
Os
campeonatos estaduais já começaram. Alegria, acabou o
marasmo na televisão, nas tardes de sábado e domingo!
Agora tem futebol pra gente assistir, novamente! Mas... acompanhar os
campeonatos estaduais não tá mole não. É
cada joguinho mais complicado que o outro... galera está recém
voltando das férias, os times grandes não colocam pra
jogar suas estrelas, etc. Acompanhar o Gauchão, nesse começo
de temporada, fica bastante complicado! Ainda mais pela tv a cabo! Em
pay-per-view!! Em outro Estado que não o Rio Grande do Sul,
então!!! Imagine assistir a um joguinho ruim como aquele Inter
x Passo Fundo do último sábado, que acabou empatado em
um gol pra cada lado, na sua tv, em um sobrado na avenida Alexandre
Magno, pleno Parque Dez, no meio de Manaus! Walter sentiu-se
amargamente arrependido de ter pago por um jogo tão ruim!
Poderia ter economizado pra fazer qualquer outra coisa, pra uma
viagem de fim de semana a Presidente Figueiredo, talvez, ou pra um
jogo mais interessante, da Copa do Brasil, ou do Brasileirão,
quem sabe!
Já
estava quase dormindo no sofá em frente à tv, quando
ouviu ao lado um risinho, de certa forma cínico. Olhou de
repente, desperto, para o lado. “O quê, qual foi a graça??”,
inquiriu. Conhecia bem aquela risadinha de Andressa. Olhou para a tv
e sentiu o rosto esquentar, o sangue subir por seu pescoço, os
olhos pestanejaram, ardentes. Levantou-se incrédulo no que
seus olhos viam e vociferou, as mãos encrespadas estendidas na
direção do aparelho de televisão: “WHAT A
PORRA IS THIS??” Andressa riu-se novamente, logo pigarreando, ante
o olhar furibundo do marido, disse, num tom tímido de voz:
“Eles estão certos, o cara foi bastante coraj...” não
conseguiu terminar! “MUITO O QUÊ?! MUITO O QUÊÊÊ???”,
gritou mais alto ele, visivelmente transtornado. “MUITO CARA DE
PAU, MUITO BABACA, MUITO SEM NOÇÃO!! ISSO SIM, ESSE
NOJENTO FOI!! O QUÊ QUE ELE TINHA QUE TÁ FAZENDO ALI, O
QUÊ, ME DIZ, O QUÊ??” A moça pediu-lhe calma,
mas o estrago já estava feito, ele desligou a tv
impetuosamente, atirou o controle para cima, encerrando a conversa:
“LARGUEI!!”, esbravejou, levantando-se do sofá e
ruidosamente deixando a sala. Chegando na soleira da porta da
varanda, olhou para o cão e o gato, parados a sua frente. Um
começou a abanar o rabo, a boca aberta, a língua para
fora, o outro passou chispando por seus pés, aparentemente
assustado, escondendo-se embaixo do carro, na garagem ao lado.
Acompanhando o gato com o olhar, Walter abrandou o cenho, suspirou,
sorriu e abanou a cabeça negativamente.
Mais
tarde, os ânimos já acalmados, o casal saiu com o carro,
iam ao Manauara; um cineminha, uns chopps, um jantarzinho maneiro,
pra desopilar, sem falar uma palavra sobre futebol! Se fosse
necessário, Walter iria relembrar Andressa daquela final entre
Vitória e Bahia de Feira, arriscando estragar também o
seu humor e todo o resto do final de semana. Os bichos, por sua vez,
ficaram observando, dali do fundo da garagem, o carro saindo e Walter
descendo do carro, pra fechar o portão e trancá-lo.
“Os
'seromanos' se estressam mesmo por causa de futebol!”, comentou
Sansão, algo surpreso.
“Te
falei, cara!”, replicou Aquiles. “Por causa desse tal de futebol,
eles até se matam uns aos outros, é sério!
Lembra daquele caso, ano passado, no Egito, parece que foi...?!”
“Sim,
mas... por que o Walter brigou com a mamãe?!”, perguntou o
cachorro, choroso e confuso.
“Coisas
desse futebol, Sansão”, explicou Aquiles. “As pessoas
perdem a noção das coisas por causa dele. Esquecem de
amores, amizades, põe o dito cujo acima de todo o resto. Isso,
nem hoje, nem nunca que a gente vai entender, Sansão.”
“Mas
parece que a mamãe falou de um tal 'seromano' corajoso, uma
hora, ali...”, replicou o cão. “Que será que ela
quis dizer com isso...?”
“Vou
te dizer como eu entendi”, começou Aquiles. “Um sujeito
foi lá para o estádio com a camisa do maior rival pra
ver o jogo do Internacional... só que o jogo não era
contra o seu time! Era contra um outro! Entendeu?!”
“Puxa!
Então, o cara foi mesmo muito corajoso, cê não
acha não?!”, surpreendeu-se o cachorro, com os olhos
esbugalhados, tentando imaginar a cena.
“Foi
nada!”, retrucou Aquiles, abanando as orelhas e piscando os olhos
com ar sonolento. “Essa é apenas a típica e conhecida
nossa estupidez humana! Eles gostam de demonstrar que são
ousados, fazendo coisas idiotas e sem sentido, só para
aparecer, provocar os inimigos e correr riscos desnecessários.
Os humanos não têm o instinto de sobrevivência que
a gente tem. Por exemplo: sou capaz de apostar com você que,
pra salvar uma criança presa num prédio em chamas,
aquele cara não iria mexer nem um músculo!”
“É,
eu acredito em você, mas... a tv disse que aquele cara era
muito corajoso, que o que tinha feito era uma verdadeira façanha!”
Aquiles
riu-se.
“Sim,
sim, Sansão, a tv é bem capaz de dizer algo do tipo,
quando lhe interessa! Os humanos acreditam que ela só quer
lhes entreter, mas a motivação real dela é
manipular a cabeça deles! Tipo: 'compre isso', 'coma aquilo',
'essa ração é uma droga, mas seu cão vai
adorar!'...”
“Você
está querendo dizer o que com isso, Aquiles?”
“Ora,
Sansão, é bastante óbvio, não é?!
A televisão também torce, ela também escolhe
lados! Veja nas novelas, nos reality shows, nos telejornais... no
futebol também não é diferente!”
“Você
quer dizer, então, que a tv sabe que o cara estava agindo
errado e que, assim mesmo, apoiou seu comportamento só porque
ele torcia contra esse Inter?”
“Exatamente!
Se ela não tivesse lado, diria o fato puro e simples: aquele
não era um valente, era apenas um idiota, arriscando-se sem
motivo algum só para provocar uns torcedores de um outro time,
num joguinho que não deveria lhe interessar!”
“E
se fosse o contrário...?”
“Ora,
eles diriam exatamente o que te falei, que um colorado foi lá
provocar os adversários, foi lá tumultuar um jogo que
não tem nada a ver com o seu time! O que, de fato, seria
verdade! Entendeu?”
“Ahn...
acho que sim... a tv também é passional, então...”
concluiu o cão.
“Sim,
é! Ela também escolhe um lado, meu amigo! E manipula
informações, se isso lhe for útil!”
“E
se tiver sido só uma brincadeira...?”
“Então,
Sansão, os humanos estão demonstrando o que eu já
sabia: eles não sabem brincar!”