PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nós e Os Brazileiros

Manaus completou 343 anos. Cem anos, ou quase, mais velha que Porto Alegre, por exemplo. Desde a fundação da cidade surgida a partir do Forte de São José da Barra do Rio Negro até os dias de hoje, ainda tem gente que se surpreenda ao saber que, em meio à floresta amazônica exista uma imensa cidade com quase 2 milhões de habitantes – e vejam só, nem todos são índios! OH!! Que incrível!! Só que não.
Já traçamos aqui vários paralelos entre as regiões Norte e Sul, e como estas são vistas pelos “brazileiros”, vindos de onde se considera ser o “Centro” político e econômico do Brasil, como regiões “estranhas” e “exóticas”, como os sulistas, nortistas, brasileiros mais ocidentais e de boa parte do Nordeste somos considerados mais estrangeiros do que os próprios estrangeiros, dentro do nosso próprio país.
Fora do Rio Grande também há quem se surpreenda ao descobrir que por aqui também existem indígenas e afrodescendentes. Sim, já vi os “brazileiros” de Rio e São Paulo pasmos, completamente abobados, dizerem: “mas pensei que em Porto Alegre só iria encontrar gente loira de olhos azuis!” Não, o espanto não é compreensível. Se a pessoa tivesse estudado um pouquinho de Geografia, na 5ª, ou 6ª série, saberia que Porto Alegre foi fundada por casais provenientes do arquipélago de Açores, portugueses, portanto, como pelo menos metade das capitais estaduais brasileiras. Os alemães que vieram colonizar o estado são mais encontrados no interior, por aqui, próximo da capital, a colonização foi outra. E daí, né? Grande coisa. Gaúchos, assim como amazônidas, têm de ser figuras pitorescas e exóticas e ponto final. Os “brazileiros” decidiram-se que devemos nós ser os alienígenas e pronto. Mas, quer ver índio, vá para uma reserva. Quer ver germânicos falando engraçado, suba a Serra, vá pra alguma cidadezinha de lá.
A admiração e a surpresa por parte de um americano, ou japonês, ou alemão, ou coreano, holandês, ao desembarcarem no aeroporto Eduardo Gomes, ou no Salgado Filho, ou no de Florianópolis, ou Belém do Pará, creio até serem compreensíveis. Agora, o que impressiona é ver paulistas e cariocas surpreenderem-se mais do que os outros, como se ninguém lhes tivesse avisado que as cidades do Norte, ou do Sul, também fazem parte do Brasil, alguns até aparentando alguma decepção, ao aqui chegarem e perceberem que ainda estão no país, que fala a mesma língua, salvo algumas pequenas discrepâncias dialéticas. E é má impressão que nos causa, o que se fala dos “Brasis exóticos” lá no “país” deles. Dão a impressão de não fazer a menor questão de conhecer o lado de cá do país, de que esperam vir a Porto Alegre e encontrar só peões de estância andando de bombachas e montados a cavalo. “Gaúcho sabe o que é rádio, jornal, internet?” O quê, você pensou que eles só falavam isso de vocês amazônidas? Ou nordestinos do semi-árido? Ou pantaneiros e sertanejos do cerrado, no Centro-Oeste? Não, sinto, não é prerrogativa só de vocês. Mas é prerrogativa deles passar atestados de ignorância do tipo!
Dos 343 anos de Manaus, conheço há uns 9. Antes, era uma cidade distante e desconhecida, um ponto no mapa do Brasil, daquele Atlas Escolar que a gente usava nas aulas de Geografia, nos ensinos Fundamental e Médio. E a cidade de onde provinham todos os eletro-eletrônicos da nossa casa. Foi num rádio-gravador CCE de papai que vi, pela primeira vez, aquela etiquetinha que diz “produzido na Zona Franca de Manaus”. E temos até hoje um liquidificador marca Arno, dado por ele a minha mãe, também com a mesma etiqueta colada embaixo do aparelho. Que tem quase a minha idade e continua funcionando muito bem, aliás, nunca quebrou, que eu me lembre! Os aparelhos eletrônicos, a única coisa de Manaus com a qual tive contato, até 2003. Nunca pensei muito a respeito de como era, mas não me lembro jamais de ter pensado que fosse uma cidade-floresta, habitada por índios, caboclos ribeirinhos andando em canoas, pescando, tirando látex de seringueira e morando em palafitas. Não esperava encontrar jacaré andando nas ruas, nem onças nos quintais das casas. Nas poucas vezes em que me pus a imaginar como seria, pensei que, já que a Zona Franca era onde se fabricavam praticamente todos os aparelhos eletrônicos vendidos no país, que provavelmente fosse uma cidade grande e moderna. O que encontrei não foi muito diferente do que eu esperava. Justamente porque não esperava nada de muito espetacular, muito exótico, ou pitoresco! Não esperava nada do que não pudesse encontrar no meu país. Não esperava, nem mesmo imaginava, que fosse me sentir tão em casa que hoje considere Manaus a minha cidade, o meu lugar, só um pouquinho mais ao norte de onde nasci. Ou alguém aí imaginava que eu fosse entender como é sofrer bullying dos amigos “brazileiros”?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Cão Sem Dono

