PESCANDO NO BODOSAL

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Trago A Pessoa Amada em 3 Dias


Ele acordou meio grogue, ainda. A cabeça doía, mas não latejava. Não havia sofrido nenhuma pancada, ao que tudo indicava. Mesmo que não estivesse zonzo, não enxergava um palmo à frente do nariz. Não fazia a menor ideia de onde estava, nem de como fora parar ali. Aos poucos, foi recobrando os sentidos, percebeu que estava deitado numa cama de ferro, daquelas antigas, que rangia estridentemente sob o seu peso, conforme se remexia. O colchão, também velho, rescindia a cheiro de suor... desconfiou que não exatamente do seu, apesar do calor e do abafamento que sentia.
Ainda em meio à escuridão, remexendo-se e sentindo como se o corpo estivesse derretendo e se grudando na cama, que parecia querer desabar a qualquer hora, Felipe – esse era seu nome – começou a clarear a memória e lembrar que à noite ele havia saído para o carnaboi. Fora para o sambódromo, este ano ele iria aproveitar, se esbaldar, mesmo! Lá, seguindo o trio elétrico, ele bebeu, se divertiu, beijou algumas cunhãs... ficou um tempo ali, parado, só observando os foliões brincando de boi, alguns turistas tentando. Felipe ria que só dos gringos! Enquanto ria, virou para o lado e percebeu que era observado por uma moça alta, cabelos loiros, lisos de chapinha, tururi do David, rindo para ele.
Felipe foi lá conferir, conversaram, riram-se dos gringos, trocaram alguns beijos e carícias... ela reclamou do calor, disse que tinha sede, ele, todo animado, ofereceu-se para pagar-lhe uma bebida. Correu, então, até o vendedor mais próximo, nas arquibancadas do lado da arena, pediu uma cerveja, um guaraná, nem prestou muita atenção nele – Felipe agora pensava a respeito. Voltou pra perto da garota loira, entregou-lhe o refrigerante, abriu a latinha, deu um gole na cerveja... foi aí, então, que começou a ver o mundo girar ao seu redor, pouco antes de cair no vácuo e só acordar ali, naquele lugar, desnorteado, com um leve enjôo. Lembrou-se vagamente de ver a loira sorrindo algo satisfeita, a latinha de Baré na mão, quando percebeu que ele estava passando mal... teria sido ela, quem fez aquilo com ele...? Mas... como?! Felipe começou a xingar até a undécima geração da jovem loira.
Ouviu, enfim, o som de chaves girando em uma fechadura, atrás de si, um rangido de protesto da porta, raspando pesadamente contra o piso, enfim a luminosidade penetrou no quarto sujo e escuro, sem janelas. Piscando os olhos, ele tentava ver a silhueta, que percebeu, não lembrava em nada a loira da outra noite – noite anterior? Noites atrás?! Não tinha como saber. Uma voz rouca, grossa como a de um bugio, autoritária, chamou-o: “Felipe Yohanssen! Te levanta, vambora!”
Vambora pra onde?!”, começou a perguntar ele, com a voz arrastada e a língua enrolada, como se estivesse bêbado. Felipe tinha outras perguntas, mas a voz não acompanhava o pensamento, ainda estava grogue e com náuseas. Tentou levantar-se, mais para tentar reagir, que pra fazer o que mandava o estranho. Para sua frustração, o sujeito, alto, forte, cabelos longos, ligeiramente familiar, teve que ajudá-lo a levantar. O homem o carregou pelo que lhe pareceu um galpão com paredes de tijolos aparentes e telhados de zinco, talvez pertencente a um depósito de alguma fábrica, ou loja. Chegaram a um pátio, o sol já queimava forte sobre suas cabeças e um fiat antigo esperava, estacionado.
