PESCANDO NO BODOSAL

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Através dos Janelões - Os Bons Turistas


Estou aqui, pensando num texto. Aqui, do alto do terceiro andar, olhando para a Djalma Batista, assistindo ao Sol sumir por detrás das espessas nuvens, e ao movimento crescente dos carros, motos, ônibus, microônibus e pessoas que arriscam-se a atravessar a avenida movimentada, quando, há poucos metros daqui, há uma passarela. Aqui, agora, há esses janelões, por onde observo o movimento da rua, a vida da cidade que “incrivelmente” amamos. Não sou um grande fã de shopping centers. Não fosse pelo ar refrigerado aqui de dentro, que nos protege do calor manauense, que nem tem sido assim tão cruel quanto ainda posso me lembrar e pelas janelas de vidro levemente escurecido, que nos protege dos raios de sol, que por vezes lá fora parecem cortar-nos e trespassar nossa carne como se fosse um laser, não teria motivo algum pra entrar num shopping. Nos shopping centers, como nos aeroportos, e rodoviárias, tudo o que você encontra ali é mais caro que nas lojas que ficam fora desses estabelecimentos. Sim, sou pobre, mas não é o lado financeiro que se torna preponderante aqui.
Não sou do bom tipo de turista. Sim, claro, gosto de ver os monumentos históricos da cidade, conheci o Teatro Amazonas, a igreja de São Sebastião, o Largo, com seus casarios antigos... gosto dali, gostava quando haviam as seções de cinema ao ar livre, no Largo, nas noites de sábado. Parece que não há mais essas seções, pelo menos, foi o que ouvi dizer.Já visitei, algumas vezes, a praia da Ponta Negra. Como morador, já que por aqui vivi uns bons quatro anos, e como turista. Mas definitivamente, não sou um bom turista. O bom turista não faz compras na rua Marechal Deodoro, conhecida como “rua do bate-palmas”. O bom turista não vai desacompanhado ao Educandos, nem pede um Baré em lata, naqueles bares da orla daquele bairro. Poderiam até ficar por ali, observando e admirando os pequenos barcos, flutuantes e balsas que cruzam o rio Negro, ou apenas ficam por ali.
Bons turistas não se embrenham, a qualquer hora do dia, pelas ruas repletas de hoteizinhos, daqueles onde paga-se, em média, R$ 15,00 por duas ou três horas de “diversão”, não passeiam despreocupados pelo Rodway, nem chegam perto da Cadeia Pública, na avenida 7 de Setembro. O bom turista não pega ônibus para os bairros, sobretudo em horário de pico. O bom turista não passeia mais pela Zona Franca, nem compra DVD por R$ 2,00, 3 por R$ 5,00, 6 por R$ 10,00. Nem faz idéia de que isso exista. O bom turista gosta de caminhar, mas lhe pergunte se ele vai do Parque Dez ao Plaza Shopping a pé, pra economizar R$ 2,25 da passagem de ônibus!
Enfim, creio já estar provado e comprovado que não sou, de modo algum, um bom turista. Não acho graça em seguir o cronograma dos pacotes de viagens, em ir pra um hotel de selva e me embrenhar no mato, pra dizer que conheci a Amazônia. Isso tudo eu já vejo pela tevê, encontro na internet, leio no jornal... gosto de andar pela cidade, fazer meu próprio roteiro, meus próprios passeios, atravessar o rio no jatinho, pra pegar um ônibus até Iranduba – dá pra contar nos dedos os turistas que fizeram essa viagenzinha agradável até a cidadezinha do outro lado do rio Negro, não dá? Gosto de ser turista na minha própria cidade, em Porto Alegre sou assim, em Manaus não poderia ser diferente, aqui é minha cidade, também, creio conhecê-la bem, pelo menos melhor do que um bom turista pode, ou quer conhecer.
Gosto de andar pela minha cidade, como turista, até cansar de bater perna, para aí sim me esconder no shopping, como faz todo mundo, para agora sentar-me à mesa para escrever este pequeno texto, beber um guaraná tubaína (e lembrar por que não me agrada tanto esta marca) e observar a cidade através dos janelões, que antigamente não existiam, porque este shopping era uma horrenda caixa amarela. Estou até começando a simpatizar com este shopping center! Estiver por aqui, me procure! Vou estar por um bom tempo curtindo a vidinha manauara!

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