por 1, traçar um plano, cinquenta destinos, passar o resto do ano na estrada! Pois já estou viajando em tempos que nem sei, estou indo a lugares que ninguém quer ir, imaginando até como será o Irã, no futuro! Pirando o cabeção! To chateado pra caramba, preciso férias longas, quero, preciso viajar!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O IRÃ EM 3030 parte II



Como sabem, as relações entre Irã e Estados Unidos estão com as relações estremecidas, por causa da decisão do governo americano em aumentar o preço da água mineral, que se tornou o produto mais valorizado, após a crise da água potável de 2222, ultrapassando inclusive o ouro e o petróleo, que também anda já muito escasso. O pré-sal brasileiro, tão propagado mundo afora, como a solução para o risco de escassez do produto, no início do século XXI, não deu nem pro cheiro, durou pouco menos de 30 anos, e olhe, olhe!
Só que para matar a sede, o petróleo não é o líquido mais indicado, mas sim a água, por isso a partir do século XXIII os valores foram invertidos, e países com água em abundância passaram a ditar novas regras ao mercado. O 1º Mundo não teve outra saída, teve de se submeter... até agora!
O Irã, agora, é uma nação desenvolvida, uma superpotência armamentista e econômica, à frente de um poderoso bloco econômico, o do Médio Oriente, que inclui Paquistão e Afeganistão. Porém, o Irã depende muito da água vinda do ocidente, sobretudo das Américas, principalmente Brasil, Colômbia... que, por sua vez, dependem muito do mercado consumidor norte-americano. Por conta disso, o governo estadunidense resolveu comprar uma briga com o Oriente Médio, em especial o Irã, aumentando o preço da água mineral, o que acabou causando um efeito cascata por todo continente.
O governo iraniano, obviamente, não gostou nem um pouco disso. Dona Nazira Ahmadinejad, presidente da República, prometeu retribuir com boicotes a outros produtos, um embargo geral, mais pesado, como era o embargo a Cuba, durante os séculos XX e XXI, e, como última alternativa, recorreriam a solução armada, ou seja, à guerra. E era essa a perspectiva que mais preocupava Rudí, apesar da tranqüilidade quase zen-budista de seu pai.
Seu Mahmoud estava 50% certo, o povo iraniano encarava a situação mais ou menos desta forma: só porque o governo estava boicotando os produtos norte-americanos, isso não significava que eles tinham de boicotar as franquias de empresas daquele país, como era o caso da rede de fast foods McDonald’s. O problema é que, com oo embargo, ficava bem mais difícil contar com alguns produtos da marca, que só eram fabricados, ou comercializados pelo país de origem. Seu Mahmoud não esquentava com a eventual de bacon, mas seus filhos já começavam a preocupar-se por ele. Principalmente quando o embargo deixou de ser somente praticado por Irã, passando a ser adotado por todos os países do bloco. Aí é que as coisas começaram a ficar realmente bravas pra seu Mahmoud manter sua lancheria!
Pelo menos Rudí já estava formado, agora, trabalhava numa indústria de componentes nanotecnológicos para uma montadora de eletroeletrônicos e celulares coreana, instalada na Zona Franca de Itacoatiara, no Brasil. Tinha um bom salário e comprou recentemente um excelente apartamento de andar inteiro, giratório, em um condomínio de classe média alta em Teerã; estava tentando convencer o pai a aposentar-se definitivamente e ir ocupar uma das três espaçosas suítes do imóvel, não obtendo lá muito sucesso.
Em março, as relações entre Irã e EUA foram formalmente rompidas, após o pronunciamento do presidente Amos Van Damme, que acusava o embargo econômico médio-oriental de injusto, arbitrário, classificava como um mero capricho de mulher – uma alfinetada em dona Ahmadinejad – e um ranço de viés socialista/comunista. Dona Nazira respondeu com um discurso inflamado, numa coletiva em frente ao Novo Palácio do Povo Iraniano, disse que os americanos ainda não tinham aprendido com seus erros de séculos atrás, que não tinham nem metade do poder que um dia tiveram e ainda assim empinavam seus narizes ao tratar com outros povos, creditando a si mesmos uma pretensa superioridade.
