PESCANDO NO BODOSAL

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Atrapalhando o Trafego


Avenida Djalma Batista, 19 horas. Calor, ônibus até o tucupi, carros, motos, buzinas berrando freneticamente. O engarrafamento de todo santo dia, o trânsito em marcha de tracajá. Mais uma noite como as outras, mais duas horas de vida perdidas no caminho do trabalho pra casa, de casa pro trabalho.
O ônibus se arrastava próximo ao Plaza, parecia que há meia hora, atrás de uma fila gigantesca de ônibus, microônibus e carros. Na parada em frente ao shopping centenas de pessoas entrando e saindo dos coletivos, mais algumas dezenas esperando impacientemente seu transporte para ir pra casa.
Vindo do Centro da cidade, ele conseguira, por obra e graça divinas, um lugar para sentar, escorar a cabeça no vidro e ficar observando a avenida lotada, entregue a um tédio e uma melancolia aos quais já estava habituado. O ônibus parou de andar, o motorista parecia ter desistido de prosseguir viagem. Um burburinho de pessoas irritadas começou a ser ouvido dentro do coletivo. E ele só pensava: “mais duas horas de vida perdidas...”
Piscou, levantou a cabeça do vidro, arregalou bem os olhos para ter certeza: do outro lado da avenida, na direção bairro-centro, os carros passavam com mais fluência e ela, cheia de livros e apostilas, esperava aflita por uma oportunidade para atravessar a rua.
Abriu um largo sorriso, esqueceu-se do cansaço, do tédio, da melancolia e do marasmo, esqueceu-se até que ainda estava muito longe da sua casa. Levantou-se, abrindo espaço no mar de gente suada, cansada e mal-humorada, fez sinal, gritou, assobiou, suplicou para que o motorista abrisse a porta para ele descer, podia ser fora do ponto, mesmo... o homem da camisa cor de boto rosa disse, num tom inamistoso que não poderia fazer nada, era contra o regulamento, perigava até levar multa dos marronzinhos. Ele insistiu, alguns outros passageiros engrossaram o coro, iriam descer ali mesmo. Até que o motora, irritado com a zoeira, abriu a porta.
Ele desceu rápido feito foguete, estacou quase em cima dum carro parado na saída do estacionamento do shopping. Meio exasperado, tentou enxergá-la por entre o trânsito de pessoas, carros e coletivos, sorriu novamente, viu-a correndo, sem notá-lo ainda, desviando de motoristas apressados demais, que buzinaram enraivecidos. Veloz como um raio, ele correu na sua direção, chamando seu nome, quase pulando em cima do capô de um táxi, passando por trás de uma kombi, na frente de um motoboy.
Antes que ela tocasse o pé no canteiro central, ele a aparou nos braços, tal como o moleque que apara cuidadosamente o pião rodopiante na palma da mão. Seus olhos encontraram-se, a surpresa nos dela, o êxtase apaixonado nos dele. Os pés dele resvalaram pelo canteiro estreito, parando quase no meio da via, atrapalhando o trânsito. Sorriu, beijou-a carinhosamente, os olhos semicerrados, os ouvidos surdos por uns minutos, até o ar quase faltar. Ela riu, “tu é doido, menino...”, disse. Enlaçou o pescoço dele com os braços, voltando a beijá-lo em meio a um mar de buzinas, gritos e aplausos.



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