Hoje chamam de mini mercado, ou mercadinho, mas, na nossa infância, chamavam de armazém, venda, ou taberninha... local onde você encontra de tudo: pão, misturas, erva mate e pupunha a granel, pirarucu seco pro almoço de sexta-feira santa, uma caninha da boa, envelhecida em barris de carvalho e um ou dois dedos de prosa... entre e fique a vontade!
Foi
o mais próximo de um músico que conheci. Pessoalmente,
quero dizer. Não é o Zé da Folha, esse eu
conheço como qualquer pessoa que já tenha frequentado o
calçadão da Rua da Praia (ou Rua dos Andradas, para
quem preferir), ou a Praça da Alfândega, conhece, de ver
de passagem, de ouví-lo tocar seu violão, bater o
pandeiro com o pé e assoprar sua folhinha. É, ele é
um músico de rua, como tantos outros que nunca, ou quase
nunca, chegam à grande mídia. Mas parece que o Jô
Soares entrevistou o Zé da Folha, uma vez. Sim, foi só
isso... lhe rendeu umas matérias no Jornal do Almoço –
um jornalístico local, da afiliada gaúcha da Rede Globo
– uma participação numa vinheta de fim de ano da
emissora e uns meses de plateia lotada parada no calçadão
para vê-lo tocar.
Antes
que perca o fio da meada, no dia do músico tentei pensar em
alguém que eu conhecesse a quem pudesse parabenizar pela data.
Só lembrei de um amigo. Tocava violão, viola e
guitarra. Não tinha um timbre vocal lá muito bonito,
mas cantava razoavelmente bem, afinado e dentro do tom. Pensei em
cumprimentá-lo pelo seu dia, e então lembrei que só
em pensamentos e preces poderia fazê-lo. Não poderei
fazê-lo mais, pelo menos, não diretamente.
Dia
desses vi que o Botafogo, seu time, tinha empatado com o rival do
meu, atrapalhando-o de encostar no Fluminense, campeão desta
temporada. Pensei em comentar com ele e desisti na hora. Não
poderia mais falar do seu time, do campeonato, dos resultados, de
futebol, enfim. Nem conversar sobre música, política e
coisas do gênero. Mas falávamos sobretudo de música
e futebol. Conversávamos sobre os rumos da música
popular brasileira, sobre esse tal sertanejo universitário,
sobre o funk, que nos parecia tudo, menos música, sobre o
Latino, o tchê-tchê-rere-tchê-tchê, etc.
Conversávamos sobre o campeonato brasileiro, da série A
e até da série B, comentávamos até o
campeonato amazonense. Comentávamos os rumos da política
no Amazonas, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, no Brasil. Não
teremos mais essa possibilidade. Talvez sim, mas aí, enfim...
é que na semana das eleições ele faleceu, com
apenas 51 anos de idade. Não foi uma boa idéia!
Eram
altas horas da madrugada. A chuvarada que a noite passada prometia já
miou e a madrugada continuava como fora o dia, morna, úmida,
abafada. O silêncio reinava, sonolento, sobre aquela rua do
bairro Floresta, logo atrás do Shopping Total. No quintal, não
haviam nem ruídos de insetos, ou de morcegos, que vinham
voando, nas noites quentes que prenunciam o verão, para morder
as goiabas e comer as cigarras, empoleirados nos galhos da árvore.
Aquiles
cochilava, inicialmente aconchegado, enroscado por entre as longas e
robustas pernas de Sansão, mas, conforme a noite ia passando,
a chuva ia parando, o friozinho acabava não chegando, enquanto
a madrugada avançava devagar, o gato ia lentamente rolando, se
esticando e se afastando do amigo canino. No mais, continuavam ambos
cochilando, virando para um lado e para outro, Sansão, de vez
em quando, levantando-se e rodando, meio sonambulico, sobre as
próprias patas, à procura de um lugarzinho mais frio no
piso da garagem.
