O
dia amanheceu muito molhado, a chuva estava arrefecendo, mas vinha
caindo desde o fim da noite anterior e ainda estava longe de parar
completamente. Há dias que a cidade andava molhada, o clima da
cidade andava mais que úmido, andava encharcado.
Tem
gente que gosta de chuva. Diz que o som da chuva acalma, que é
bom para dormir, etc. Os gatos, ao contrário do que você
pensa, amam os dias chuvosos! Pelo mesmo motivo que você talvez
goste, pois, se já notou, os gatos adoram dormir.
Só
que o volume de chuvas estava demais! Nem os gatos estavam aguentando
mais! Pelo menos, o nosso bichano, daqui da nossa história, já
não suportava mais as precipitações diárias,
não estava mais gostando de ver a Recife sendo lavada dia após
dia. Já no terceiro dia de chuvas torrenciais a coisa tinha
perdido toda a graça. Aquiles é o nome do gato.
E
Aquiles estava entediado, ali, empoleirado no braço do sofá
da sala, de corino branco, assistindo a chuva continuar a cair, fina,
demorada e renitente, sobre a avenida, sobre os carros e ônibus
que passavam lentamente pela via, na direção do 28 de
Agosto. Cochilava, de vez em quando, escutava o que os donos
conversavam, na cozinha, voltava a cochilar. Não havia o que
fazer, a sacada estava inundada pela água, era justamente onde
queria estar, para poder observar melhor a avenida e os passantes,
brincar um pouco.
Aquiles
acordou com o som da respiração pesada do cão
golden retriever em cima dele. Normalmente, ele teria se incomodado
com aquele bafo de osso de cuati na sua cara, mas hoje não,
hoje, pelo menos, ele estava afim de conversar, para passar o tempo.
“Fala, Sansão, que cê quer, mano?”, perguntou em tom
aborrecido.
“Aquiles...
bicho sonha?”
Definitivamente,
era a chuva. O pobre do Sansão também estava entediado,
àquela altura do campeonato. Só podia ser isso. Sansão,
hoje, estava filosófico, perguntando sobre um assunto que
Aquiles mal tinha noção, só tinha ouvido falar,
uma ou duas vezes em toda sua vida, mas nunca associado ao mundo
animal.
“Não
sei!”, respondeu, por fim. “Eu nunca sonhei, então presumo
que não, bicho não sonha! Pelo menos, gatos não
sonham... quanto aos cães, já não posso te
responder... você sonhou hoje, Sansão, é isso?”
O
cão ficou perturbado. “Não que eu me lembre...”,
murmurou ele meio confuso. “Acho que nunca, também, mas...
ah, sei lá! O Walter que falou isso daí!” Ante o
olhar um tanto estupefato do gato, Sansão ajuntou: “mas isso
foi depois...”
“Depois,
como assim, depois de quê?”, perguntou Aquiles. A mania de
Sansão, de fazer rodeios, francamente lhe incomodava.
“Depois
do que Andressa falou, hoje, lá na cozinha... ela começou
falando que tinha tido um sonho estranho...”
“Estranho...
normal, todo humano é estranho! Mas estranho quanto?”
“Foi
exatamente o que Walter perguntou pra ela”, disse Sansão,
sorrindo. “Perguntou também se tinha sido só
estranho, ou, além de estranho, ruim...”
“Esses
humanos é que são muito estranhos, Sansão!”,
disse o gato, com um sorriso sarcástico.
“Você
acha que não existe sonho esquisito que, de certa forma, possa
ser bom?”
“Cara,
eu nem sei se existe mesmo esse negócio de sonho, já te
falei! Só acho que, se é estranho, provavelmente deve
ser ruim, também!”
“Não
sei se é tão simples assim...”, disse o cão,
meio em dúvida, ao que o gato protestou: “pronto, lá
vem você... mas, pensando bem... os humanos já são
bastante estranhos, com suas convenções,
relacionamentos e essa coisa dos sonhos, agora, mesmo assim, não
são tão ruins assim...”
“Não
é?!”, replicou Sansão, rindo-se. “Pois é...
engraçada essa ideia de você fechar os olhos e, em vez
de dormir, o cérebro continuar trabalhando, você ver e
sentir as coisas como se estivesse acordado... e só perceber
que, na verdade, estava dormindo, quando REALMENTE acorda!”
Aquiles
percebeu que Sansão o olhava como se ele também fosse
tão estranho quanto os donos, se não mais.
“Mano,
um dia quero experimentar da tua ração...”
“Bom,
mas enfim... parece que a mente humana não desliga nem na hora
de dormir, é isso o que quero dizer! Eles têm uma mente
tão complexa, tão ambígua...”
“Que
talvez nem saibam o que é real, ou ilusório.”,
completou o cão.
“Isso!
Como naquele filme que passou de novo, na outra noite... aquele dos
computadores... Matrix!”
“Puxa,
Aquiles... já pensou, que louco?”
“O
quê?”
“E
se isto é só uma ilusão? E se nem estamos tendo
uma conversa? E se, na verdade, isto é só um sonho?”
“Ah!
Lá vem você...!”, resmungou Aquiles, mal-humorado.
“Quer dizer que eu não existo, é isso?”
“Bom...”,
começou o cão, sentindo-se estranho ao dizer aquelas
palavras: “talvez você exista, mas esteja dormindo e sonhando
que está conversando comigo...”
“Humpf!
Que leseira!”, disse Aquiles, aborrecendo-se, fechou os olhos e
balançou a cabeça de um lado para o outro. Já
estava sentindo sono com aquela conversa! “Você, como sempre,
querendo complicar...”