Assistindo à coletiva, no telejornal noturno, Rudí percebeu, através de comentários de amigos e colegas, que a opinião geral era só uma: aquilo não acabaria nada bem!
E tudo, realmente, indicava que a situação tinha ido longe demais. Tanto que num fim de semana, em fins de abril, quando a família estava reunida, para receber a visita da irmã de Rudí que morava no Brasil, Norí, os governos americano e iraniano tinham fechado suas respectivas embaixadas e retirado seus respectivos diplomatas e a presidente foi novamente a público justificar suas razões e pedir apoio popular a sua decisão de entrar em guerra com os Estados Unidos. Rudí ficou espantado, pois a reação de sua irmã foi algo zen-budista, como a do pai, lamentando apenas: “Poxa vida, isso vai me atrapalhar na volta a Boa Vista...”
“Puxa vida, Norí, te preocupa só isso?!”, protestou o rapaz. “E o fato de entrarmos em guerra, isso pra ti só significa que vai ser mais difícil a tua volta ao Brasil??”
“Égua porra, e tu acha isso pouco, é?! Téleso, sabe quanto custa a remarcação de uma passagem aérea, ainda mais internacional, tem a questão cambial, etc, sabia disso, mermão?! Sem falar que nem vou poder esperar pelo fim da guerra, pra voltar a trabalhar, tá sabendo disso?”
“Tenha paciência com teu maninho, minha filha... o guri nem nunca saiu do país, nunca foi nem a Meca, imagina Belém (do Pará)!”, disse seu Mahmoud, rindo e procurando tranqüilizar a filha. Voltou seu rosto de ar tranqüilizador ao filho: “Fudí, tens que ter mais calma, essas coisas de política são assim mesmo e não somos nós quem vai concertar...”
Nazíbi, o irmão mais velho e oficial da Aeronáutica iraniana, orgulho da família, por ter sido o primeiro iraniano a pisar em Marte, falou: “Tá certo, véi, mas eu entendo o ponto de vista do Rudí. Os políticos brigam e quem paga o pato é sempre a gente, sempre o povo trabalhador, é sempre assim... por exemplo, como é que o senhor ta se virando com a tua lancheria?”
“Até tu, Nazíbi, filho meu?! Meu jovem, fica tranqüilo, já tô tratando com uma outra rede de fast food, vou largar o Mc Donald’s... essa é brasileira e tem um nome árabe, acho que agora vai!”
“Ai, pai, fico feliz, com certeza vai fazer sucesso, lá essa empresa é maior que as yankees!”, apoiou Norí.
“Além do quê”, continuou seu Mahmoud, com sua típica expressão zen-budista, “se ninguém cede, o melhor mesmo é acabar logo com isso e ir pra guerra! Quebra o pau e aí, ou tudo se resolve, ou tudo se arrebenta! Não concordas, Nazíbi?”
“É, concordo, graças a Alá que não estamos nos tempos em que tudo se arrebentava pra todo mundo, agora as guerras têm vencedores e os vencidos têm que acatar...”
“Sim, verdade, graças ao bom Alá... e, que nossos governantes não me ouçam, temos que dar graças também aos americanos, por isso!”
Nazíbi, com um riso frouxo, levantou o copo de guaraná trazido pela irmã da Amazônia e brindou: “Um viva a John Brennan!”, no que foi acompanhado pelas irmãs, filhos e sobrinhos e também por seu Mahmoud, o patriarca. Rudí não aderiu ao entusiasmo de sexta-feira dos outros e somente balbuciou: “Quem é esse tal Brennan?” Nazíbi pousou a mão no ombro do irmão mais novo e com uma gargalhada, respondeu: “Rudí, te senta bem ereto e confortável, que essa é uma história longa... e lá vem ela!”
