PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 8 de março de 2012

Aquiles & Sansão em: Será Que Bicho Sonha?/Aquilo Que Não Pode Ser...


O dia amanheceu muito molhado, a chuva estava arrefecendo, mas vinha caindo desde o fim da noite anterior e ainda estava longe de parar completamente. Há dias que a cidade andava molhada, o clima da cidade andava mais que úmido, andava encharcado.
Tem gente que gosta de chuva. Diz que o som da chuva acalma, que é bom para dormir, etc. Os gatos, ao contrário do que você pensa, amam os dias chuvosos! Pelo mesmo motivo que você talvez goste, pois, se já notou, os gatos adoram dormir.
Só que o volume de chuvas estava demais! Nem os gatos estavam aguentando mais! Pelo menos, o nosso bichano, daqui da nossa história, já não suportava mais as precipitações diárias, não estava mais gostando de ver a Recife sendo lavada dia após dia. Já no terceiro dia de chuvas torrenciais a coisa tinha perdido toda a graça. Aquiles é o nome do gato.
E Aquiles estava entediado, ali, empoleirado no braço do sofá da sala, de corino branco, assistindo a chuva continuar a cair, fina, demorada e renitente, sobre a avenida, sobre os carros e ônibus que passavam lentamente pela via, na direção do 28 de Agosto. Cochilava, de vez em quando, escutava o que os donos conversavam, na cozinha, voltava a cochilar. Não havia o que fazer, a sacada estava inundada pela água, era justamente onde queria estar, para poder observar melhor a avenida e os passantes, brincar um pouco.
Aquiles acordou com o som da respiração pesada do cão golden retriever em cima dele. Normalmente, ele teria se incomodado com aquele bafo de osso de cuati na sua cara, mas hoje não, hoje, pelo menos, ele estava afim de conversar, para passar o tempo. “Fala, Sansão, que cê quer, mano?”, perguntou em tom aborrecido.
Aquiles... bicho sonha?”
Definitivamente, era a chuva. O pobre do Sansão também estava entediado, àquela altura do campeonato. Só podia ser isso. Sansão, hoje, estava filosófico, perguntando sobre um assunto que Aquiles mal tinha noção, só tinha ouvido falar, uma ou duas vezes em toda sua vida, mas nunca associado ao mundo animal.
Não sei!”, respondeu, por fim. “Eu nunca sonhei, então presumo que não, bicho não sonha! Pelo menos, gatos não sonham... quanto aos cães, já não posso te responder... você sonhou hoje, Sansão, é isso?”
O cão ficou perturbado. “Não que eu me lembre...”, murmurou ele meio confuso. “Acho que nunca, também, mas... ah, sei lá! O Walter que falou isso daí!” Ante o olhar um tanto estupefato do gato, Sansão ajuntou: “mas isso foi depois...”
Depois, como assim, depois de quê?”, perguntou Aquiles. A mania de Sansão, de fazer rodeios, francamente lhe incomodava.
Depois do que Andressa falou, hoje, lá na cozinha... ela começou falando que tinha tido um sonho estranho...”
Estranho... normal, todo humano é estranho! Mas estranho quanto?”
Foi exatamente o que Walter perguntou pra ela”, disse Sansão, sorrindo. “Perguntou também se tinha sido só estranho, ou, além de estranho, ruim...”
Esses humanos é que são muito estranhos, Sansão!”, disse o gato, com um sorriso sarcástico.
Você acha que não existe sonho esquisito que, de certa forma, possa ser bom?”
Cara, eu nem sei se existe mesmo esse negócio de sonho, já te falei! Só acho que, se é estranho, provavelmente deve ser ruim, também!”
Não sei se é tão simples assim...”, disse o cão, meio em dúvida, ao que o gato protestou: “pronto, lá vem você... mas, pensando bem... os humanos já são bastante estranhos, com suas convenções, relacionamentos e essa coisa dos sonhos, agora, mesmo assim, não são tão ruins assim...”
Não é?!”, replicou Sansão, rindo-se. “Pois é... engraçada essa ideia de você fechar os olhos e, em vez de dormir, o cérebro continuar trabalhando, você ver e sentir as coisas como se estivesse acordado... e só perceber que, na verdade, estava dormindo, quando REALMENTE acorda!”
Aquiles percebeu que Sansão o olhava como se ele também fosse tão estranho quanto os donos, se não mais.
Mano, um dia quero experimentar da tua ração...”
Bom, mas enfim... parece que a mente humana não desliga nem na hora de dormir, é isso o que quero dizer! Eles têm uma mente tão complexa, tão ambígua...”
Que talvez nem saibam o que é real, ou ilusório.”, completou o cão.
Isso! Como naquele filme que passou de novo, na outra noite... aquele dos computadores... Matrix!”
Puxa, Aquiles... já pensou, que louco?”
O quê?”
E se isto é só uma ilusão? E se nem estamos tendo uma conversa? E se, na verdade, isto é só um sonho?”
Ah! Lá vem você...!”, resmungou Aquiles, mal-humorado. “Quer dizer que eu não existo, é isso?”
Bom...”, começou o cão, sentindo-se estranho ao dizer aquelas palavras: “talvez você exista, mas esteja dormindo e sonhando que está conversando comigo...”
Humpf! Que leseira!”, disse Aquiles, aborrecendo-se, fechou os olhos e balançou a cabeça de um lado para o outro. Já estava sentindo sono com aquela conversa! “Você, como sempre, querendo complicar...”
