PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 30 de março de 2012

Aquela Conversa


Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias, mas a terra avistou em você
O som que ouço são as gírias do seu vocabulário
Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o Parque das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje
Estranho mas já me sinto um velho amigo seu
Seu all star azul combina com o meu preto de cano alto
Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas
Para a tua voz parece exato
Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem, ficou...
Parque das Laranjeiras
Satisfeito sorri, quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem,
Ficou pra hoje.
Nando Reis – All Star

Não é estranho eu me apaixonar por você. Não é estranho eu pensar em você, mais que no vídeo, quando ouço aquela música, que já faz um tempo que me mostrou. Estranho é colocar tudo quanto é música que me remeta a você em meu MP3 e passar os dias ouvindo, praticamente o tempo todo! Estranho é me viciar assim em você e nem te pedir licença! Estranho é ficar marcado por aquele encontro tão rápido, tão banal e casual. Estranho é querer continuar a conversa de onde não paramos, sequer começamos. É estranho como me habituei a te enviar vídeos, postá-los no seu mural, passar o fim de semana pensando numa música nova, em uma que você goste. Estranho como às vezes me faz falta um “curtir”, ou um comentário teu.
Foi estranho como eu, o gigante que mal conhece a própria força, tremi na base ao ver-te frente a frente, os olhos vesgos e esbugalhados com teu olhar bonito, suave, meio lânguido. Não foi estranho ficar com cara de bobo, nem perder a voz, não saber dizer quase nada, sentir o coração disparar. Isso sempre me acontece quando uma mulher bonita vem me falar, sobretudo se tem um sorriso que me cativa, como o teu. Estranho é pensar tanto naquele dia, é tentar lembrar cada detalhe, do local, de como estava o dia, de como você estava vestida. Estranho sentir tanta saudade daquele dia, como é estranho sentir-me frustrado por não encontrar “aquela” música pra enviar a você. Guardo uma pequena esperança, de um dia te reencontrar e, enfim, começarmos a conversa, que nem chegamos a iniciar naquele dia, acabou ficando pra depois...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Rotas de Fuga


Girl, I wanna be good to you,
I never wanna do you no harm,
I'm caught up in this fascination,
Helping with your alarms,
Ignore life, if you want to, babe,
Do what you've got to do,
I need some time in the countryside,
I wanna feel so brand new

You make me runaway,
You make me runaway,
You make me runaway, angel,
You make me runaway

I see your name on the walls, again,
I painted you on my toes,
Celebrate the resuscitate,
We drink to ourselves,
You collect lovers like gemstones,
You talk of them as your friends,
Dangle me from your wrist chain,
Another one lost to the winds of change

You make me runaway,
You make me runaway,
You make me runaway, baby,
You make me runaway

Still I try to be good to you
You'll always be my friend
I need some time to define my mind
I wanna be someone new

Why don't we runaway?
Why don't we runaway?
Why don't we runaway, angel?
Why don't we runaway,
I wanna runaway

  • The Kooks -

Sabe, tô afim de fugir... quero fugir e deixar tudo pra trás! Deixar a rotina, o tédio, o trabalho pouco gratificante, as horas em frente ao PC... só não saio logo da internet, só não fico logo off-line, pra não perder você! Não fosse isso, já tinha fugido fazia era tempo!
Quero fugir da minha vida. Da minha vida aqui... um tanto solitária demais, um tanto “forever alone”... lenta, preguiçosa, sem ânimo, às vezes. Quero fugir de mim! Preciso fugir de mim, me decepciono demais, comigo mesmo. Queria ser mais seguro, queria te dizer mais que duas palavras, com a voz sumida, esses tempos você me disse, mal conseguiu me escutar, aquele dia. Quero fugir do presente, voltar atrás, ser menos eu. Ser mais natural, meio sobrenatural, para o meu “eu” normal... quero não fugir pela tangente, não me fingir de leso, não fugir, quando você notar-me dando com a língua nos dentes, sobre certas coisas que me vão na cabeça, e no coração, quando me flagrar mais saidinho. Quero fugir à regra, but it's my life!
Quero te levar pela mão, anja, quero fugir com você... bora?! Por que não podemos fugir?! Só nós dois, sumir por uns tempos, desaparecer dos radares de nossos amigos, quem sabe, só deixando a par os nossos parentes mais próximos! Quem sabe... quero não fugir dessa loucura que tenho por você, se amanhã for pra deixar a “matrix”, quero fugir pra uma dimensão, um canto escondido qualquer de um HD do Criador, onde encontre você. Quero... bem, quero fugir desses sonhos alucinados! Xô!! Desculpe! Bora deixar isso pra lá... bora deixar isso tudo pra lá! Bora fugir, gata, bora?! Você e eu, por que não fugimos nós dois? Bó fugir, mais eu, depois a gente vê... tô precisando, muito, fugir, eu!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cozinhar Com Tesão


