PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Valor do Muito Obrigado

Sim, eu sei, tudo bem, reconheço que, às vezes, há valor em usar-se o sorriso, o “por favor” e o “obrigado” e todo aquele papo. Às vezes! Porque há vezes, sim, em que toda essa parafernália é absolutamente supérflua.
Na saída do trem, sempre têm os porteiros, pessoas que sobem no dito cujo e, mesmo este não estando superlotado, em vez de buscarem aquelas barras de pole dancing que ficam no meio dos vagões, ou pelo menos deixarem as portas livres, se mantém estaqueados ali mesmo, atrapalhando a saída e entrada de passageiros. Bom, pra essas pessoas só peço licença uma vez. Não ouviu, ou fez que não ouviu, não me importa, eu passo de qualquer maneira. Às vezes há pequenas vantagens em se ter altura e peso avantajados, e sei me aproveitar disso, acredite! Às vezes acho até divertido levar alguns porteiros comigo, ao descer do vagão.

Da mesma forma. Quase sempre tem alguma pessoa idosa agarrada nas barras de pole dancing dos trens em que venho de casa para o trabalho. Quase sempre tem algum aleijado moral sentado nos assentos destinados a idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e portadores de necessidades especiais – os deficientes físicos. Quase nunca consigo lugar pra vir sentado no trem. Algumas, raríssimas vezes consigo pegar um trem com lugar nos assentos. Os que não são destinados a idosos, gestantes, etc., obviamente. E algumas vezes sedo o lugar onde vinha sentado. Não espero nenhum sorriso por isso, nenhum agradecimento. Quase nunca espero.
Dar lugar pra uma pessoa mais velha, ou uma moça grávida, no trem, no ônibus, no banco, ou repartição pública, não faço isso pra contar pontos com as pessoas, ou com meus “superiores”, em algum plano espiritual melhor – embora creia que hajam alguns nos observando – não espero nenhuma recompensa, nem mesmo um sorriso, ou um gentil “obrigado”. Até porque não faço por gentileza. Quando sedo o lugar, é porque me sinto desconfortável, vendo uma jovem grávida em pé, espremida no meio de passageiros mais preocupados em guardar o seu lugar como cães assegurando seu território, ou uma velhinha com certa dificuldade de locomoção, procurando sustentar-se em pé, agarrada a uma daquelas barras de pole dancing. E me sinto constrangido, quando faço isso e as pessoas me agradecem. Repito, não busco agradecimento. Reconhecimento e agradecimentos, vindos de quem se espera, por motivo de um verdadeiro favor, algo que não é da minha obrigação, ou que não pertence às convenções gerais de boa convivência, aí é outra coisa. Um “muito obrigado(a)” é o mínimo que espero do(a) outro(a)! Agora, ceder assento em ônibus, trem, etc., isso é, de certa forma, uma obrigação e não espero que me agradeçam, me sinto, realmente, constrangido quando agradecem.
Hoje, por exemplo. Na altura da estação de metrô Esteio, vagou um lugar no trem e eu certifiquei-me de que não tinha nenhuma mulher cheia de crianças, nenhum ceguinho, nenhum velhinho ou velhinha de passos lentos e exitantes, nem dificuldade pra segurar-se em pé. Duas estações adiante, na estação São Luís/ULBRA, subiu no vagão uma senhora idosa com uns três palmos menos de altura que eu. Levantei-me e indiquei-lhe o lugar onde há pouco me sentara. Nem sei se ela agradeceu-me pelo ato, estava abençoadamente com os fones auriculares do celular nos ouvidos, mas tenho impressão de que não agradeceu. Certa ela, era minha obrigação, era obrigação da maioria das pessoas que ali estavam sentadas, como convenção social, de convivência humana. Mas apenas a mim parece ter causado incômodo ver aquela velhinha em pé, desesperadamente agarrada naquela barra feito siri na vara.

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