Ele
acordou meio grogue, ainda. A cabeça doía, mas não
latejava. Não havia sofrido nenhuma pancada, ao que tudo
indicava. Mesmo que não estivesse zonzo, não enxergava
um palmo à frente do nariz. Não fazia a menor ideia de
onde estava, nem de como fora parar ali. Aos poucos, foi recobrando
os sentidos, percebeu que estava deitado numa cama de ferro, daquelas
antigas, que rangia estridentemente sob o seu peso, conforme se
remexia. O colchão, também velho, rescindia a cheiro de
suor... desconfiou que não exatamente do seu, apesar do calor
e do abafamento que sentia.
Ainda
em meio à escuridão, remexendo-se e sentindo como se o
corpo estivesse derretendo e se grudando na cama, que parecia querer
desabar a qualquer hora, Felipe – esse era seu nome – começou
a clarear a memória e lembrar que à noite ele havia
saído para o carnaboi. Fora para o sambódromo, este ano
ele iria aproveitar, se esbaldar, mesmo! Lá, seguindo o trio
elétrico, ele bebeu, se divertiu, beijou algumas cunhãs...
ficou um tempo ali, parado, só observando os foliões
brincando de boi, alguns turistas tentando. Felipe ria que só
dos gringos! Enquanto ria, virou para o lado e percebeu que era
observado por uma moça alta, cabelos loiros, lisos de
chapinha, tururi do David, rindo para ele.
Felipe
foi lá conferir, conversaram, riram-se dos gringos, trocaram
alguns beijos e carícias... ela reclamou do calor, disse que
tinha sede, ele, todo animado, ofereceu-se para pagar-lhe uma bebida.
Correu, então, até o vendedor mais próximo, nas
arquibancadas do lado da arena, pediu uma cerveja, um guaraná,
nem prestou muita atenção nele – Felipe agora pensava
a respeito. Voltou pra perto da garota loira, entregou-lhe o
refrigerante, abriu a latinha, deu um gole na cerveja... foi aí,
então, que começou a ver o mundo girar ao seu redor,
pouco antes de cair no vácuo e só acordar ali, naquele
lugar, desnorteado, com um leve enjôo. Lembrou-se vagamente de
ver a loira sorrindo algo satisfeita, a latinha de Baré na
mão, quando percebeu que ele estava passando mal... teria sido
ela, quem fez aquilo com ele...? Mas... como?! Felipe começou
a xingar até a undécima geração da jovem
loira.
Ouviu,
enfim, o som de chaves girando em uma fechadura, atrás de si,
um rangido de protesto da porta, raspando pesadamente contra o piso,
enfim a luminosidade penetrou no quarto sujo e escuro, sem janelas.
Piscando os olhos, ele tentava ver a silhueta, que percebeu, não
lembrava em nada a loira da outra noite – noite anterior? Noites
atrás?! Não tinha como saber. Uma voz rouca, grossa
como a de um bugio, autoritária, chamou-o: “Felipe
Yohanssen! Te levanta, vambora!”
“Vambora
pra onde?!”, começou a perguntar ele, com a voz arrastada e
a língua enrolada, como se estivesse bêbado. Felipe
tinha outras perguntas, mas a voz não acompanhava o
pensamento, ainda estava grogue e com náuseas. Tentou
levantar-se, mais para tentar reagir, que pra fazer o que mandava o
estranho. Para sua frustração, o sujeito, alto, forte,
cabelos longos, ligeiramente familiar, teve que ajudá-lo a
levantar. O homem o carregou pelo que lhe pareceu um galpão
com paredes de tijolos aparentes e telhados de zinco, talvez
pertencente a um depósito de alguma fábrica, ou loja.
Chegaram a um pátio, o sol já queimava forte sobre suas
cabeças e um fiat antigo esperava, estacionado.
O
estranho parou Felipe com mão firme, amarrou seus pés
com uma corda de nylon e algemou seus pulsos, antes de jogá-lo
no banco de trás do carro. Partiram. Felipe ainda não
sabia de onde, nem pra onde. Tentou verbalizar seus questionamentos,
novamente. “Calma aí atrás, man. A tua hora tá
chegando.”