Pense na melhor pizza que você já comeu! Pense na melhor que já provou, na Splash, Congresso, Rodapizza Kronhardt, Girassol... pense na melhor do ano, pense na melhor pizza que já comeu na sua vida! Pense!! Pensou?! Então... devo dizer-lhe que, seja qual for o sabor, o restaurante, etc... não chega aos PÉS da que eu faço! Sim, eu me gabo, siu, eu faço a melhor cobertura de pizza do mundo, tô nem aí se tô exagerando, se o faço é porque eu posso! Pense no melhor feijão com jabá que já comeu, até hoje... no melhor arroz de carreteiro... no melhor kikão! Nenhum deles vai ser tão bom quanto o que eu faço, não adianta nem tentar!
E não fiz nenhum curso, não estudei para ser um grande chef, nem nada disso, mas porque não preciso! Aprendi a cozinhar sozinho, autodidata, e quando estou com vontade, queridão(dona)... ninguém me supera!
Gosto mais de cozinhar que de comer, eu sei o gosto da comida que faço, mesmo quando resolvo fazer experiências, pra mim, a graça está no fazer o prato, no preparo, em si, nem tanto em comer. Claro, se alguém resolve aceitar experimentar o que faço, isso me anima ainda mais! Gosto de cobaias... mais que gostar de cozinhar pra mim mesmo, tipo, pra não depender de ninguém, pra mostrar que sei me virar na cozinha – isso era legal nos meus 14, 15 anos, já faz uma cara – é cozinhar pelo simples prazer de fazê-lo, e mais que isso é o prazer de cozinhar pra alguém, de fazer um prato gostoso pra oferecer a alguém, um amigo, uma pessoa querida, etc. Inesquecível foi o dia em que fiz um feijãozinho preto, bem cozidinho, sem carne, nem jabá, só temperado com uma cebolinha e um alho refogados e um, ou dois tabletinhos daqueles, de caldo de bacon, pra uma namorada que tive... homem que não tem suas qualidades de cozinheiro testadas e aprovadas por uma mulher, não sabe o que é alegria, na vida!
Cozinhar só não é tão instigante quando é um miojo, ou pra fritar um ovo! Aí, não precisa amar o que você vai fazer, só o que precisa é ter fome. Cozinhar é uma arte, precisa ter paixão por aquilo, tem que ter alguma curiosidade, experimentar temperos novos, enfim... o seu prato preferido não vai sair gostoso só porque é o prato que você mais gosta de comer, tem que gostar de fazê-lo, também, tem que ter tesão pela coisa, senão não rola! Outra noite dessas, acho que a de terça-feira, fiz uma das melhores pizzas que eu mesmo já fiz, nesses alguns anos que me meto a cozinhar! Não sou um artista profissional da coisa, sou um entusiasta. Tava numa noite inspirada, assim como às vezes – BEM às vezes – estou num período inspirado pra escrever, o que não tem ocorrido muito, este ano, infelizmente... queria encher de poemas e textos românticos bem escritos uma pessoa aí... mas enfim, não é do que estamos falando, tamo falando é do tesão pra cozinhar! Tesão é aquela paixão exacerbada, exagerada, aquela fissura por alguma coisa, que não precisa ser, necessariamente, somente sexo! Estar com tesão na cozinha não é só quando você transa lá, é quando você tá na fissura de cozinhar! Aí, seja o que for que você vai fazer, um prato sofisticado, ou um simples arroz com feijão, ou aquela macarronada com molho Pomarola, vai sair espetacular! Tem que ter tesão, já falei, tem que ter tesão, senão a coisa não rola!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Aquiles & Sansão em: Será Que Bicho Sonha?/Aquilo Que Não Pode Ser...


