Foram quase quatro anos. Quatro longos anos
sem os ver, recebendo notícias esparsas e, às vezes, desencontradas, sobre os
entes queridos que por aqui foram deixados. Durante todo esse tempo, esteve
pensando sempre com carinho e muitas saudades naqueles que deixou, nos bons
amigos, na quase família que aparentemente tinha necessitado deixar para trás,
por motivos além da sua vontade, que não o permitiram por aqui ficar,
permanecer, fincar pé, criar raiz. Tudo isso era o que ele queria. Nada disso
deu certo. Então, ele voltou para lá de onde veio. Deixou uma porção de coisas
inacabadas por aqui. Prometeu a ele mesmo, e a essas pessoas, que voltaria
muito em breve, nem que fosse pra fazer uma visita.
Durante os quatro anos, que lhe pareceram
quatro séculos, lhe perguntavam, sempre que podiam, quando ele viria. Quando é
mesmo que ele voltaria, que talvez viesse tentar a sorte na terra onde se
sentiu acolhido, onde sentiu que estava em casa. Pareciam
sentir a mesma saudade que sentia por eles. A matriarca, a pessoa que o
acolhera antes como se fosse um filho, quase, chegou a dizer-lhe que já havia
um quarto à sua espera, que ele poderia se hospedar em sua casa, que não se
preocupasse com onde ficar nem com que comer, que isso tudo seria arranjado.
Quando viesse, pelo que lhe diziam, com seu
canto de sereias, iria ter que se preocupar apenas em ter dinheiro para se
locomover, até mesmo, quem sabe, fazer viagens curtas, conhecer lugares, ver
pontos turísticos que não pôde se ver na oportunidade anterior, mesmo quando estava
por aqui, morando.
Vontade era o que ele mais tinha para
retornar aqui, o que lhe faltava era condição e oportunidade. Nem se preocupou,
realmente, em guardar dinheiro para alimentar-se e ter onde ficar, mas tentava,
com muito custo, guardar dinheiro para suas voltas pela cidade e para a
passagem. Afinal, lhe disseram que era tudo do que precisava. Que não teria
limite de tempo para ficar – obviamente dentro de um período de tempo razoável,
nem tão curto que mal dê pra se verem e se falarem, nem tão longo que pareça
que veio para morar.
Então, surgiu a tal oportunidade, e ele teve
condições de, enfim, vir para cá. Deu todos os detalhes de como seria essa sua
nova vinda, explicou que essa era a oportunidade que surgira, que não haveria
outra tão cedo. Eles lhe pareceram surpresos. Depois de quase quatro séculos
longe daqui, ele “já” estava vindo?? Pois é, estava vindo, mas não podemos
dizer que era já. Quatro anos não são “já”. Não é como se você fosse viajar
para o litoral, num feriado prolongado, pra voltar na segunda-feira.
Tiveram quase quatro anos para se prepararem
para o seu retorno. Eles disseram, diversas vezes, que estavam até
preparando-se para isso. Que não haveria como pegá-los de surpresa, a não ser,
óbvio, se viesse sem avisá-los. Mas ele os avisou, com pelo menos um mês de
antecedência, avisou-lhes sobre todos os detalhes, quanto tempo precisaria
ficar e tudo o mais. Afinal de contas, não teria nenhum motivo para se
preocupar, eles lhe encheram tanto os ouvidos, perguntando-lhe, quase lhe pedindo
para que viesse, que quando aqui chegasse, encontraria tudo mais ou menos
organizado e uma boa recepção.
Então, quando ele chega, parece que,
realmente, não passou tanto tempo para eles quanto para si. Para ele, foi há
quatro anos atrás que ele partiu, com um aperto no peito. Para eles, parecia
que ele tinha saído na semana passada. Apenas uma viagem curta. Parece que ele
apenas pegara a balsa e atravessara o rio, para resolver uns negócios em Iranduba. Nada de
mais. O tal quartinho de despejo que lhe seria destinado não estava pronto
coisa alguma. A recepção não foi tão calorosa quanto era de se esperar, as
pessoas que, lhe diziam, não estavam muito interessadas no seu retorno,
pareceram, de certa forma, felizes por estar de volta, e quem parecia tão
interessado em seu retorno, demonstrou-se bastante contrariado.
De repente, todos os problemas, de todas as
ordens, parecem ter se acumulado até agora, para explodirem justamente neste
momento, agora que ele está por aqui. Todas as contendas familiares, todos os
problemas de saúde possíveis e imagináveis, todo stress de meses antes dele
chegar, tinha que explodir justo agora, tudo ao mesmo tempo! O calor tinha que
aumentar justo agora, quando o ventilador pifa! O celular velho de guerra tinha
que acabar justo neste momento, não podia ter “falecido” assim que ele voltasse
para lá de onde veio!
Eles tinham que lhe pegar para ser seu muro
das lamentações, para ouvir calado suas reclamações, algumas delas dirigidas
diretamente a ele, como se ele fosse o problema, o motivo pelo qual tudo está
acontecendo. Chegam a reclamar uma pretensa falta de transparência dele, alegam
que não teria dito tudo, não teria avisado com suficiente antecedência. Ele
começa a sentir-se um intruso, não um hóspede – como lhe disseram que seria!
Ele tenta ao máximo não se intrometer em certos assuntos que não lhe dizem
respeito. Ele é quem tem alimentado a todos ali, ele é quem tem cuidado da
casa, para os queridos amigos, para a “quase-família” fazer seus passeios, sem
ele, sem o hóspede, sem o pretenso turista!
É difícil para ele, crer que não foi um
grande erro, acreditar no que lhe fora dito antes de vir até aqui. É mais
difícil crer que, se tudo der errado, ele um dia voltará, se mesmo quererá
voltar. É impossível crer que não saibam receber um hóspede em sua casa!
Eles sabem que não teriam que comprar
alimentos, nem artigos de limpeza, para seu uso, forçosamente tendo que
dividi-los com seus anfitriões. Eles sabem perfeitamente que não teriam que, mesmo
a contragosto, se envolver na rotina e nos problemas da casa alheia. Eles sabem
que sua privacidade seria respeitada da melhor maneira possível, que sua rotina
seria diferente, que ninguém lhes imporia a sua própria rotina. Mas, então por quê
esse tratamento tão inamistoso? Não estão convencendo que aqui é uma terra ruim,
onde só graça a má-vontade e pessoas ignorantes. Estão convencendo que eles é que
são assim! Eles é que recebem a qualquer um, parente, ou amigo, como intruso, não
como hóspede.




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