Aquiles estava empoleirado, como os gatos fazem. No braço do sofá de corino branco, na sala de um apartamento, sim. Mas diferente daquele onde julgara estar, há pouco. Era o mesmo JK de sempre, onde não haviam nem mulher, nem cachorro alguns, onde só viviam e sempre viveram Walter e ele, no bairro Floresta, em Porto Alegre, há pouco mais de 500 metros do shopping. Não havia nenhum barulho de chuva, lá fora, e às 7 horas da manhã de um dia qualquer, o sol já estava penetrando pela janela, prenunciando mais um escaldante dia de verão.
Aquiles sentiu-se perturbado. Tudo aquilo, tudo o que ele julgava ter visto, o apartamento onde acreditou estar morando há anos, o golden retrivier com quem conversou, que parecia conhecer há meses, ou anos, nada daquilo existiu, nada daquilo aconteceu. Ele não compreendia como, de onde haviam surgido aqueles nomes? “Sansão... Andressa... Avenida Recife... Hospital 28 de Agosto...”, recitou ele, procurando reter na memória felina tais nomes. Será que havia ouvido alguma vez antes, na vida? Não, nunca viu, nem ouviu falar de nenhuma Andressa, Walter nunca namorou nenhuma mulher com esse nome...
Então, aquilo tudo tinha sido um sonho, não tinha passado de um sonho!? O gato não se lembrava de jamais ter sonhado, antes, aí seu primeiro sonho é justamente conversando com um cachorro sobre... sonhos! Como é que os humanos conseguiam lidar com aquilo? Aquiles desejou saber a língua dos homens, para poder perguntar isso ao seu amigo Walter. Pensava nisso, quando entrou o rapaz, olhos vermelhos, cabelo desgrenhado, óculos na ponta do nariz, olhar melancólico e distante. Ao olhar para o gato, deu um meio sorriso, estendeu a mão e afagou o seu pelo. Era visível, para o felino, que a noite não havia sido boa. “Tive um sonho tão estranho, essa noite, Aquiles...”, começou ele a dizer. O gato mexeu as orelhas, subitamente interessado, mas Walter não continuou. Virou-se, meio automático, pegou seu smartphone, do lado da tv, apertou um botão qualquer, a tela se acendeu e junto, um sorriso do rapaz. Provavelmente, uma mensagem da sua amiga baiana, pensou o bichano. Observou o dono com certa compaixão e desejou que o sonho fosse real.
E numa casa da rua 22 do Conjunto Castelo Branco, no Parque 10, Manaus, um cão golden retrivier acordava com o som de um trovão, levantava a cabeça, ainda meio atordoado, sentindo-se estranho. Estava na varanda da casa e alguns pingos grossos de chuva já molhavam o seu pelo sedoso. Levantou-se, sacudiu-se levemente, ainda confuso. Olhou para a chuva que caia forte, lá fora, observou por um tempo as velhas senhoras andando na chuva, com suas sombrinhas multicoloridas e seus passinhos curtos, via uma que outra criança correndo e se protegendo da precipitação como podiam, pegando o rumo da escola que ficava dentro do Centro Social Urbano do bairro. Voltou-se, viu que a porta lateral da casa, que dava para a cozinha, estava aberta. Não pensou duas vezes, dirigiu-se até lá e foi entrando no aposento, onde encontrou a dona, Andressa, olhar meio vazio, triste, cabelos castanhos escuros cacheados meio desgrenhados, parecendo querer desatar em lágrimas, como o tempo quando está para chover. Viu o cão entrar, deu um meio sorriso, chamou-o com a mão e ele demorou um pouco, antes de se aproximar, o suficiente para que ela pudesse encostar sua mão longa e fina em seu pelo um pouco úmido. Sansão olhou para Andressa, que não dizia palavra, ficava apenas fitando a tela do laptop sobre a mesa da cozinha com um ar distante e soturno. O cão sentiu profunda compaixão pela dona, que esperava, desesperada, algum sinal de vida da caixa cor-de-rosa. Ele sabia que era alguma mensagem daquele seu amigo nordestino que Andressa esperava. Aquele que desaparecia de vez em quando, deixando-a exasperada, por ser tão ocupado. Pousou a cabeça nos seus joelhos e ela ficou ali, observando a caixa, com uma mão, afagando seu pelo, com a outra, segurando a xícara de café com leite. O pão tostado com queijo coalho jazia num pratinho ao lado do laptop, só com uma mordida. O cão já estava relaxado, fechando os olhos, quando ela aprumou-se na cadeira, puxando-a para mais perto da mesa e fazendo-o, abruptamente, remexer-se e sentar-se ao seu lado. Ela, agora, estava com um sorriso leve e um brilho nos olhos, que fitavam, vidrados, a tela. Ela dirigiu sua atenção ao cão por uns segundos, o sorriso de orelha a orelha. Pegou o pratinho com o pão e o colocou na sua frente, cuidadosamente. Voltou novamente os olhos para a tela e começou a digitar quase que furiosamente o teclado do computador.
Sansão, meio desapontado, virou a cabeça de lado e pensou que era uma pena ter sido tudo um sonho, era uma pena ela não ver aquilo que nunca foi. Baixou os olhos e lentamente levou a boca para o pão tostado, que parecia apetitoso.

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