O dia amanheceu muito molhado, a chuva estava arrefecendo, mas vinha caindo desde o fim da noite anterior e ainda estava longe de parar completamente. Há dias que a cidade andava molhada, o clima da cidade andava mais que úmido, andava encharcado.
Tem gente que gosta de chuva. Diz que o som da chuva acalma, que é bom para dormir, etc. Os gatos, ao contrário do que você pensa, amam os dias chuvosos! Pelo mesmo motivo que você talvez goste, pois, se já notou, os gatos adoram dormir.
Só que o volume de chuvas estava demais! Nem os gatos estavam aguentando mais! Pelo menos, o nosso bichano, daqui da nossa história, já não suportava mais as precipitações diárias, não estava mais gostando de ver a Recife sendo lavada dia após dia. Já no terceiro dia de chuvas torrenciais a coisa tinha perdido toda a graça. Aquiles é o nome do gato.
E Aquiles estava entediado, ali, empoleirado no braço do sofá da sala, de corino branco, assistindo a chuva continuar a cair, fina, demorada e renitente, sobre a avenida, sobre os carros e ônibus que passavam lentamente pela via, na direção do 28 de Agosto. Cochilava, de vez em quando, escutava o que os donos conversavam, na cozinha, voltava a cochilar. Não havia o que fazer, a sacada estava inundada pela água, era justamente onde queria estar, para poder observar melhor a avenida e os passantes, brincar um pouco.
Aquiles acordou com o som da respiração pesada do cão golden retriever em cima dele. Normalmente, ele teria se incomodado com aquele bafo de osso de cuati na sua cara, mas hoje não, hoje, pelo menos, ele estava afim de conversar, para passar o tempo. “Fala, Sansão, que cê quer, mano?”, perguntou em tom aborrecido.
Aquiles... bicho sonha?”
Definitivamente, era a chuva. O pobre do Sansão também estava entediado, àquela altura do campeonato. Só podia ser isso. Sansão, hoje, estava filosófico, perguntando sobre um assunto que Aquiles mal tinha noção, só tinha ouvido falar, uma ou duas vezes em toda sua vida, mas nunca associado ao mundo animal.
Não sei!”, respondeu, por fim. “Eu nunca sonhei, então presumo que não, bicho não sonha! Pelo menos, gatos não sonham... quanto aos cães, já não posso te responder... você sonhou hoje, Sansão, é isso?”
O cão ficou perturbado. “Não que eu me lembre...”, murmurou ele meio confuso. “Acho que nunca, também, mas... ah, sei lá! O Walter que falou isso daí!” Ante o olhar um tanto estupefato do gato, Sansão ajuntou: “mas isso foi depois...”
Depois, como assim, depois de quê?”, perguntou Aquiles. A mania de Sansão, de fazer rodeios, francamente lhe incomodava.
Depois do que Andressa falou, hoje, lá na cozinha... ela começou falando que tinha tido um sonho estranho...”
Estranho... normal, todo humano é estranho! Mas estranho quanto?”
Foi exatamente o que Walter perguntou pra ela”, disse Sansão, sorrindo. “Perguntou também se tinha sido só estranho, ou, além de estranho, ruim...”
Esses humanos é que são muito estranhos, Sansão!”, disse o gato, com um sorriso sarcástico.
Você acha que não existe sonho esquisito que, de certa forma, possa ser bom?”
Cara, eu nem sei se existe mesmo esse negócio de sonho, já te falei! Só acho que, se é estranho, provavelmente deve ser ruim, também!”
Não sei se é tão simples assim...”, disse o cão, meio em dúvida, ao que o gato protestou: “pronto, lá vem você... mas, pensando bem... os humanos já são bastante estranhos, com suas convenções, relacionamentos e essa coisa dos sonhos, agora, mesmo assim, não são tão ruins assim...”
Não é?!”, replicou Sansão, rindo-se. “Pois é... engraçada essa ideia de você fechar os olhos e, em vez de dormir, o cérebro continuar trabalhando, você ver e sentir as coisas como se estivesse acordado... e só perceber que, na verdade, estava dormindo, quando REALMENTE acorda!”
Aquiles percebeu que Sansão o olhava como se ele também fosse tão estranho quanto os donos, se não mais.
Mano, um dia quero experimentar da tua ração...”
Bom, mas enfim... parece que a mente humana não desliga nem na hora de dormir, é isso o que quero dizer! Eles têm uma mente tão complexa, tão ambígua...”
Que talvez nem saibam o que é real, ou ilusório.”, completou o cão.
Isso! Como naquele filme que passou de novo, na outra noite... aquele dos computadores... Matrix!”
Puxa, Aquiles... já pensou, que louco?”
O quê?”
E se isto é só uma ilusão? E se nem estamos tendo uma conversa? E se, na verdade, isto é só um sonho?”
Ah! Lá vem você...!”, resmungou Aquiles, mal-humorado. “Quer dizer que eu não existo, é isso?”
Bom...”, começou o cão, sentindo-se estranho ao dizer aquelas palavras: “talvez você exista, mas esteja dormindo e sonhando que está conversando comigo...”
Humpf! Que leseira!”, disse Aquiles, aborrecendo-se, fechou os olhos e balançou a cabeça de um lado para o outro. Já estava sentindo sono com aquela conversa! “Você, como sempre, querendo complicar...”