O estranho parou Felipe com mão firme, amarrou seus pés com uma corda de nylon e algemou seus pulsos, antes de jogá-lo no banco de trás do carro. Partiram. Felipe ainda não sabia de onde, nem pra onde. Tentou verbalizar seus questionamentos, novamente. “Calma aí atrás, man. A tua hora tá chegando.”
COMO ASSIM, minha hora...?”, tentou protestar Felipe, transtornado, tentando se ajeitar no banco de trás do carro, sacolejando mais que um saco de tucumãs. O estranho, no entanto, não deu nenhuma satisfação. Sua hora tava chegando e pronto! O que isso quereria dizer? Felipe sentiu-se desestimulado a questionar seu raptor. Ficou imaginando, então, o que poderia significar aquilo tudo. Uma das suas conjeturas começou a ganhar mais força, ele começou, então, a se desesperar. Perguntou, com a voz embargada, como se estivesse prestes a chorar: “Você vai me matar?!” E nada. Nenhuma resposta. “Por que tu tá fazendo isso, man?!” O mesmo silêncio, só quebrado pelo ronco do motor. “Cara, pelo amor de Deus, é sério, nem te conheço, que foi que te fiz?! Me fala!!”
A falta de resposta o estava deixando cada vez mais desesperado, sentia que a qualquer momento iria surtar. “Alguém te pagou pra me pegar, foi?”
Sim.” Enfim, uma resposta! Curta e grossa, pouco satisfatória, mas uma resposta. Felipe, agora, ficou parado, pensando por uns minutos, quem poderia ter pago alguém pra sequestrá-lo e, talvez, matá-lo. A cabeça girava, mas não era mais o efeito da droga – fosse qual fosse – era essa dúvida, que era capaz de matá-lo antes de chegar lá, onde quer que fosse. O estranho só teria o trabalho de desová-lo. Tomado pela curiosidade de saber a qualquer custo quem lhe odiaria tanto, ao ponto de querê-lo morto, perguntou, apenas: “Quem...?”
Tua mulher.”, foi a resposta do cabeludo. Novamente, curta e grossa. Felipe não entendeu direito, pelo menos, julgou não ter entendido. “Como assim? Eu não sou casado... e nem separado!”, apressou-se em dizer.
E quem falou que tu era, man?”, disse o estranho, agora dando uma gargalhada assustadora. Felipe lembrou-se, então, da ex-noiva, com quem terminara uma relação de quase cinco anos, uma semana antes do Dia dos Namorados. “Mas...”, titubeou, tentando argumentar: “a gente terminou faz tanto tempo...”
Ela disse que você que terminou...”, respondeu o raptor, interrompendo a ladainha antes de começar.
Sim, mas... por que só agora...? O que ela quer, afinal?!”
Tua cabeça numa bandeja.”, foi a resposta do estranho, num tom de satisfação cruel.
AHN?! Como assim, então ela me quer mesmo morto?!”
Eu só sou pago pelo serviço, não faço perguntas!”, disse o estranho, encerrando a discussão. Felipe continuou falando, se lamuriando, chorando, sem se importar mais com o silêncio sepulcral do condutor do fiat.
Enfim, calou-se. Não por ter se cansado de lamentar, mas porque o carro parou. Onde, ele ainda não sabia. Os minutos passaram lentamente, até que a porta do carona abriu-se. O estranho empunhava uma pistola 9mm numa mão, na outra, trazia um estilete, com o qual cortou agilmente a corda de nylon, que prendia bem apertados seus pés. “Bura! Te levanta!”, disse novamente, no tom de ronco de bugio. Felipe agora pôde observar bem o sujeito, surpreendeu-se, vendo que era o mesmo que, na outra noite, tinha lhe vendido as bebidas, no sambódromo. “Bora, que não tô afim de estragar o estofado do carro!”, esbravejou ele. Felipe, com as pernas livres, ainda meio dormentes, correu pra fora do carro, deparando-se com a estrada para Boa Vista à sua frente, nada mais. A cidade estava muito pra trás, correr para o mato não lhe pareceu uma idéia muito boa. O sujeito lhe apontava a arma e fez um gesto para que ele andasse, na direção da estrada. Felipe não tinha outra escolha e obedeceu.