Sabe-se
lá que horas eram, bicho não usa relógio, tudo o
que Aquiles sabia era que àquela hora seus donos ainda não
haviam de ter acordado e que estava longe a hora de acordarem. E
justo àquela hora, quando enfim parecia que conseguiria dormir
um sono profundo... ele sobressaltou-se! Um ruído quebrava de
forma um tanto violenta o silêncio da madrugada. Não um
ruído, não: um som ruidoso, renitente, insistente, um
barulho extremamente irritante cortava o ar da madrugada: o latido
quase ininterrupto de um cão. Um! Apenas um, só um
único e solitário cão! Mesmo com seus irritantes
latidos ininterruptos quebrando o silêncio na pacata rua
residencial do bairro Floresta, nenhum outro cão respondia,
ninguém mais fazia ruído, ninguém, nenhum outro
cão, ou gato, ou rato, reagia, não faziam sequer menção
de responder-lhe, da forma que fosse. Era só ele, aquele cão
solitário, aparentemente indo e vindo, latindo sozinho. Só,
sozinho, somente ele, um único, solitário, o único
certo, a latir. Sansão balançou as orelhas, deu uma ou
duas piscadelas. Aquiles notou, meio sonolento, que não era o
único irritado com aquela interrupção brusca e
sem sentido do silêncio e de seu sono reparador.
Ouviram,
então, um outro som, um grito, bastante alto, transparecendo
enorme irritação. Ambos sobressaltaram-se, fitaram-se
com os olhos esbugalhados. Mas enfim, o único certo calou-se e
o silêncio voltou a reinar. Sem trocarem nem grunhidos, Sansão
voltara a esticar-se na lage fria da garagem e Aquiles a se enroscar
entre as patas do amigo.
Acordaram
praticamente juntos, o sol já estava um pouco alto no céu.
Andressa vinha com a sua comida, estava com umas olheiras e um ar de
cansaço. Quando saiu de perto, como se pudesse entender o que
dizia, Sansão sussurrou para o gato:
“Ela
também não dormiu bem, essa noite.”
Aquiles
piscou lentamente os olhos, abanou as orelhas e concordou, num tom
mal-humorado: “Também pudera! Parecia que ia chover e
refrescar, mas depois que a chuva se foi parece que abafou mais
ainda! E depois, no meio da madrugada, aquele infeliz a latir sem
motivo algum! Quem conseguiria dormir?”
“A
gente não sabe se ele não tinha alguma razão
bastante boa”, contemporizou Sansão, meio em dúvida.
“Fora
acordar a vizinhança e ser mais uma razão para
atrapalhar o nosso sono e nosso humor, eu não vejo nenhuma
outra razão. Boa, então, menos! Qual é, cara, tu
sabes que ouço tão bem quanto tu, que dificilmente um
som estranho escapa aos nossos ouvidos. E ontem à noite, fora
aquele solitário nervosinho, não tinha nenhum outro som
fora do normal, nada que lhe servisse de motivo... é verdade,
ou não é?!”
Sansão
coçou a orelha, concordando, por fim: “Sim, Aquiles, tu tens
razão... aquele cachorro só estava latindo, também
não consegui perceber nada que pudesse fazer ele agir daquela
maneira. Acho que é mais ou menos como Walter disse, certa
vez, a vontade de falar, às vezes, é mais importante do
que a mensagem que se diz.”
O
gato levantou uma das sobrancelhas, meio desconfiado: “Então
tu quer me dizer que aquele cão podia estar só... como
é que os humanos dizem... desabafando?!”
“Tu
deves convir de que pode ser...”
“Sim,
ok”, concordou Aquiles, meio a contragosto, “mas sei lá,
cara, prefiro o diálogo a isso. Mesmo uma briga de cão
e gato tem mais razão de ser do que latidos a esmo! Um gato e
uma gata gritando são como em 9 e ½ Semanas de Amor,
como em O Império dos Sentidos!”