Continua...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Irã no Ano 3030




Na Universidade de Teerã, naquela noite, o ambiente estava tenso, a faculdade toda estava em polvorosa, todos os alunos discutiam uma grave polêmica: Sarah, uma transexual operada no Marrocos beijou, na boca, o jovem Aziv, no Big Brother Iran-Iraq (BBII). A grande questão, que instigava até alguns dos professores, em discussões acaloradas, era: sendo Sarah operada, ela agora poderia ser considerada mulher, ou seria o rapaz viajado, educado no Ocidente e formado numa faculdade de Buenos Aires, homossexual?! Houve quem evocasse o Alcorão e previsse para o casal do reality e até para os produtores do programa e os donos da rede de tevê, a eternidade no inferno, após suas mortes. Mas a voz que disse isso não se levantou muito, foi meio tímida e logo calou-se, quando outra pessoa disse, às gargalhadas: “É, leva esse assunto pros aiatolás, pede que façam a revolução outra vez!” Todos se riram. O jovem acadêmico de Ciência da Nano-computação somente ouvia, sem demonstrar muito interesse, a discussão, que continuava no ponto de aerobus, no fim das aulas, quando foi intimado a opinar por um colega: “E tu, Rudí, que achas disso?”
Rudyard – sim, esse era seu nome – olhou para o amigo com um ar assombrado, piscou os olhos duas vezes, como se tivesse sido despertado de um sono profundo, demorou ainda quase um minuto pra responder, gaguejando: “Mas... mas... tchê, eu nem assisto esse programa!”
“Tá, então tu não viste o tal beijo que todo mundo tá falando, mas sabe o que aconteceu!”, retrucou o colega. “E aí, o que tu achas dessa história?!”
“Ah, cara, quer saber o que eu acho mesmo?”, disse Rudí, “Acho que cada um com seus problemas!”, respondeu sem emitir opinião e encerrando o assunto. Deu graças a Alá, quando viu o seu coletivo se aproximando, fez sinal para parar, se despediu dos amigos e seguiu viagem, enquanto eles continuavam acaloradamente a discussão.
O rapaz morava numa pequena cidade próxima a Teerã, Gorgan, ainda na casa do pai, que ficava nos fundos do negócio da família, uma lanchonete, franquia da cadeia de fast foods Mc Donald’s. Seu Mahmoud trabalhava de sábado a quinta-feira, das 9h da manhã até a meia-noite, para pagar os estudos dos dois filhos e três filhas. Rudí estava no sexto e último período de faculdade, enquanto seu irmão e irmãs já estavam com a vida ganha, por assim dizer. Inclusive sua irmã mais velha esava em Boa Vista, Roraima, era gerente do maior banco de crédito das Américas, que havia começado como uma pequena cooperativa de crédito, em Santa Cruz do Sul, lá no início do século XXI.
Todas as noites, Rudí chegava da faculdade e parava na lanchonete do pai, pra comer qualquer coisa, tipo um quarteirão com queijo e ajudá-lo a fechar o estabelecimento. Bem dizer, esse era todo o seu trabalho. O pai nem queria, pedia para o filho passar logo para o apartamento deles, nos fundos e ir descansar, que ele levaria o seu lanche até lá. Queria que ele só se preocupasse com os estudos e nada mais, mas o garoto também queria ser minimamente útil ao pai, não queria sentir-se um estorvo para o velho, que já tinha seus setenta e poucos anos...
Nessa noite, o pai até gostou de ter a companhia do filho, pois o movimento na lancheria não estava assim tão grande, no momento em que o rapaz chegou havia só um cliente ainda, um caminhoneiro sem muita cara de iraniano... a coisa estava assim nesse pé, hoje o Irã recebe imigrantes de países que foram ricos um dia e agora pertencem ao 3º mundo, como Austrália, Japão, Suíça... por isso seu Mahmoud nem estranhava o freguês que falava persa com um exótico sotaque texano. Rudí aproveitava o pouquíssimo movimento para fazer sua refeição de hambúrguer e refrigerante de guaraná em uma das mesas de canto, enquanto assistia ao noticiário na tv de tela holográfica digital. Sua atenção fora chamada por uma matéria preocupante, o governo norte-americano anunciava um aumento considerável no preço da água mineral e, em contrapartida, a presidenta iraniana, Nazira Ahmadinejad, ameaçava os Estados Unidos com boicote, embargo e, se nada disso funcionasse, a guerra!
