PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Aquiles & Sansão: O Único Certo

Eram altas horas da madrugada. A chuvarada que a noite passada prometia já miou e a madrugada continuava como fora o dia, morna, úmida, abafada. O silêncio reinava, sonolento, sobre aquela rua do bairro Floresta, logo atrás do Shopping Total. No quintal, não haviam nem ruídos de insetos, ou de morcegos, que vinham voando, nas noites quentes que prenunciam o verão, para morder as goiabas e comer as cigarras, empoleirados nos galhos da árvore.
Aquiles cochilava, inicialmente aconchegado, enroscado por entre as longas e robustas pernas de Sansão, mas, conforme a noite ia passando, a chuva ia parando, o friozinho acabava não chegando, enquanto a madrugada avançava devagar, o gato ia lentamente rolando, se esticando e se afastando do amigo canino. No mais, continuavam ambos cochilando, virando para um lado e para outro, Sansão, de vez em quando, levantando-se e rodando, meio sonambulico, sobre as próprias patas, à procura de um lugarzinho mais frio no piso da garagem.
Sabe-se lá que horas eram, bicho não usa relógio, tudo o que Aquiles sabia era que àquela hora seus donos ainda não haviam de ter acordado e que estava longe a hora de acordarem. E justo àquela hora, quando enfim parecia que conseguiria dormir um sono profundo... ele sobressaltou-se! Um ruído quebrava de forma um tanto violenta o silêncio da madrugada. Não um ruído, não: um som ruidoso, renitente, insistente, um barulho extremamente irritante cortava o ar da madrugada: o latido quase ininterrupto de um cão. Um! Apenas um, só um único e solitário cão! Mesmo com seus irritantes latidos ininterruptos quebrando o silêncio na pacata rua residencial do bairro Floresta, nenhum outro cão respondia, ninguém mais fazia ruído, ninguém, nenhum outro cão, ou gato, ou rato, reagia, não faziam sequer menção de responder-lhe, da forma que fosse. Era só ele, aquele cão solitário, aparentemente indo e vindo, latindo sozinho. Só, sozinho, somente ele, um único, solitário, o único certo, a latir. Sansão balançou as orelhas, deu uma ou duas piscadelas. Aquiles notou, meio sonolento, que não era o único irritado com aquela interrupção brusca e sem sentido do silêncio e de seu sono reparador.
Ouviram, então, um outro som, um grito, bastante alto, transparecendo enorme irritação. Ambos sobressaltaram-se, fitaram-se com os olhos esbugalhados. Mas enfim, o único certo calou-se e o silêncio voltou a reinar. Sem trocarem nem grunhidos, Sansão voltara a esticar-se na lage fria da garagem e Aquiles a se enroscar entre as patas do amigo.
Acordaram praticamente juntos, o sol já estava um pouco alto no céu. Andressa vinha com a sua comida, estava com umas olheiras e um ar de cansaço. Quando saiu de perto, como se pudesse entender o que dizia, Sansão sussurrou para o gato:
Ela também não dormiu bem, essa noite.”
Aquiles piscou lentamente os olhos, abanou as orelhas e concordou, num tom mal-humorado: “Também pudera! Parecia que ia chover e refrescar, mas depois que a chuva se foi parece que abafou mais ainda! E depois, no meio da madrugada, aquele infeliz a latir sem motivo algum! Quem conseguiria dormir?”
A gente não sabe se ele não tinha alguma razão bastante boa”, contemporizou Sansão, meio em dúvida.
Fora acordar a vizinhança e ser mais uma razão para atrapalhar o nosso sono e nosso humor, eu não vejo nenhuma outra razão. Boa, então, menos! Qual é, cara, tu sabes que ouço tão bem quanto tu, que dificilmente um som estranho escapa aos nossos ouvidos. E ontem à noite, fora aquele solitário nervosinho, não tinha nenhum outro som fora do normal, nada que lhe servisse de motivo... é verdade, ou não é?!”
Sansão coçou a orelha, concordando, por fim: “Sim, Aquiles, tu tens razão... aquele cachorro só estava latindo, também não consegui perceber nada que pudesse fazer ele agir daquela maneira. Acho que é mais ou menos como Walter disse, certa vez, a vontade de falar, às vezes, é mais importante do que a mensagem que se diz.”
O gato levantou uma das sobrancelhas, meio desconfiado: “Então tu quer me dizer que aquele cão podia estar só... como é que os humanos dizem... desabafando?!”
Tu deves convir de que pode ser...”
Sim, ok”, concordou Aquiles, meio a contragosto, “mas sei lá, cara, prefiro o diálogo a isso. Mesmo uma briga de cão e gato tem mais razão de ser do que latidos a esmo! Um gato e uma gata gritando são como em 9 e ½ Semanas de Amor, como em O Império dos Sentidos!”
Não quero nem saber que filme achas que é, quando uma porção de cães correm atrás de uma mesma cadela”, riu-se Sansão, gargalhando, quando Aquiles brincou: “Quem Vai Ficar com Mary?”.
Ok, ok, e quando é só um cão, ou um gato, sozinho, só, somente ele, solitário, latindo, ou miando?”
Bom...” começou Aquiles, coçando o queixo. “Daí acho que é alguém que ama demais a própria voz, o próprio latido, ou o próprio miado. Alguém que se considera o único sábio, o único que tem algo a dizer. E quando resolve soltar a voz, independente do que os outros vão preferir, aí é fuleiragem, meu amigo!”


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