Ô, cara, não faz isso, Hallexya não vai querer me ver morto...”, começou, novamente, a ladainha, tentando em vão sensibilizar o assassino.
Mas ela não vai te ver morto”, retrucou o estranho, com toda calma do mundo. “Ela só vai ver tua cabeça...”
Felipe voltou-se para o sujeito, com uma expressão de quem tinha levado uma punhalada nas costas, algumas lágrimas começavam a correr por seu rosto. “E numa bandeja!”, completou o sujeito, com um sorriso, quase parecendo amável.
Mas... mas cê tem certeza de que é isso que ela quer?!”, indagou ele, choroso.
Pra te falar a verdade... ela só me pediu pra fazer um serviço em ti! E levar o que sobrar pra ela ver... não especificou qual parte!”
Mas... mas... quando tu fala 'o serviço'...?”
É o que eu tô fazendo!”, disse o estranho, com uma naturalidade tão grande que encerrou a conversa. Felipe ficara chocado demais para retrucar. Andaram debaixo do sol inclemente por uns bons dez minutos, até chegarem próximo a um ramal, onde havia um carro, que Felipe reconheceu imediatamente. Seu coração batia muito rápido, agora: o velho Polo rosa! Ele não sabia se ria, ou se chorava. Será que o estranho tinha razão? Será que a ex viera vê-lo morrer, assim, de forma tão humilhante?!
A porta do motorista se abriu, ele viu Hallexya sair, os olhos marejados, o andar meio incerto dirigindo-se até ele. Felipe deu uma olhada de revesgueio para trás e correu, em carreira desabalada, na direção da ex, gritando seu nome. Céus, como o seu nome soava lindo, agora, depois de tanto tempo! Estacou a pouco mais de um metro diante dela. Caiu de joelhos a seus pés, desatou a chorar feito criança. “Hallexya...” disse, com a voz entrecortada, de repente rouca, “me perdoa, me perdoa, me perdoa, meu amor, me perdoa!” Levantou os olhos, embaçados pelas lágrimas, para fitá-la. Continuou: “Hallexya, eu faço o que você quiser, eu volto com você, se ainda me quiser... mas por favor, não deixa ele me matar, não deixa... fica comigo, por favor!”
Hallexya ficou boquiaberta com as palavras desesperadas dele, por uma fração de segundos, antes de aproximar-se e deixá-lo abraçá-la pelas pernas, segurar-lhe as mãos, fazer cafuné em seus cabelos, fazendo um som com os lábios que a gente costuma fazer pra acalmar neném choroso.
Tá tudo bem, agora, meu amor”, diz ela, num sussurro, “tá tudo bem, eu tô aqui, não tô? Eu te perdôo, Felipe...”
O rapaz sorriu e suspirou, aliviado, fechando os olhos e aconchegando o rosto contra o ventre dela. Nem percebeu o estranho observando a cena, a poucos passos do casal. Com lágrimas nos olhos, também, Hallexya sorriu para o estranho, apenas movimentando os lábios: “Obrigada, pai Francisco...”, ao que ele respondeu com apenas uma piscadela cúmplice e um sorriso amigável.

Francisco voltou lentamente para a entrada do ramal, a fim de pegar o seu Palio ano 1998 e voltar pra casa. Olhou pra trás mais uma vez, discretamente. Quase se emocionava quando via essas cenas, a moça e o rapaz abraçados, ela lentamente ajudando o namorado, visivelmente fragilizado, a levantar-se, para irem juntos embora. QUASE... que Francisco achava, mesmo, era graça, nisso tudo. E também, uma certa satisfação. Continuou a caminhada, falando pra si mesmo: “Missão dada é missão cumprida. Quando falo que trago a pessoa amada em três dias, é porque trago!”

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