Hoje chamam de mini mercado, ou mercadinho, mas, na nossa infância, chamavam de armazém, venda, ou taberninha... local onde você encontra de tudo: pão, misturas, erva mate e pupunha a granel, pirarucu seco pro almoço de sexta-feira santa, uma caninha da boa, envelhecida em barris de carvalho e um ou dois dedos de prosa... entre e fique a vontade!
Dizer
as coisas em tom de brincadeira, ter coragem de deixar transparecer
meias verdades, ainda por cima com pretensão de te chamar a
atenção e te fazer sorrir, quem sabe, quem sabe... é,
esse sou eu. Acordado no meio da madrugada, sono agitado, desfocado
demais até pra dormir... e pensando em você, pensando no
que escrevi, nas entrelinhas.
Há
dias pensando no mesmo tema, há eras pensando naquilo que tive
tão pouco, que me faz tanta falta... há tanto tempo
respirando o mesmo ar saturado. Sem tempo, disposição
ou coragem para desligar-me da “matrix” e buscar o que me falta,
sem paciência para me jogar em conquistas, a cada dia sentindo
mais a necessidade de ficar on-line, no afã de ficar próximo
– até demais – de você... chegar ao absurdo de pedir
a Deus para encontrar algo que não existe; alguém como
você! Não é bonito não ter coragem de
dizer com todas as letras que queria você além da
“matrix”, quero você na minha vida!
Stalkear
não é legal. Agora tem lei, pra quem acredita que elas
existam para ser cumpridas e realmente teme alguma punição.
Praquele stalker ali, stalkear não tá mais tão
legal assim...
Ela
o fascina, tudo o que ela possa exalar, tudo o que lhe faça
referência. Músicas, filmes, livros, cidades, praia , ou
serra. Difícil, quase impossível não curtir cada
foto sua, ou em que ela aparece, cada sorriso para a câmera,
que automaticamente deixa-o com um sorriso bobo no rosto, que ele
admira extasiado, hipnotizado.
Cada
link aberto, lido e repassado, cada gesto seu nas redes sociais
querendo ser interpretado como um sinal de afeto e admiração,
como se fosse um afago em seu belo rosto. Cada curtida dela lhe faz
sorrir por dentro e por fora, cada comentário, ou reply lhe
devolve o sol e o calor nos dias mais gelados e cinzentos!
Mas
tá difícil stalkear... às vezes ele vê o
que não lhe agrada tanto assim. Sente-se quase culpado de ser
tão enxerido. Complicado sentir ciúmes que não
deveriam existir... não fosse a frieza da internet, seria
impossível ocultar certos sentimentos que tem guardado mais
para si, demonstrando timidamente, arrependido da sua fraqueza, ou
falta de coragem. Já está difícil esconder que
tem pensado muito nela, que quase tudo que é dito, feito,
escrito, é pensando nela.
Ele
a espia, ele procura ouvir certas músicas que o remetam a ela,
ele espera suas curtidas, um comentário, um :*, etc...
complicado ouvir aquela música do Agridoce e lembrar de um
sonho que teve com ela sem derramar ao menos algumas lágrimas...
stalkear anda bem difícil. E bem difícil não
stalkear.
Avenida
Djalma Batista, 19 horas. Calor, ônibus até o tucupi,
carros, motos, buzinas berrando freneticamente. O engarrafamento de
todo santo dia, o trânsito em marcha de tracajá. Mais
uma noite como as outras, mais duas horas de vida perdidas no caminho
do trabalho pra casa, de casa pro trabalho.
O
ônibus se arrastava próximo ao Plaza, parecia que há
meia hora, atrás de uma fila gigantesca de ônibus,
microônibus e carros. Na parada em frente ao shopping centenas
de pessoas entrando e saindo dos coletivos, mais algumas dezenas
esperando impacientemente seu transporte para ir pra casa.
Vindo
do Centro da cidade, ele conseguira, por obra e graça divinas,
um lugar para sentar, escorar a cabeça no vidro e ficar
observando a avenida lotada, entregue a um tédio e uma
melancolia aos quais já estava habituado. O ônibus parou
de andar, o motorista parecia ter desistido de prosseguir viagem. Um
burburinho de pessoas irritadas começou a ser ouvido dentro do
coletivo. E ele só pensava: “mais duas horas de vida
perdidas...”
Piscou,
levantou a cabeça do vidro, arregalou bem os olhos para ter
certeza: do outro lado da avenida, na direção
bairro-centro, os carros passavam com mais fluência e ela,
cheia de livros e apostilas, esperava aflita por uma oportunidade
para atravessar a rua.