“COMO
ASSIM, minha hora...?”, tentou protestar Felipe, transtornado,
tentando se ajeitar no banco de trás do carro, sacolejando
mais que um saco de tucumãs. O estranho, no entanto, não
deu nenhuma satisfação. Sua hora tava chegando e
pronto! O que isso quereria dizer? Felipe sentiu-se desestimulado a
questionar seu raptor. Ficou imaginando, então, o que poderia
significar aquilo tudo. Uma das suas conjeturas começou a
ganhar mais força, ele começou, então, a se
desesperar. Perguntou, com a voz embargada, como se estivesse prestes
a chorar: “Você vai me matar?!” E nada. Nenhuma resposta.
“Por que tu tá fazendo isso, man?!” O mesmo silêncio,
só quebrado pelo ronco do motor. “Cara, pelo amor de Deus, é
sério, nem te conheço, que foi que te fiz?! Me fala!!”
A
falta de resposta o estava deixando cada vez mais desesperado, sentia
que a qualquer momento iria surtar. “Alguém te pagou pra me
pegar, foi?”
“Sim.”
Enfim, uma resposta! Curta e grossa, pouco satisfatória, mas
uma resposta. Felipe, agora, ficou parado, pensando por uns minutos,
quem poderia ter pago alguém pra sequestrá-lo e,
talvez, matá-lo. A cabeça girava, mas não era
mais o efeito da droga – fosse qual fosse – era essa dúvida,
que era capaz de matá-lo antes de chegar lá, onde quer
que fosse. O estranho só teria o trabalho de desová-lo.
Tomado pela curiosidade de saber a qualquer custo quem lhe odiaria
tanto, ao ponto de querê-lo morto, perguntou, apenas:
“Quem...?”
“Tua
mulher.”, foi a resposta do cabeludo. Novamente, curta e grossa.
Felipe não entendeu direito, pelo menos, julgou não ter
entendido. “Como assim? Eu não sou casado... e nem
separado!”, apressou-se em dizer.
“E
quem falou que tu era, man?”, disse o estranho, agora dando uma
gargalhada assustadora. Felipe lembrou-se, então, da ex-noiva,
com quem terminara uma relação de quase cinco anos, uma
semana antes do Dia dos Namorados. “Mas...”, titubeou, tentando
argumentar: “a gente terminou faz tanto tempo...”
“Ela
disse que você que terminou...”, respondeu o raptor,
interrompendo a ladainha antes de começar.
“Sim,
mas... por que só agora...? O que ela quer, afinal?!”
“Tua
cabeça numa bandeja.”, foi a resposta do estranho, num tom
de satisfação cruel.
“AHN?!
Como assim, então ela me quer mesmo morto?!”
“Eu
só sou pago pelo serviço, não faço
perguntas!”, disse o estranho, encerrando a discussão.
Felipe continuou falando, se lamuriando, chorando, sem se importar
mais com o silêncio sepulcral do condutor do fiat.
Enfim,
calou-se. Não por ter se cansado de lamentar, mas porque o
carro parou. Onde, ele ainda não sabia. Os minutos passaram
lentamente, até que a porta do carona abriu-se. O estranho
empunhava uma pistola 9mm numa mão, na outra, trazia um
estilete, com o qual cortou agilmente a corda de nylon, que prendia
bem apertados seus pés. “Bura! Te levanta!”, disse
novamente, no tom de ronco de bugio. Felipe agora pôde observar
bem o sujeito, surpreendeu-se, vendo que era o mesmo que, na outra
noite, tinha lhe vendido as bebidas, no sambódromo. “Bora,
que não tô afim de estragar o estofado do carro!”,
esbravejou ele. Felipe, com as pernas livres, ainda meio dormentes,
correu pra fora do carro, deparando-se com a estrada para Boa Vista à
sua frente, nada mais. A cidade estava muito pra trás, correr
para o mato não lhe pareceu uma idéia muito boa. O
sujeito lhe apontava a arma e fez um gesto para que ele andasse, na
direção da estrada. Felipe não tinha outra
escolha e obedeceu.