Aquiles estava empoleirado, como os gatos fazem. No braço do sofá de corino branco, na sala de um apartamento, sim. Mas diferente daquele onde julgara estar, há pouco. Era o mesmo JK de sempre, onde não haviam nem mulher, nem cachorro alguns, onde só viviam e sempre viveram Walter e ele, no bairro Floresta, em Porto Alegre, há pouco mais de 500 metros do shopping. Não havia nenhum barulho de chuva, lá fora, e às 7 horas da manhã de um dia qualquer, o sol já estava penetrando pela janela, prenunciando mais um escaldante dia de verão.
Aquiles sentiu-se perturbado. Tudo aquilo, tudo o que ele julgava ter visto, o apartamento onde acreditou estar morando há anos, o golden retrivier com quem conversou, que parecia conhecer há meses, ou anos, nada daquilo existiu, nada daquilo aconteceu. Ele não compreendia como, de onde haviam surgido aqueles nomes? “Sansão... Andressa... Avenida Recife... Hospital 28 de Agosto...”, recitou ele, procurando reter na memória felina tais nomes. Será que havia ouvido alguma vez antes, na vida? Não, nunca viu, nem ouviu falar de nenhuma Andressa, Walter nunca namorou nenhuma mulher com esse nome...
Então, aquilo tudo tinha sido um sonho, não tinha passado de um sonho!? O gato não se lembrava de jamais ter sonhado, antes, aí seu primeiro sonho é justamente conversando com um cachorro sobre... sonhos! Como é que os humanos conseguiam lidar com aquilo? Aquiles desejou saber a língua dos homens, para poder perguntar isso ao seu amigo Walter. Pensava nisso, quando entrou o rapaz, olhos vermelhos, cabelo desgrenhado, óculos na ponta do nariz, olhar melancólico e distante. Ao olhar para o gato, deu um meio sorriso, estendeu a mão e afagou o seu pelo. Era visível, para o felino, que a noite não havia sido boa. “Tive um sonho tão estranho, essa noite, Aquiles...”, começou ele a dizer. O gato mexeu as orelhas, subitamente interessado, mas Walter não continuou. Virou-se, meio automático, pegou seu smartphone, do lado da tv, apertou um botão qualquer, a tela se acendeu e junto, um sorriso do rapaz. Provavelmente, uma mensagem da sua amiga baiana, pensou o bichano. Observou o dono com certa compaixão e desejou que o sonho fosse real.
E numa casa da rua 22 do Conjunto Castelo Branco, no Parque 10, Manaus, um cão golden retrivier acordava com o som de um trovão, levantava a cabeça, ainda meio atordoado, sentindo-se estranho. Estava na varanda da casa e alguns pingos grossos de chuva já molhavam o seu pelo sedoso. Levantou-se, sacudiu-se levemente, ainda confuso. Olhou para a chuva que caia forte, lá fora, observou por um tempo as velhas senhoras andando na chuva, com suas sombrinhas multicoloridas e seus passinhos curtos, via uma que outra criança correndo e se protegendo da precipitação como podiam, pegando o rumo da escola que ficava dentro do Centro Social Urbano do bairro. Voltou-se, viu que a porta lateral da casa, que dava para a cozinha, estava aberta. Não pensou duas vezes, dirigiu-se até lá e foi entrando no aposento, onde encontrou a dona, Andressa, olhar meio vazio, triste, cabelos castanhos escuros cacheados meio desgrenhados, parecendo querer desatar em lágrimas, como o tempo quando está para chover. Viu o cão entrar, deu um meio sorriso, chamou-o com a mão e ele demorou um pouco, antes de se aproximar, o suficiente para que ela pudesse encostar sua mão longa e fina em seu pelo um pouco úmido. Sansão olhou para Andressa, que não dizia palavra, ficava apenas fitando a tela do laptop sobre a mesa da cozinha com um ar distante e soturno. O cão sentiu profunda compaixão pela dona, que esperava, desesperada, algum sinal de vida da caixa cor-de-rosa. Ele sabia que era alguma mensagem daquele seu amigo nordestino que Andressa esperava. Aquele que desaparecia de vez em quando, deixando-a exasperada, por ser tão ocupado. Pousou a cabeça nos seus joelhos e ela ficou ali, observando a caixa, com uma mão, afagando seu pelo, com a outra, segurando a xícara de café com leite. O pão tostado com queijo coalho jazia num pratinho ao lado do laptop, só com uma mordida. O cão já estava relaxado, fechando os olhos, quando ela aprumou-se na cadeira, puxando-a para mais perto da mesa e fazendo-o, abruptamente, remexer-se e sentar-se ao seu lado. Ela, agora, estava com um sorriso leve e um brilho nos olhos, que fitavam, vidrados, a tela. Ela dirigiu sua atenção ao cão por uns segundos, o sorriso de orelha a orelha. Pegou o pratinho com o pão e o colocou na sua frente, cuidadosamente. Voltou novamente os olhos para a tela e começou a digitar quase que furiosamente o teclado do computador.
Sansão, meio desapontado, virou a cabeça de lado e pensou que era uma pena ter sido tudo um sonho, era uma pena ela não ver aquilo que nunca foi. Baixou os olhos e lentamente levou a boca para o pão tostado, que parecia apetitoso.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Trago A Pessoa Amada em 3 Dias