Aquiles
estava empoleirado, como os gatos fazem. No braço do sofá
de corino branco, na sala de um apartamento, sim. Mas diferente
daquele onde julgara estar, há pouco. Era o mesmo JK de
sempre, onde não haviam nem mulher, nem cachorro alguns, onde
só viviam e sempre viveram Walter e ele, no bairro Floresta,
em Porto Alegre, há pouco mais de 500 metros do shopping. Não
havia nenhum barulho de chuva, lá fora, e às 7 horas da
manhã de um dia qualquer, o sol já estava penetrando
pela janela, prenunciando mais um escaldante dia de verão.
Aquiles
sentiu-se perturbado. Tudo aquilo, tudo o que ele julgava ter visto,
o apartamento onde acreditou estar morando há anos, o golden
retrivier com quem conversou, que parecia conhecer há meses,
ou anos, nada daquilo existiu, nada daquilo aconteceu. Ele não
compreendia como, de onde haviam surgido aqueles nomes? “Sansão...
Andressa... Avenida Recife... Hospital 28 de Agosto...”, recitou
ele, procurando reter na memória felina tais nomes. Será
que havia ouvido alguma vez antes, na vida? Não, nunca viu,
nem ouviu falar de nenhuma Andressa, Walter nunca namorou nenhuma
mulher com esse nome...
Então,
aquilo tudo tinha sido um sonho, não tinha passado de um
sonho!? O gato não se lembrava de jamais ter sonhado, antes,
aí seu primeiro sonho é justamente conversando com um
cachorro sobre... sonhos! Como é que os humanos conseguiam
lidar com aquilo? Aquiles desejou saber a língua dos homens,
para poder perguntar isso ao seu amigo Walter. Pensava nisso, quando
entrou o rapaz, olhos vermelhos, cabelo desgrenhado, óculos na
ponta do nariz, olhar melancólico e distante. Ao olhar para o
gato, deu um meio sorriso, estendeu a mão e afagou o seu pelo.
Era visível, para o felino, que a noite não havia sido
boa. “Tive um sonho tão estranho, essa noite, Aquiles...”,
começou ele a dizer. O gato mexeu as orelhas, subitamente
interessado, mas Walter não continuou. Virou-se, meio
automático, pegou seu smartphone, do lado da tv, apertou um
botão qualquer, a tela se acendeu e junto, um sorriso do
rapaz. Provavelmente, uma mensagem da sua amiga baiana, pensou o
bichano. Observou o dono com certa compaixão e desejou que o
sonho fosse real.
E
numa casa da rua 22 do Conjunto Castelo Branco, no Parque 10, Manaus,
um cão golden retrivier acordava com o som de um trovão,
levantava a cabeça, ainda meio atordoado, sentindo-se
estranho. Estava na varanda da casa e alguns pingos grossos de chuva
já molhavam o seu pelo sedoso. Levantou-se, sacudiu-se
levemente, ainda confuso. Olhou para a chuva que caia forte, lá
fora, observou por um tempo as velhas senhoras andando na chuva, com
suas sombrinhas multicoloridas e seus passinhos curtos, via uma que
outra criança correndo e se protegendo da precipitação
como podiam, pegando o rumo da escola que ficava dentro do Centro
Social Urbano do bairro. Voltou-se, viu que a porta lateral da casa,
que dava para a cozinha, estava aberta. Não pensou duas vezes,
dirigiu-se até lá e foi entrando no aposento, onde
encontrou a dona, Andressa, olhar meio vazio, triste, cabelos
castanhos escuros cacheados meio desgrenhados, parecendo querer
desatar em lágrimas, como o tempo quando está para
chover. Viu o cão entrar, deu um meio sorriso, chamou-o com a
mão e ele demorou um pouco, antes de se aproximar, o
suficiente para que ela pudesse encostar sua mão longa e fina
em seu pelo um pouco úmido. Sansão olhou para Andressa,
que não dizia palavra, ficava apenas fitando a tela do laptop
sobre a mesa da cozinha com um ar distante e soturno. O cão
sentiu profunda compaixão pela dona, que esperava,
desesperada, algum sinal de vida da caixa cor-de-rosa. Ele sabia que
era alguma mensagem daquele seu amigo nordestino que Andressa
esperava. Aquele que desaparecia de vez em quando, deixando-a
exasperada, por ser tão ocupado. Pousou a cabeça nos
seus joelhos e ela ficou ali, observando a caixa, com uma mão,
afagando seu pelo, com a outra, segurando a xícara de café
com leite. O pão tostado com queijo coalho jazia num pratinho
ao lado do laptop, só com uma mordida. O cão já
estava relaxado, fechando os olhos, quando ela aprumou-se na cadeira,
puxando-a para mais perto da mesa e fazendo-o, abruptamente,
remexer-se e sentar-se ao seu lado. Ela, agora, estava com um sorriso
leve e um brilho nos olhos, que fitavam, vidrados, a tela. Ela
dirigiu sua atenção ao cão por uns segundos, o
sorriso de orelha a orelha. Pegou o pratinho com o pão e o
colocou na sua frente, cuidadosamente. Voltou novamente os olhos para
a tela e começou a digitar quase que furiosamente o teclado do
computador.
Sansão,
meio desapontado, virou a cabeça de lado e pensou que era uma
pena ter sido tudo um sonho, era uma pena ela não ver aquilo
que nunca foi. Baixou os olhos e lentamente levou a boca para o pão
tostado, que parecia apetitoso.