“Ô,
cara, não faz isso, Hallexya não vai querer me ver
morto...”, começou, novamente, a ladainha, tentando em vão
sensibilizar o assassino.
“Mas
ela não vai te ver morto”, retrucou o estranho, com toda
calma do mundo. “Ela só vai ver tua cabeça...”
Felipe
voltou-se para o sujeito, com uma expressão de quem tinha
levado uma punhalada nas costas, algumas lágrimas começavam
a correr por seu rosto. “E numa bandeja!”, completou o sujeito,
com um sorriso, quase parecendo amável.
“Mas...
mas cê tem certeza de que é isso que ela quer?!”,
indagou ele, choroso.
“Pra
te falar a verdade... ela só me pediu pra fazer um serviço
em ti! E levar o que sobrar pra ela ver... não especificou
qual parte!”
“Mas...
mas... quando tu fala 'o serviço'...?”
“É
o que eu tô fazendo!”, disse o estranho, com uma naturalidade
tão grande que encerrou a conversa. Felipe ficara chocado
demais para retrucar. Andaram debaixo do sol inclemente por uns bons
dez minutos, até chegarem próximo a um ramal, onde
havia um carro, que Felipe reconheceu imediatamente. Seu coração
batia muito rápido, agora: o velho Polo rosa! Ele não
sabia se ria, ou se chorava. Será que o estranho tinha razão?
Será que a ex viera vê-lo morrer, assim, de forma tão
humilhante?!
A
porta do motorista se abriu, ele viu Hallexya sair, os olhos
marejados, o andar meio incerto dirigindo-se até ele. Felipe
deu uma olhada de revesgueio para trás e correu, em carreira
desabalada, na direção da ex, gritando seu nome. Céus,
como o seu nome soava lindo, agora, depois de tanto tempo! Estacou a
pouco mais de um metro diante dela. Caiu de joelhos a seus pés,
desatou a chorar feito criança. “Hallexya...” disse, com a
voz entrecortada, de repente rouca, “me perdoa, me perdoa, me
perdoa, meu amor, me perdoa!” Levantou os olhos, embaçados
pelas lágrimas, para fitá-la. Continuou: “Hallexya,
eu faço o que você quiser, eu volto com você, se
ainda me quiser... mas por favor, não deixa ele me matar, não
deixa... fica comigo, por favor!”
Hallexya
ficou boquiaberta com as palavras desesperadas dele, por uma fração
de segundos, antes de aproximar-se e deixá-lo abraçá-la
pelas pernas, segurar-lhe as mãos, fazer cafuné em seus
cabelos, fazendo um som com os lábios que a gente costuma
fazer pra acalmar neném choroso.
“Tá
tudo bem, agora, meu amor”, diz ela, num sussurro, “tá
tudo bem, eu tô aqui, não tô? Eu te perdôo,
Felipe...”
O
rapaz sorriu e suspirou, aliviado, fechando os olhos e aconchegando o
rosto contra o ventre dela. Nem percebeu o estranho observando a
cena, a poucos passos do casal. Com lágrimas nos olhos,
também, Hallexya sorriu para o estranho, apenas movimentando
os lábios: “Obrigada, pai Francisco...”, ao que ele
respondeu com apenas uma piscadela cúmplice e um sorriso
amigável.
Francisco
voltou lentamente para a entrada do ramal, a fim de pegar o seu Palio
ano 1998 e voltar pra casa. Olhou pra trás mais uma vez,
discretamente. Quase se emocionava quando via essas cenas, a moça
e o rapaz abraçados, ela lentamente ajudando o namorado,
visivelmente fragilizado, a levantar-se, para irem juntos embora.
QUASE... que Francisco achava, mesmo, era graça, nisso tudo. E
também, uma certa satisfação. Continuou a
caminhada, falando pra si mesmo: “Missão dada é
missão cumprida. Quando falo que trago a pessoa amada em três
dias, é porque trago!”

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