Um cão sem dono... a gente encontra alguns, ali no terminal dos ônibus. Zanzando perdidos, sem destino, sem porquê, só andando pra lá e pra cá, de vez em quando se enroscando por entre os pés das pessoas, que esperam, aborrecidas, o seu coletivo passar para, enfim, irem pra casa.
O cãozinho não tem casa, não tem lar, não tem família, não tem nada... é só aquela parada, aquele ponto de ônibus, aquela cobertura velha e arrebentada de telhas de zinco esvoaçantes, nada mais. São só as multidões indiferentes, que chegam e que partem. Só algumas pessoas que estão por ali todos os dias, descem de um coletivo e se põe a esperar o próximo, sem mal olhar umas para as outras, ou para os cães sem dono da rua, ou para as barraquinhas que vendem churrasquinho de filé miau, salgadinhos, jujubas, água mineral e o jornal barato com a gata da capa do dia.
Às vezes, o cãozinho tem motivos para abanar a cauda, às vezes ganha os afagos do tio do churrasquinho, ou dos motoras das conduções que dali partem e iniciam suas rotas. De vez em quando ele recebe as atenções de uma moça, que pega ali, todas as noites, a sua condução para casa, após mais um cansativo e atribulado dia de trabalho. De vez em quando ela lhe curte, brinca um pouco com ele, ri para ele, lhe atira um pedacinho do seu churrasquinho com farofa. Todas as noites ela está ali. Pelo menos, quase todas as noites. E o cãozinho se habitua a vê-la, a tê-la por perto. Bichinhos também se apegam com a gente... é só ela apontar na passarela que ele senta-se no cordão da calçada para esperá-la e ficar ali, aos seus pés. Esperando alguma coisa, qualquer coisa, ou esperando nada. Esperando junto o micro-ônibus, no qual ele não entrará junto, está ali apenas lhe fazendo companhia, enquanto o coletivo não vem.
O cãozinho sem dono já está habituado, já se acostumou, quando o sol se põe, ele já sabe, mais cedo ou mais tarde ela estará por ali. Torna-se instintivo, em vez de zanzar por entre os pés dos usuários de ônibus, revirar o lixo, atrás de alguma coisa que comer, ou se abrigar embaixo de algum quiosque, pra dormir, ele senta-se na calçada e espera. E a noite passa, o último ônibus passa, os passageiros desaparecem e ela simplesmente não apareceu. O bichinho, frustrado, não entende, vai pra um canto do paradão, deita-se encolhido, enroscado com outros cãezinhos, naquela noite. Nos outros dias, ele repete o ritual, já está no seu instinto, ir para o início de onde costumam formar-se as filas para entrar nos ônibus, sentar-se no cordão da calçada e esperar por ela... que teima em não aparecer mais. A espera começa a diminuir, os bichinhos também têm paciência, e esta também se acaba, dali há um mês, mais ou menos, ao se pôr o sol, ele dá uma olhadinha furtiva para a fila de passageiros indiferentes, antes de continuar a zanzar, correr atrás de catadores de latinhas, ou carros, ou motocicletas, revirar as latas de lixo, atrás de comida.
Eu saio do trabalho. Eu pego o metrô de superfície (nome estúpido, prefiro “trem”). Chego na minha estação, desço do trem, ando pela plataforma, subo a escada rolante, pego a passarela, desço até o terminal, me ponho parado de pé, fico esperando pelo meu ônibus, me irrito com a demora, às vezes dou sorte e ele vem quase ao mesmo tempo em que chego. Mas, quando tenho de esperar além do que gostaria, eu observo a vida do ponto de ônibus, as pessoas que trabalham por ali, os motoras, os catadores de latinhas, os cães sem dono... um dia, observando-os, me sinto um pouco como aqueles cãezinhos.
Me habituei a vê-la nas redes sociais, pela manhã, quando ligo o computador, para começar a trabalhar e perco alguns minutos do dia, ou no horário de almoço, quando estou só fazendo a digestão, quase cochilando em cima da mesa de trabalho, lendo algumas notícias “fascinantes”. Me acostumei a, todas as manhãs, escolher uma canção para dedicar-lhe, para postar em seu mural, uma canção que lhe agrade, que seja do seu ótimo gosto. Quando se ausenta, o dia parece que não vai render a mesma coisa, sinto como se o dia não tivesse a mesma graça. Me acostumei demais a sua presença, é isso. Parece até que os sites de notícias publicaram todas as matérias mais interessantes enquanto ela estava presente, pra depois se entregarem a um marasmo sem nenhuma novidade instigante. Parece que nem as bandas que só eu gosto lançam nada de novo na sua ausência, nenhuma música nova, nenhuma nova promessa da música pop surge por esses dias. As melhores piadas e os assuntos mais comentados de forma um pouco mais mordaz também somem, quando ela não está, os adolescentes fãs de Restart e as passivas fãs de Lady Gaga dominam as redes sociais, com sua total ausência de humor – que dirá de bom humor. A vidinha cotidiana parece ser mais suportável, quando ela está por perto, e nada parece ter a mesma graça, enquanto ela não está.
Olho para o cachorrinho, com o olhar tristonho e implorante, olhando para uma menina de olhar distante e indiferente, com um espetinho de carne numa mão, o celular na outra, os fones nos ouvidos, isolada no seu mundinho particular. O bichinho, timidamente, lhe acena com uma balançada de cauda e ela nem “tchum”. Somente parece despertar quando vem o C-10, apressa-se em jogar o espetinho em qualquer canto e corre para entrar no coletivo, quase jogando no meio da rua uma senhorinha que vinha lhe perguntar se já havia passado a C-7 Sial. Enquanto isso, observo o cãozinho, que também parece me observar. Ele parece entender o que estou pensando e eu, olhando nos seus olhos, me sinto um pouco como ele, sou também meio que um cão sem dono.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Desinspiração

