Estava sentado, pensando... pescando, ou
pescoçando seriam os termos mais corretos. Sem o computador para dispersar-lhe
as idéias, no entanto, falta-lhe o som, a música, as discografias de Tim Maia e
Marisa Monte. Não, o silêncio não lhe incomoda, não, às vezes a ausência de som
lhe traz a doce paz, mas é isso mesmo, a doce paz é boa para dormir, quando não
se pode, o silêncio só traz o tédio, o marasmo, as idéias não se movimentam e
fica-se sonolento, os olhos ardem, como se tivesse passado uma noite
mal-dormida...
Até gostaria de escrever, mas as idéias estão
dormentes, elas também se encontram sonolentas, tediosas e entediadas. Os
bocejos se prolongam, os olhos pesam como se as pálpebras fossem de chumbo.
Desejava estar em casa, dormir a tarde toda, deitado no colchão, sob as
cobertas, estirado, só o som do ventilador soprando o silêncio. Olhando o
calendário dependurado na parede, admirando a foto da praia de Ipanema, desejou
estar lá, ao sol do Rio de Janeiro, jogadão numa esteira, sob uma barraca de
praia, óculos escuros, havaianas enterradas na areia fofa, ressonando à beira
mar, a brisa, as ondas, a maresia.
Queria não estar sentado a uma
escrivaninha, preferia até mesmo estar num diminuto acento de avião, preferia
estar sacolejando dentro de um ônibus pela Estrada do Mar, tostando só o lado
direito do rosto ao sol e recebendo o vento da estrada nos olhos. Estaria
parado, mas em movimento! Neste momento, aliás, desejaria é estar parado
deitado em uma rede em Jericoacoara! Não, ainda não conhece essa praia, o que
não impede de desejar umas longas férias por lá! Neste momento, o que se quer é
dar asas ao seu lado nômade, ao seu “eu” cigano. Viajar, estar andando, até
mesmo por seu habitat, as ruas esburacadas da Zona Lerte, as vielas de chão de
tábuas nos rif-rafs da vida, pois já começou a sentir falta disso. Caminhar,
subindo e descendo lomba, andando pelas ruas de comércio popular e as de má
fama do Centro Histórico, com aqueles prédios decadentes e mal cuidados, de
portinhas estreitas que se abrem para corredores escuros e muito suspeitos. Nem
o mais destemido mochileiro andaria por onde ele já andou, isso é para turistas
andarilhos, verdadeiros ciganos, nômades, que não têm destino, que não se
preocupam com hora e lugar para parar!
Seu desejo é conhecer novos lugares,
respirar novos ares, quem sabe rever lugares aos quais não vai há anos, andar
por onde seus pés jamais pisaram, ou pelo menos não pisam desde que era piá,
seria bem melhor que ficar aqui, sentado, sonolento, dormitando. Viajando,
novos pensamentos poderiam surgir, refrigerar sua mente, uns bons sentimentos
podiam se regenerar... era melhor caminhar, andar, sem destino, sem rumo, sem
esperar o coletivo passar. Neste momento gostaria, muito mesmo, é de viajar!
Nenhum comentário:
Postar um comentário