Eram
altas horas da madrugada. A chuvarada que a noite passada prometia já
miou e a madrugada continuava como fora o dia, morna, úmida,
abafada. O silêncio reinava, sonolento, sobre aquela rua do
bairro Floresta, logo atrás do Shopping Total. No quintal, não
haviam nem ruídos de insetos, ou de morcegos, que vinham
voando, nas noites quentes que prenunciam o verão, para morder
as goiabas e comer as cigarras, empoleirados nos galhos da árvore.
Aquiles
cochilava, inicialmente aconchegado, enroscado por entre as longas e
robustas pernas de Sansão, mas, conforme a noite ia passando,
a chuva ia parando, o friozinho acabava não chegando, enquanto
a madrugada avançava devagar, o gato ia lentamente rolando, se
esticando e se afastando do amigo canino. No mais, continuavam ambos
cochilando, virando para um lado e para outro, Sansão, de vez
em quando, levantando-se e rodando, meio sonambulico, sobre as
próprias patas, à procura de um lugarzinho mais frio no
piso da garagem.
Sabe-se
lá que horas eram, bicho não usa relógio, tudo o
que Aquiles sabia era que àquela hora seus donos ainda não
haviam de ter acordado e que estava longe a hora de acordarem. E
justo àquela hora, quando enfim parecia que conseguiria dormir
um sono profundo... ele sobressaltou-se! Um ruído quebrava de
forma um tanto violenta o silêncio da madrugada. Não um
ruído, não: um som ruidoso, renitente, insistente, um
barulho extremamente irritante cortava o ar da madrugada: o latido
quase ininterrupto de um cão. Um! Apenas um, só um
único e solitário cão! Mesmo com seus irritantes
latidos ininterruptos quebrando o silêncio na pacata rua
residencial do bairro Floresta, nenhum outro cão respondia,
ninguém mais fazia ruído, ninguém, nenhum outro
cão, ou gato, ou rato, reagia, não faziam sequer menção
de responder-lhe, da forma que fosse. Era só ele, aquele cão
solitário, aparentemente indo e vindo, latindo sozinho. Só,
sozinho, somente ele, um único, solitário, o único
certo, a latir. Sansão balançou as orelhas, deu uma ou
duas piscadelas. Aquiles notou, meio sonolento, que não era o
único irritado com aquela interrupção brusca e
sem sentido do silêncio e de seu sono reparador.
Ouviram,
então, um outro som, um grito, bastante alto, transparecendo
enorme irritação. Ambos sobressaltaram-se, fitaram-se
com os olhos esbugalhados. Mas enfim, o único certo calou-se e
o silêncio voltou a reinar. Sem trocarem nem grunhidos, Sansão
voltara a esticar-se na lage fria da garagem e Aquiles a se enroscar
entre as patas do amigo.
Acordaram
praticamente juntos, o sol já estava um pouco alto no céu.
Andressa vinha com a sua comida, estava com umas olheiras e um ar de
cansaço. Quando saiu de perto, como se pudesse entender o que
dizia, Sansão sussurrou para o gato:
“Ela
também não dormiu bem, essa noite.”
Aquiles
piscou lentamente os olhos, abanou as orelhas e concordou, num tom
mal-humorado: “Também pudera! Parecia que ia chover e
refrescar, mas depois que a chuva se foi parece que abafou mais
ainda! E depois, no meio da madrugada, aquele infeliz a latir sem
motivo algum! Quem conseguiria dormir?”
“A
gente não sabe se ele não tinha alguma razão
bastante boa”, contemporizou Sansão, meio em dúvida.
“Fora
acordar a vizinhança e ser mais uma razão para
atrapalhar o nosso sono e nosso humor, eu não vejo nenhuma
outra razão. Boa, então, menos! Qual é, cara, tu
sabes que ouço tão bem quanto tu, que dificilmente um
som estranho escapa aos nossos ouvidos. E ontem à noite, fora
aquele solitário nervosinho, não tinha nenhum outro som
fora do normal, nada que lhe servisse de motivo... é verdade,
ou não é?!”
Sansão
coçou a orelha, concordando, por fim: “Sim, Aquiles, tu tens
razão... aquele cachorro só estava latindo, também
não consegui perceber nada que pudesse fazer ele agir daquela
maneira. Acho que é mais ou menos como Walter disse, certa
vez, a vontade de falar, às vezes, é mais importante do
que a mensagem que se diz.”
O
gato levantou uma das sobrancelhas, meio desconfiado: “Então
tu quer me dizer que aquele cão podia estar só... como
é que os humanos dizem... desabafando?!”
“Tu
deves convir de que pode ser...”
“Sim,
ok”, concordou Aquiles, meio a contragosto, “mas sei lá,
cara, prefiro o diálogo a isso. Mesmo uma briga de cão
e gato tem mais razão de ser do que latidos a esmo! Um gato e
uma gata gritando são como em 9 e ½ Semanas de Amor,
como em O Império dos Sentidos!”
“Não
quero nem saber que filme achas que é, quando uma porção
de cães correm atrás de uma mesma cadela”, riu-se
Sansão, gargalhando, quando Aquiles brincou: “Quem Vai Ficar
com Mary?”.
“Ok,
ok, e quando é só um cão, ou um gato, sozinho,
só, somente ele, solitário, latindo, ou miando?”
“Bom...”
começou Aquiles, coçando o queixo. “Daí acho
que é alguém que ama demais a própria voz, o
próprio latido, ou o próprio miado. Alguém que
se considera o único sábio, o único que tem algo
a dizer. E quando resolve soltar a voz, independente do que os outros
vão preferir, aí é fuleiragem, meu amigo!”

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