Quase que automaticamente, o rapaz olhou para seu velho pai, que aparentava permanecer alheio ao assunto, mesmo estando ele também assistindo ao noticiário. Timidamente Rudí chamou-0: “Pai... ô pai! O senhor não ficou preocupado com essa última notícia aí?”
“Eu? Com quê... ah, tu dizes com esse pronunciamento da madame presidente!? Não mesmo!” E deu uma gargalhada farta. “Eu conheço bem a peça, meu filho, essa daí é só garganta!”
“Sim, mas... e se ela cumpre com todas as ameaças?? E se chega a entrar em guerra com os americanos??”
“Meu filho...”, começou seu Mahmoud a argumentar com seu ar zen-budista, “o trisavô da dona Nazira já esteve sentado naquela mesma cadeira e também era mais fanfarrão que qualquer outra coisa! Ameaçava os yankees e os israelenses dia sim, dia não e não saia das bravatas! Hoje nosso país e Israel são até líderes e parceiros do nosso bloco econômico.”
O moço coçou a cabeça, concordando, ainda com um ar de dúvida. “Ok, eu sei, pai... mas li no Teeran Times que tem guerra aí que já ta com mais de 50 anos! Parece que é a questão da Kashemira, entre Índia e Paquistão...”
“Aham, tô sabendo, também li o jornal no meu iPad 5000” disse seu Mahmoud, com um sorrisinho irônico, “E tu sabes que a população desses dois países, principalmente da Índia, só faz crescer! Parece que a Índia tá pra chegar ao número mundial de 2010, 7 bilhões de habitantes!”
“Sim, sim, tá certo, mas pai... se os americanos quiserem também a guerra, isso não vai ser um problema? Dizem que eles não tão com todo aquele potencial, mas que ainda é bom tomar cuidado com eles...”
“É, é, é, sei disso tudo...” disse o velho, fazendo um gesto de pouca importância. “Mas eles, hoje, não são mais aquela potência mesmo, não... um dia eles eram os fodões e botavam banca onde eles quisessem, mas hoje não é mais assim. Além do mais, hoje eles precisam muito mais de nós e do nosso poder econômico, que nós do deles!”
O rapaz calou-se por uns instantes, para poder ajudar o pai a empilhar as cadeiras, fechar as portas e escurecer as janelas amplas de película super-fina e super-resistente transparente. Por fim sorriu, concordando: “Tá certo, pai, o senhor tem razão nisso... mas pai... tendo a tua lancheria a marca de uma empresa americana, não tens medo desse boicote do governo?”
Seu Mahmoud parou e olhou para o filho por uns instantes, pensativo, antes de responder: “Pois olha, Rudí... se depender da clientela, esse boicote não vai afetar o consumo. Primeiro, que o povo tem que comer e fast food é mais rápido, prático e barato que comida iraniana de verdade. E segundo... convenhamos, esse povinho se preocupa mais com suposto beijo gay num reality show que com as falácias duma presidente... então, dum jeito, ou de outro, não morreremos de fome, meu filho, podes ficar tranqüilo!”