“Não
quero nem saber que filme achas que é, quando uma porção
de cães correm atrás de uma mesma cadela”, riu-se
Sansão, gargalhando, quando Aquiles brincou: “Quem Vai Ficar
com Mary?”.
“Ok,
ok, e quando é só um cão, ou um gato, sozinho,
só, somente ele, solitário, latindo, ou miando?”
“Bom...”
começou Aquiles, coçando o queixo. “Daí acho
que é alguém que ama demais a própria voz, o
próprio latido, ou o próprio miado. Alguém que
se considera o único sábio, o único que tem algo
a dizer. E quando resolve soltar a voz, independente do que os outros
vão preferir, aí é fuleiragem, meu amigo!”
Do nada, o peito palpita, nervoso por sob a
blusa básica branca. Sem mais nem menos, os olhos ardem, marejados, a
boca seca, a garganta parece apertar, a cabeça gira num caleidoscópio de
ideias, liquidificando, misturando pensamentos, sentimentos e emoções.
"Do nada"...? "Sem mais nem menos"?! Não mesmo, do nada, nada!! O
coração dispara acelerado por um simples motivo, uma boa razão. É por
seu sorriso, pelos seus lindos olhos que
as borboletas dançam em meu estômago, pela sua pele e seus cabelos que o
coração parece querr fugir do peito, batendo a 300km/h. Por isso e por
tudo o mais! Feito um adolescente nervoso, tímido, com as mãos suadas e
frias, paraliso como se estivesse pessoalmente à sua frente, sem saber o
que dizer, nem mesmo se deveria. Toda essa tempestade dentro de mim,
toda essa confusão de emoções, sentimentos, pensamentos, tudo o que
queria dizer-lhe, tudo o que senti, e sinto, traduzido em apenas duas
palavras:...
A noite começa a cair, termina mais um dia,
acaba-se mais uma semana, as pessoas começam a planejar as baladas, há
shows, há cinema, alguns falam em ir às cachoeiras de Presidente
Figueiredo, outros falam em cair na estrada e descer até Imbeverly
Hills. Ele também planeja o seu fim de Sem(Ana): tem Skyfall, que ele
ainda não viu, quer muito ver; tem a Feira do Livro, no seu último final
de sem(Ana), na Praça da Alfândega; tem o
aniversário da sua sobrinha mais nova, no domingo, 3 aninhos, já, puxa
vida, como o tempo passa rápido...
Está cansado, algumas coisas a
que se propôs fazer, as fez, missão dada - ou assumida voluntariamente -
é missão cumprida, capitão! Agora ele se despede dos 'amigos'
twitteiros, se despede do Face, deixa mais um texto engatilhado para
postar no blog, na segunda-feira, na próxima semana. Amanhã vai acordar
mais tarde. Amanhã vai passar bem longe de um computador. Pretende
aproveitar o tempo livre, caminhar mais, pegar mais sol - quase tão
quente quanto em Manaus. Não verá seu nome, sequer seu avatar, sua mente
talvez se perca, divagando sobre ela. Só por isso, lamenta ser fim de
sem(Ana), pois são dois dias sem vê-la.
Olho
para você, vejo os teus olhos, fico um bom tempo a observá-los,
hipnotizado, imagino, um dia poder te olhoar nos olhos, provavelmente
neles me perder de vez. Olho o teu sorriso, simplesmente o sorriso
mais lindo de todos, o mais lindo que já vi. Todos os dias que te vejo,
vejo o teu sorriso, vejo teus lábios, tua boca, a boca mais perfeita que
já vi. Observo-a e desejo beijar teus lábios, tua boca e não parar.
Penso em te beijar a cada vez que te vejo, penso em te beijar a cada
minuto, a cada instante, acariciar teus cabelos, sonho acordado, a cada
vez que te vejo.