Ele acordou meio grogue, ainda. A cabeça doía, mas não latejava. Não havia sofrido nenhuma pancada, ao que tudo indicava. Mesmo que não estivesse zonzo, não enxergava um palmo à frente do nariz. Não fazia a menor ideia de onde estava, nem de como fora parar ali. Aos poucos, foi recobrando os sentidos, percebeu que estava deitado numa cama de ferro, daquelas antigas, que rangia estridentemente sob o seu peso, conforme se remexia. O colchão, também velho, rescindia a cheiro de suor... desconfiou que não exatamente do seu, apesar do calor e do abafamento que sentia.
Ainda em meio à escuridão, remexendo-se e sentindo como se o corpo estivesse derretendo e se grudando na cama, que parecia querer desabar a qualquer hora, Felipe – esse era seu nome – começou a clarear a memória e lembrar que à noite ele havia saído para o carnaboi. Fora para o sambódromo, este ano ele iria aproveitar, se esbaldar, mesmo! Lá, seguindo o trio elétrico, ele bebeu, se divertiu, beijou algumas cunhãs... ficou um tempo ali, parado, só observando os foliões brincando de boi, alguns turistas tentando. Felipe ria que só dos gringos! Enquanto ria, virou para o lado e percebeu que era observado por uma moça alta, cabelos loiros, lisos de chapinha, tururi do David, rindo para ele.
Felipe foi lá conferir, conversaram, riram-se dos gringos, trocaram alguns beijos e carícias... ela reclamou do calor, disse que tinha sede, ele, todo animado, ofereceu-se para pagar-lhe uma bebida. Correu, então, até o vendedor mais próximo, nas arquibancadas do lado da arena, pediu uma cerveja, um guaraná, nem prestou muita atenção nele – Felipe agora pensava a respeito. Voltou pra perto da garota loira, entregou-lhe o refrigerante, abriu a latinha, deu um gole na cerveja... foi aí, então, que começou a ver o mundo girar ao seu redor, pouco antes de cair no vácuo e só acordar ali, naquele lugar, desnorteado, com um leve enjôo. Lembrou-se vagamente de ver a loira sorrindo algo satisfeita, a latinha de Baré na mão, quando percebeu que ele estava passando mal... teria sido ela, quem fez aquilo com ele...? Mas... como?! Felipe começou a xingar até a undécima geração da jovem loira.
Ouviu, enfim, o som de chaves girando em uma fechadura, atrás de si, um rangido de protesto da porta, raspando pesadamente contra o piso, enfim a luminosidade penetrou no quarto sujo e escuro, sem janelas. Piscando os olhos, ele tentava ver a silhueta, que percebeu, não lembrava em nada a loira da outra noite – noite anterior? Noites atrás?! Não tinha como saber. Uma voz rouca, grossa como a de um bugio, autoritária, chamou-o: “Felipe Yohanssen! Te levanta, vambora!”
Vambora pra onde?!”, começou a perguntar ele, com a voz arrastada e a língua enrolada, como se estivesse bêbado. Felipe tinha outras perguntas, mas a voz não acompanhava o pensamento, ainda estava grogue e com náuseas. Tentou levantar-se, mais para tentar reagir, que pra fazer o que mandava o estranho. Para sua frustração, o sujeito, alto, forte, cabelos longos, ligeiramente familiar, teve que ajudá-lo a levantar. O homem o carregou pelo que lhe pareceu um galpão com paredes de tijolos aparentes e telhados de zinco, talvez pertencente a um depósito de alguma fábrica, ou loja. Chegaram a um pátio, o sol já queimava forte sobre suas cabeças e um fiat antigo esperava, estacionado.