Semana difícil, aquela... desesperado, completamente desinspirado! Faltaram ideias, faltaram as palavras certas para escrever. Não faltou vontade, não faltou procurar assunto, não sei bem o que faltou.
Faltou, com certeza, inspiração. Faltou uma música nova, faltou a indicação de uma banda nova, algum poema para me inspirar. Faltou o sorriso dela, faltou sua presença de espírito, sua graça. Ficou difícil desenvolver o porquê dela ser a luz dos meus olhos, quando me faltou justamente a luz do seu olhar.
Andei angustiado, gastei folhas e folhas de caderno tentando escrever algo que preste, tentei passar para o papel as visões que tivera nos sonhos, tentei relembrar bons momentos, para ver se algum virava um bom texto. Nada! Dormi toda uma tarde e dormi mal à noite, andei de trem, fui até a capital da província, passeei pelo Mercado Público, comprei erva de chimarrão, fui ao shopping, olhei as vitrinas, pensei em comprar uma camisa do meu time, pensei em comprar um tênis novo, não comprei mais nada. Fui ao cinema, comi pipoca, bebi refrigerante, enquanto assistia a Alice dando tiro adoidado em zumbis... e nada adiantou. Nada me inspirou, nada do que vi, nada do que ouvi. Nem o pé na África, que fotografei, nem as dez fotos a mais para meu álbum da praça da Alfândega me inspiraram. Semana dura foi aquela... feriadão bem pouco criativo. Desinspirado! Espero sinceramente que as idéias não tenham todas vazado, nos últimos dias, que mesmo a saudade dela me traga algo novo, algo em que me inspirar!

Ele se acordou com a sensação
De que não mais conseguiria compor uma canção
Abriu a geladeira e revirou todos os potes
À procura de alguma solução
Ele secou
Ele secou ou não
Na terça-feira preocupado
Tirou a tarde de folga
E passou o dia espancando o violão
Laiá laiá
Parapapá
Dó-ré-mi-fá
Na na e nada
Ele secou
Melhor pensar que não
Desconfiou que fosse falta de amor
Ligou pra mãe, pros amigos, visitou o avô
Não deu em nada!
Brigou com a namorada
Não deu em nada!
Passou seis dias na praia
Não deu em nada!
Comprou camisa e tênis novo
Não deu em nada!
Reatou com a namorada
Ele acordou com a sensação
De que não mais conseguiria compor uma canção
De que nunca mais conseguiria compor uma canção
Ele Se Acordou” - Apanhador Só