Abriu
um largo sorriso, esqueceu-se do cansaço, do tédio, da
melancolia e do marasmo, esqueceu-se até que ainda estava
muito longe da sua casa. Levantou-se, abrindo espaço no mar de
gente suada, cansada e mal-humorada, fez sinal, gritou, assobiou,
suplicou para que o motorista abrisse a porta para ele descer, podia
ser fora do ponto, mesmo... o homem da camisa cor de boto rosa disse,
num tom inamistoso que não poderia fazer nada, era contra o
regulamento, perigava até levar multa dos marronzinhos. Ele
insistiu, alguns outros passageiros engrossaram o coro, iriam descer
ali mesmo. Até que o motora, irritado com a zoeira, abriu a
porta.
Ele
desceu rápido feito foguete, estacou quase em cima dum carro
parado na saída do estacionamento do shopping. Meio
exasperado, tentou enxergá-la por entre o trânsito de
pessoas, carros e coletivos, sorriu novamente, viu-a correndo, sem
notá-lo ainda, desviando de motoristas apressados demais, que
buzinaram enraivecidos. Veloz como um raio, ele correu na sua
direção, chamando seu nome, quase pulando em cima do
capô de um táxi, passando por trás de uma kombi,
na frente de um motoboy.
Antes
que ela tocasse o pé no canteiro central, ele a aparou nos
braços, tal como o moleque que apara cuidadosamente o pião
rodopiante na palma da mão. Seus olhos encontraram-se, a
surpresa nos dela, o êxtase apaixonado nos dele. Os pés
dele resvalaram pelo canteiro estreito, parando quase no meio da via,
atrapalhando o trânsito. Sorriu, beijou-a carinhosamente, os
olhos semicerrados, os ouvidos surdos por uns minutos, até o
ar quase faltar. Ela riu, “tu é doido, menino...”, disse.
Enlaçou o pescoço dele com os braços, voltando a
beijá-lo em meio a um mar de buzinas, gritos e aplausos.
Estou
cansado disso aqui! Estou cansado desse povo burro, dessa cidade suja
e mal-cuidada! Sem infra-estrutura, sem árvores, sem calçada
pra gente andar, sem praça pra nossas crianças
brincarem!
Tenho
só me estressado com essas notícias que me vêm,
de suspeita de fraude em concurso da prefeitura, em licitação
da merenda escolar, prefeito que privatizou o abastecimento da água
dizer que vai expulsar a concessionária e, no fim das contas,
tudo continuar na mesma...
Cansei,
não quero mais saber! Vou-me embora dessa cidade! Não
tem mais jeito! Oito candidatos à prefeitura e nenhum se
salva! Não há renovação, pelo menos dois
já foram prefeitos, um é um grande bandido, isso sim!
Vou-me embora, que essa cidade não tem mais jeito!
Mas,
para onde vou?! Para qual cidade?? Para alguma cidade do interior?!
Mas, se a internet e o transporte público aqui já são
uma vergonha, imagine no interior do Estado! Sem falar em saúde,
educação e... bem, enfim! É, vou ter que ir para
outra cidade de outro Estado, alguma mais séria, com pessoas
mais politizadas... quem sabe São Paulo?!
Lá
o prefeito proíbe a distribuição de sopa aos
pobres e moradores de rua, no inverno; a crackolândia não
deixou de existir, só se espalhou pela cidade; Maluf e Netinho
de Paula se unem pra apoiar o candidato do PT à prefeitura...
não, São Paulo pode ser a maior cidade do país,
mas com certeza não é a melhor.
Irei
para onde, então? Porto Alegre?! Como aqui, lá o
transporte público é deficitário e não
tem cara de que vá melhorar tão cedo! Lá também,
a propaganda da prefeitura diverge bastante da realidade. E os
candidatos de lá não são nada melhores que os
daqui! Sem falar que é muito frio! E o frio não tem
“curtir”, ou você suporta, ou não!
Decidi,
então, que vou ficar. Não adianta, a cidade não
vai mudar por si só. Nada me assegura que em outra cidade as
coisas serão melhores, sobretudo no Brasil! Terei de mudar de
país?! Não, isso não vai resolver o problema.
Posso sair, por um tempo, da minha cidade, mas ir embora de vez...
não, isso não vai adiantar. Parece que não tenho
opção. Mas é melhor assim, escolho ficar e
resistir.