O estranho parou Felipe com mão firme, amarrou seus pés com uma corda de nylon e algemou seus pulsos, antes de jogá-lo no banco de trás do carro. Partiram. Felipe ainda não sabia de onde, nem pra onde. Tentou verbalizar seus questionamentos, novamente. “Calma aí atrás, man. A tua hora tá chegando.”
COMO ASSIM, minha hora...?”, tentou protestar Felipe, transtornado, tentando se ajeitar no banco de trás do carro, sacolejando mais que um saco de tucumãs. O estranho, no entanto, não deu nenhuma satisfação. Sua hora tava chegando e pronto! O que isso quereria dizer? Felipe sentiu-se desestimulado a questionar seu raptor. Ficou imaginando, então, o que poderia significar aquilo tudo. Uma das suas conjeturas começou a ganhar mais força, ele começou, então, a se desesperar. Perguntou, com a voz embargada, como se estivesse prestes a chorar: “Você vai me matar?!” E nada. Nenhuma resposta. “Por que tu tá fazendo isso, man?!” O mesmo silêncio, só quebrado pelo ronco do motor. “Cara, pelo amor de Deus, é sério, nem te conheço, que foi que te fiz?! Me fala!!”
A falta de resposta o estava deixando cada vez mais desesperado, sentia que a qualquer momento iria surtar. “Alguém te pagou pra me pegar, foi?”
Sim.” Enfim, uma resposta! Curta e grossa, pouco satisfatória, mas uma resposta. Felipe, agora, ficou parado, pensando por uns minutos, quem poderia ter pago alguém pra sequestrá-lo e, talvez, matá-lo. A cabeça girava, mas não era mais o efeito da droga – fosse qual fosse – era essa dúvida, que era capaz de matá-lo antes de chegar lá, onde quer que fosse. O estranho só teria o trabalho de desová-lo. Tomado pela curiosidade de saber a qualquer custo quem lhe odiaria tanto, ao ponto de querê-lo morto, perguntou, apenas: “Quem...?”
Tua mulher.”, foi a resposta do cabeludo. Novamente, curta e grossa. Felipe não entendeu direito, pelo menos, julgou não ter entendido. “Como assim? Eu não sou casado... e nem separado!”, apressou-se em dizer.
E quem falou que tu era, man?”, disse o estranho, agora dando uma gargalhada assustadora. Felipe lembrou-se, então, da ex-noiva, com quem terminara uma relação de quase cinco anos, uma semana antes do Dia dos Namorados. “Mas...”, titubeou, tentando argumentar: “a gente terminou faz tanto tempo...”
Ela disse que você que terminou...”, respondeu o raptor, interrompendo a ladainha antes de começar.
Sim, mas... por que só agora...? O que ela quer, afinal?!”
Tua cabeça numa bandeja.”, foi a resposta do estranho, num tom de satisfação cruel.
AHN?! Como assim, então ela me quer mesmo morto?!”
Eu só sou pago pelo serviço, não faço perguntas!”, disse o estranho, encerrando a discussão. Felipe continuou falando, se lamuriando, chorando, sem se importar mais com o silêncio sepulcral do condutor do fiat.
Enfim, calou-se. Não por ter se cansado de lamentar, mas porque o carro parou. Onde, ele ainda não sabia. Os minutos passaram lentamente, até que a porta do carona abriu-se. O estranho empunhava uma pistola 9mm numa mão, na outra, trazia um estilete, com o qual cortou agilmente a corda de nylon, que prendia bem apertados seus pés. “Bura! Te levanta!”, disse novamente, no tom de ronco de bugio. Felipe agora pôde observar bem o sujeito, surpreendeu-se, vendo que era o mesmo que, na outra noite, tinha lhe vendido as bebidas, no sambódromo. “Bora, que não tô afim de estragar o estofado do carro!”, esbravejou ele. Felipe, com as pernas livres, ainda meio dormentes, correu pra fora do carro, deparando-se com a estrada para Boa Vista à sua frente, nada mais. A cidade estava muito pra trás, correr para o mato não lhe pareceu uma idéia muito boa. O sujeito lhe apontava a arma e fez um gesto para que ele andasse, na direção da estrada. Felipe não tinha outra escolha e obedeceu.