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sonífera Ilha



Puxa, é mesmo! O RS é melhor em tudo, é um outro país, abençoado por Deus e bonito por natureza... mas que beleza! Graças a Deus, aqui não temos problemas de logística, as distâncias não são gigantescas, estamos diretamente ligados ao “Brazil de verdade” (o Sudeste) por via rodoviária, não temos nem a necessidade de navegar, pois todo o estado é interligado por estradas! Realmente, é a terra sem males, vem pra cá que você vai ver! Pela propaganda oficial do governo dá pra ver que o RS cresce como nunca antes na história deste país! Só que há umas coisinhas que não encaixam... por exemplo, por que Porto Alegre tem a segunda cesta básica mais cara do país, perdendo para São Paulo, sendo que essa cesta básica já foi a mais cara do país, não faz muito tempo!? Ou então, por que diabos os dois estados que mais sofreram com desabastecimento de combustíveis derivados de petróleo, no fim do ano passado, foram o Amapá e o Rio Grande do Sul?! Sem você, em tese, tem toda infra-estrutura para o transporte, como é que vai passar o mesmo trabalho de quem não dispõe da mesma infra-estrutura? Das duas uma, ou você não dispõe, ou ela é falha!
E a grande verdade é que o RS está isolado do resto do país, quase amazonicamente isolado, tão isolado quanto o Amapá, pasmem, amigos! E, estando isolado, fica estagnado, desmentindo o crescimento fodástico das propagandas oficiais, pois, sem ter as condições de escoar a produção agrária, ou industrial, o crescimento do Estado fica seriamente comprometido.
O grande problema deste e dos governos estaduais anteriores é essa dicotomia que tanto orgulha aos gaúchos, da grenalização. Graças a ela, as estradas do Estado foram sendo sucateadas, as nossas bacias hidrográficas não têm o seu imenso potencial aproveitado, várias das cidades gaúchas ficam praticamente ilhadas, enquanto políticos, empresários e o próprio povo discutem, em debates infindáveis, a necessidade de novos meios de transportar, escoar a produção, trazer os produtos necessários e organizar o tráfego.
Porto Alegre é uma ilha, não no sentido literal da palavra, mas não deixa de sê-lo, por isso. Tem uma única via de ligação com o centro do Brasil, incluindo a Capital Federal, Belho Horizonte e Goiânia, por exemplo: a BR – 116. Para comunicar-se com o leste do país, passando pelo porto de Santos, Rio de Janeiro e Salvador, a única via é a BR – 101, passando pela BR – 290. A 101, aliás, já está sendo triplicada no trecho de Santa Catarina, enquanto que, no trecho que toca ao RS, ainda discutem a necessidade de duplicação. O caminho da fronteira (com o Uruguai e a Argentina), sul e região central do Estado – onde fica Santa Maria, pra quem quiser saber – para a capital e dali para o Norte, Centro e Leste do Brasil passa por uma só porta de entrada, a cinqüentenária ponte sobre o lago Guaíba, cuja capacidade de ser levadiça, hoje, causa mais transtornos do que traz vantagens. Aliás, quando emperra – e isso tem sido cada vez mais freqüente – a ponte é capaz de ilhar metade da Região Metropolitana, se não toda, e mais toda metade Sul do RS! Enquanto isso, se discute há décadas a construção de uma nova ponte e a desativação da antiga. Há bem pouco tempo, creio que não fez um ano, ainda, começaram a subutilizar o Guaíba como via de transporte, atualmente só de passageiros; a prefeitura e o governo estadual implantaram um serviço de catamarãs, ligando o centro da capital ao da cidade de Guaíba, do outro lado do lago. Uma boa idéia, mas que ainda subutiliza a potencialidade do lago como “estrada” de conexão com outras cidades da Região Metropolitana. E você aí menosprezando a sua “estrada de rios”, hein! Francamente... curiosamente, ninguém ainda discutiu a possibilidade de fazer a travessia com balsas, só não se sabe se isso é bom, ou é ruim!
O governo Federal é que, de vez em quando, dá um empurrãozinho nas coisas, mas por aqui, isso ajuda muito pouco. Como já foi dito, a BR-116 já está estourando a sua capacidade, quase todo estado depende dela, mas as regiões metropolitana e vale do Sinos e serrana, por si só, já conseguem saturar toda sua capacidade! E não existe sequer a possibilidade de duplicá-la, várias cidades cresceram e se formaram em torno da rodovia. O governo Dilma é que começou a construção de uma via alternativa, a BR-448, ligando Porto Alegre ao vale do rio dos Sinos. Sim, é uma obra importante, mas que já nasceu saturada, infelizmente.
