Avenida
Djalma Batista, 19 horas. Calor, ônibus até o tucupi,
carros, motos, buzinas berrando freneticamente. O engarrafamento de
todo santo dia, o trânsito em marcha de tracajá. Mais
uma noite como as outras, mais duas horas de vida perdidas no caminho
do trabalho pra casa, de casa pro trabalho.
O
ônibus se arrastava próximo ao Plaza, parecia que há
meia hora, atrás de uma fila gigantesca de ônibus,
microônibus e carros. Na parada em frente ao shopping centenas
de pessoas entrando e saindo dos coletivos, mais algumas dezenas
esperando impacientemente seu transporte para ir pra casa.
Vindo
do Centro da cidade, ele conseguira, por obra e graça divinas,
um lugar para sentar, escorar a cabeça no vidro e ficar
observando a avenida lotada, entregue a um tédio e uma
melancolia aos quais já estava habituado. O ônibus parou
de andar, o motorista parecia ter desistido de prosseguir viagem. Um
burburinho de pessoas irritadas começou a ser ouvido dentro do
coletivo. E ele só pensava: “mais duas horas de vida
perdidas...”
Piscou,
levantou a cabeça do vidro, arregalou bem os olhos para ter
certeza: do outro lado da avenida, na direção
bairro-centro, os carros passavam com mais fluência e ela,
cheia de livros e apostilas, esperava aflita por uma oportunidade
para atravessar a rua.
Abriu
um largo sorriso, esqueceu-se do cansaço, do tédio, da
melancolia e do marasmo, esqueceu-se até que ainda estava
muito longe da sua casa. Levantou-se, abrindo espaço no mar de
gente suada, cansada e mal-humorada, fez sinal, gritou, assobiou,
suplicou para que o motorista abrisse a porta para ele descer, podia
ser fora do ponto, mesmo... o homem da camisa cor de boto rosa disse,
num tom inamistoso que não poderia fazer nada, era contra o
regulamento, perigava até levar multa dos marronzinhos. Ele
insistiu, alguns outros passageiros engrossaram o coro, iriam descer
ali mesmo. Até que o motora, irritado com a zoeira, abriu a
porta.
Ele
desceu rápido feito foguete, estacou quase em cima dum carro
parado na saída do estacionamento do shopping. Meio
exasperado, tentou enxergá-la por entre o trânsito de
pessoas, carros e coletivos, sorriu novamente, viu-a correndo, sem
notá-lo ainda, desviando de motoristas apressados demais, que
buzinaram enraivecidos. Veloz como um raio, ele correu na sua
direção, chamando seu nome, quase pulando em cima do
capô de um táxi, passando por trás de uma kombi,
na frente de um motoboy.
Antes
que ela tocasse o pé no canteiro central, ele a aparou nos
braços, tal como o moleque que apara cuidadosamente o pião
rodopiante na palma da mão. Seus olhos encontraram-se, a
surpresa nos dela, o êxtase apaixonado nos dele. Os pés
dele resvalaram pelo canteiro estreito, parando quase no meio da via,
atrapalhando o trânsito. Sorriu, beijou-a carinhosamente, os
olhos semicerrados, os ouvidos surdos por uns minutos, até o
ar quase faltar. Ela riu, “tu é doido, menino...”, disse.
Enlaçou o pescoço dele com os braços, voltando a
beijá-lo em meio a um mar de buzinas, gritos e aplausos.


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