Ô, cara, não faz isso, Hallexya não vai querer me ver morto...”, começou, novamente, a ladainha, tentando em vão sensibilizar o assassino.
Mas ela não vai te ver morto”, retrucou o estranho, com toda calma do mundo. “Ela só vai ver tua cabeça...”
Felipe voltou-se para o sujeito, com uma expressão de quem tinha levado uma punhalada nas costas, algumas lágrimas começavam a correr por seu rosto. “E numa bandeja!”, completou o sujeito, com um sorriso, quase parecendo amável.
Mas... mas cê tem certeza de que é isso que ela quer?!”, indagou ele, choroso.
Pra te falar a verdade... ela só me pediu pra fazer um serviço em ti! E levar o que sobrar pra ela ver... não especificou qual parte!”
Mas... mas... quando tu fala 'o serviço'...?”
É o que eu tô fazendo!”, disse o estranho, com uma naturalidade tão grande que encerrou a conversa. Felipe ficara chocado demais para retrucar. Andaram debaixo do sol inclemente por uns bons dez minutos, até chegarem próximo a um ramal, onde havia um carro, que Felipe reconheceu imediatamente. Seu coração batia muito rápido, agora: o velho Polo rosa! Ele não sabia se ria, ou se chorava. Será que o estranho tinha razão? Será que a ex viera vê-lo morrer, assim, de forma tão humilhante?!
A porta do motorista se abriu, ele viu Hallexya sair, os olhos marejados, o andar meio incerto dirigindo-se até ele. Felipe deu uma olhada de revesgueio para trás e correu, em carreira desabalada, na direção da ex, gritando seu nome. Céus, como o seu nome soava lindo, agora, depois de tanto tempo! Estacou a pouco mais de um metro diante dela. Caiu de joelhos a seus pés, desatou a chorar feito criança. “Hallexya...” disse, com a voz entrecortada, de repente rouca, “me perdoa, me perdoa, me perdoa, meu amor, me perdoa!” Levantou os olhos, embaçados pelas lágrimas, para fitá-la. Continuou: “Hallexya, eu faço o que você quiser, eu volto com você, se ainda me quiser... mas por favor, não deixa ele me matar, não deixa... fica comigo, por favor!”
Hallexya ficou boquiaberta com as palavras desesperadas dele, por uma fração de segundos, antes de aproximar-se e deixá-lo abraçá-la pelas pernas, segurar-lhe as mãos, fazer cafuné em seus cabelos, fazendo um som com os lábios que a gente costuma fazer pra acalmar neném choroso.
Tá tudo bem, agora, meu amor”, diz ela, num sussurro, “tá tudo bem, eu tô aqui, não tô? Eu te perdôo, Felipe...”
O rapaz sorriu e suspirou, aliviado, fechando os olhos e aconchegando o rosto contra o ventre dela. Nem percebeu o estranho observando a cena, a poucos passos do casal. Com lágrimas nos olhos, também, Hallexya sorriu para o estranho, apenas movimentando os lábios: “Obrigada, pai Francisco...”, ao que ele respondeu com apenas uma piscadela cúmplice e um sorriso amigável.

Francisco voltou lentamente para a entrada do ramal, a fim de pegar o seu Palio ano 1998 e voltar pra casa. Olhou pra trás mais uma vez, discretamente. Quase se emocionava quando via essas cenas, a moça e o rapaz abraçados, ela lentamente ajudando o namorado, visivelmente fragilizado, a levantar-se, para irem juntos embora. QUASE... que Francisco achava, mesmo, era graça, nisso tudo. E também, uma certa satisfação. Continuou a caminhada, falando pra si mesmo: “Missão dada é missão cumprida. Quando falo que trago a pessoa amada em três dias, é porque trago!”