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

As Canções da Minha Infância

Observando minha sobrinha cantar e dançar músicas que aprendeu na escolinha, percebi que hoje em dia parece haver muito mais canções feitas para a molecada do que nos meus tempos de infância. Se isso é positivo, ou negativo, não sei dizer, mas enfim. Haviam, sim, grupos musicais, cantoras/apresentadoras de programas infantis, etc. Fui bacuri no tempo em que começaram a espocar os programas matutinos infantis, apresentados por loiras de xuquinhas nos cabelos e shortinhos minúsculos, a começar pela Xuxa, que ainda não era a “rainha dos baixinhos”. De qualquer forma, Balão Mágico, Trem da Alegria, ou a própria Xuxa, não fizeram músicas que tenham marcado minha infância de um modo particular.
Com quatro, ou cinco anos já tinha visto pelo menos umas 20 vezes a “The Song Remains the Same”, um filme, que era o registro documentário de uma turnê do Led Zeppelin em Nova York, acho que em meados dos anos 70. Voltei a rever esse filme faz uns 5 anos, e foi como se retrocedesse uns 20 anos no tempo, na época da minha infância. “Black Dog”, “Celebration Days”, “Stairway to Heaven”, “Moby Dick”, dentre outras canções, foi o que marcou minha infância, minha memória musical daqueles tempos.
Não cheguei a sentir falta de músicas “pra minha idade”. Escutava e curtia o que meus irmãos mais velhos escutavam, tipo Beatles, Stones, Led Zeppelin, The Clash, Ramones, Yes, The Who, Sex Pistols, Frank Zappa... as nascentes bandas de rock brasileiras; Titãs, Paralamas, Legião, Engenheiros, Kid Abelha e por aí vai! Meus primeiros anos de escola foram marcados por canções como “Estado Violência”, dos Titãs, “Infinita Highway”, dos Engenheiros do Hawaii e “Proteção”, da Plebe Rude.
Ainda me remetem à infância essas músicas. Quando moleque, batucava nas panelas, paredes, etc, tentando imitar o solo de John “Bonzo” Bonham, no tal filme já referido acima. Às vezes, tentava cantar num embromation terrível e alcançar os agudos do vocalista do grupo Rush, Geddy Lee. “Tom Sawyer”, um dos maiores sucessos da banda, até hoje me remete aos fins de tarde de domingo, quando sentava no chão, em frente à tv, pra assistir McGyver, o “Profissão Perigo”, antes dos Trapalhões e do Fantástico – que naqueles tempos ainda fazia jus ao nome. Por um tempo eu toquei “guitarra” nas vassouras e rodos de casa, tentando imitar Jimi Hendrix. Algumas vezes até fingia tocar fogo no instrumento, como ele! Ah... bons tempos, aqueles!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Intriga da Oposição

Não é bem assim... não é como estão dizendo! Nem percebi que você tem andado sumida! Só notei que você não tem mais aparecido com a mesma frequência de antes, porém isso não quer dizer, de modo algum, que tenho sentido a sua falta. Isso de que só tolero propaganda eleitoral de candidatos com os quais antipatizo, ou não compactuo, nas redes sociais, quando é você quem as compartilha, é tudo intriga da oposição!
Esse aperto no peito não tem nada a ver com saudade, não quer dizer que estou feliz e emocionado por te ver, só por alguns minutos, que seja. Só porque toda vez que ouço uma música da sua banda favorita, curiosamente meus olhos umedecem-se e ardem, não significa que essa música me remeta a você. Não, não, não sou tão sentimental assim! Não é verdade que curto campanhas políticas só por sua causa, ou filmes que não me interessariam, ou apenas porque você foi marcada naquela foto da caminhada do seu candidato, postada no Face do seu amigo.
Isso é tudo intriga da oposição. Tudo isso intriga da oposição. Só te stalkeio porque é esse o meu esporte favorito, sim, é isso. Qualquer outro boato sobre eu ir dormir pensando em você; sobre ir a uma loja procurar saber se tem algo que você mencionou ter muita vontade de ter; sobre ficar todo bobo se você curte, ou comenta algum post meu no Face; sobre que não consigo mais ficar sem te ver, sem ter você todos os dias na minha timeline... sim, é tudo verdade! Mas é tudo intriga da oposição.

Homem não chora
Nem por dor
Nem por amor
E antes que eu me esqueça
Nunca me passou pela cabeça
Lhe pedir perdão
E só porque eu estou aqui
Ajoelhado no chão
Com o coração na mão
Não quer dizer
Que tudo mudou
Que o tempo parou
Que você ganhou
Meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora
Esse meu rosto vermelho e molhado
É só dos olhos pra fora
Todo mundo sabe
Que homem não chora
Homem não chora
Nem por ter
Nem por perder
Lágrimas são água
Caem do meu queixo
E secam sem tocar o chão
E só porque você me viu
Cair em contradição
Dormindo em sua mão
Não vai fazer
A chuva passar
O mundo ficar
No mesmo lugar
Meu rosto vermelho e molhado...
HOMEM NÃO CHORA”, Frejat