Enquanto isso, entra governo, sai governo, o Estado amontoa estudo em cima de estudo de viabilidade, os deputados na Assembléia Legislativa discutem os prós e os contras e se há mesmo a necessidade(!!) de uma estrada estadual, agora segunda via alternativa à BR-116, ligando Porto Alegre, região metropolitana e vale dos Sinos... com um nome pomposo de “Rodovia do Progresso”, ou apenas ERS-010. Desde 2000, há treze, TREZE ANOS, só se discute e se projeta a tal rodovia. O atual governador, Tarso Genro, escanteou o último estudo feito de viabilidade e junto o projeto da rodovia, só porque havia sido encomendado pela governadora anterior, que pertence a um partido de oposição ao governo federal. Dois anos, setenta matérias de jornal e reportagens, quinhentos programas de debates da TV Com depois, o nosso digníssimo governador, ainda ante a lentidão nas obras da nova rodovia federal, que além disso está sendo investigada por MPU, TCU, ou qualquer coisa assim, decidiu desencavar a tal Rodovia do Progresso, a qual já julgava provável e definitivamente sepultada, e diz que mandará fazerem novo estudo de viabilidade, para então encomendar novo projeto, que obviamente não terá nem data pra começar a sair do papel... isso, se ficar pronto antes das próximas eleições, é óbvio!
Solução para os problemas de tráfego e logística no RS, soluções para desafogar o trânsito e tirar o estado do isolamento em que se encontra? Existem várias, muitas muito boas, mas todas elas passam pela resolução do nosso principal problema, a grenalização! Até lá, a terra sem males só vai existir na propaganda do governo, mesmo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Paralelas #3


Ah, tá!! Cês acham mesmo que aqui pra baixo é que tá bolinho! Juram por suas mãezinhas que no país não há lugar pior que o vosso lar! Teimam em tentar me convencer que só na sua cidade existe desorganização, crescimento desordenado, banditismo, violência, educação deficitária, política de clientelismo, corrupção, etc, etc, etc. Se não acreditam nisso, então estão fingindo que sim!
Tá certo, é mais fácil olhar pro próprio umbigo e perceber melhor os erros quando estão na porta da nossa casa. E fica mais difícil perceber oos problemas do outro olhando de longe, tem coisa que nem com luneta a gente consegue enxergar! Tem caboclo que olha pra cá e acha que vai ver, em todas as cidades, aquela atmosfera “européia” de Gramado e Canela. Sente “invejinha” da estética do frio, acha que aqui não faz verão, ou quer crer, pelo menos, que aqui é uma terra sem males, climatizada permanentemente arejada por um split de 7.000.000.000.000.000.000 BTUs. Desde curuminzinho, aliás, desde piazito que ouço que aqui é “um outro país”... não acredito nisso faz é tempo, porque... não vou me repetir, já falei isso acima! Em tempos mais ingênuos até acreditei nesse papo, pensava “aqui tá ruim, mas ainda é melhor do que lá”. Me consolava com isso, até sofrer uma pequena desilusão e descobrir que não era bem assim. Depois, ao sair para explorar o mundo, fiquei até feliz ao descobrir que aqui não é assim tão diferente daí, dali, de acolá!
Mas ainda falo com gente que tem a tal invejinha do frio. Gente que não leva fé no que digo, que acha que vai chegar aqui e dar de cara com uma cidadezinha dos Alpes suíços, ou com uma Liverpool, com a vantagem de falar a mesma nossa língua. Já tiveram uns cabocos que chegaram por aqui e tiveram a pequena grande decepção de que falei. Eu avisei, não avisei?! Aqui não é “Brazil”, aqui é periferia, também. Aí é província?! Aqui também!! Quer discutir e convencer a problemática?! Ok, borá discutir! Vamos falar do trânsito e transporte, então!! MAS, num próximo texto...