Ele andava meio preocupado. Ela deu uma
sumida, por um tempo. Logo ficou aliviado, pois ela já retornara e ele
pode voltar a stalkeá-la. Mas, algo ali estava diferente, alguma coisa
estava errada. Ele voltou a ficar preocupado, não sabia bem o que
poderia ser. Antes, até rolava uma interação, a ele não interessava mais
ninguém, quando ela desapareceu uns dias, ele se ocupou de outras
coisas. Não era só questão de exclusividade, e era, ao mesmo tempo. O
que lhe atraía nela não atraía em mais ninguém. Bem, ela o reconhecia
assim, ele se aceitou, tipo assim, um stalker só seu, todo seu. E agora,
ele desconfiava, já havia outro em seu lugar... andava meio preocupado. Ela deu uma
sumida, por um tempo. Logo ficou aliviado, pois ela já retornara e ele
pode voltar a stalkeá-la. Mas, algo ali estava diferente, alguma coisa
estava errada. Ele voltou a ficar preocupado, não sabia bem o que
poderia ser. Antes, até rolava uma interação, a ele não interessava mais
ninguém, quando ela desapareceu uns dias, ele se ocupou de outras
coisas. Não era só questão de exclusividade, e era, ao mesmo tempo. O
que lhe atraía nela não atraía em mais ninguém. Bem, ela o reconhecia
assim, ele se aceitou, tipo assim, um stalker só seu, todo seu. E agora,
ele desconfiava, já havia outro em seu lugar...
Os
mais antigos levam isso mais a sério e nem pensam muito sobre
a origem desses costumes. Um dia e um mês certos para se sentir
saudades dos entes queridos. Um dia em que os mais velhos ainda vão
aos cemitérios, visitar os túmulos, lembrar de quem já
foi; maridos, esposas, pais e mães, irmãos, tios,
avós... muitos nem sabem que muito antes de Cristo as pessoas
já tinham esse hábito, muitos povos já
reservavam um dia no seu calendário para cultuar os seus
mortos. O dia de finados, no nosso calendário, coincide com a
mesma data em que os antigos romanos veneravam os seus próprios
falecidos. Sim, antes do cristianismo, antes mesmo de Jesus de Nazaré
vir a este mundo. Enfim, independente da origem da data...
Visitar
túmulos e cemitérios não faz muito sentido pra
mim. Para outras pessoas, isso parece fazer algum sentido, é
assim que fazem para lembrar das pessoas amadas, então tudo
bem. Dia de finados é mais um feriado, um dia a mais de
descanso. Um dia para dar um passeio, para aproveitar uma praia. Essa
era a minha vontade... mas não ir a cemitérios. Só
fui até lá uma vez, no dia do enterro do corpo de meu
pai. Depois, nunca mais. Ele não está lá, para
mim, não é lá que vou encontrá-lo. Está
em outro lugar e não é indo ao cemitério que o
encontrarei. Não é com data marcada que a saudade vem.
É com uma foto antiga, uma música, uma lembrança...
como quando eu era menino e ele nos levava a Gramado, Canela, ou Nova
Petrópolis, na serra... ou quando íamos a
Florianópolis, nas férias de verão... ou quando
assistíamos juntos aos episódios de James West,
Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, O Túnel do
Tempo... se hoje tenho uma certa predileção por séries
meio “nerds”, muito disso foi por “culpa” dele!
Meu
dia de finados particular é no dia e na hora que for, é
quando lembro essas pequenas coisas e sinto falta. É quando
penso em como seria minha vida, como estaríamos agora, se ele
estivesse aqui conosco até hoje... quando ele aparece em meus
sonhos, também. No último de que me lembro, ele me
aconselhava de que, se estivesse mesmo certo de estar apaixonado por
ela, deveria apostar tudo nisso, deveria investir nesse sentimento,
na possível relação. Foi o que entendi... hoje
imaginei se ele estaria lá onde quer que esteja, se
perguntando afinal o que estou esperando.