Manaus
completou 343 anos. Cem anos, ou quase, mais velha que Porto Alegre,
por exemplo. Desde a fundação da cidade surgida a
partir do Forte de São José da Barra do Rio Negro até
os dias de hoje, ainda tem gente que se surpreenda ao saber que, em
meio à floresta amazônica exista uma imensa cidade com
quase 2 milhões de habitantes – e vejam só, nem todos
são índios! OH!! Que incrível!! Só que
não.
Já
traçamos aqui vários paralelos entre as regiões
Norte e Sul, e como estas são vistas pelos “brazileiros”,
vindos de onde se considera ser o “Centro” político e
econômico do Brasil, como regiões “estranhas” e
“exóticas”, como os sulistas, nortistas, brasileiros mais
ocidentais e de boa parte do Nordeste somos considerados mais
estrangeiros do que os próprios estrangeiros, dentro do nosso
próprio país.
Fora
do Rio Grande também há quem se surpreenda ao descobrir
que por aqui também existem indígenas e
afrodescendentes. Sim, já vi os “brazileiros” de Rio e São
Paulo pasmos, completamente abobados, dizerem: “mas pensei que em
Porto Alegre só iria encontrar gente loira de olhos azuis!”
Não, o espanto não é compreensível. Se a
pessoa tivesse estudado um pouquinho de Geografia, na 5ª, ou 6ª
série, saberia que Porto Alegre foi fundada por casais
provenientes do arquipélago de Açores, portugueses,
portanto, como pelo menos metade das capitais estaduais brasileiras.
Os alemães que vieram colonizar o estado são mais
encontrados no interior, por aqui, próximo da capital, a
colonização foi outra. E daí, né? Grande
coisa. Gaúchos, assim como amazônidas, têm de ser
figuras pitorescas e exóticas e ponto final. Os “brazileiros”
decidiram-se que devemos nós ser os alienígenas e
pronto. Mas, quer ver índio, vá para uma reserva. Quer
ver germânicos falando engraçado, suba a Serra, vá
pra alguma cidadezinha de lá.
A
admiração e a surpresa por parte de um americano, ou
japonês, ou alemão, ou coreano, holandês, ao
desembarcarem no aeroporto Eduardo Gomes, ou no Salgado Filho, ou no
de Florianópolis, ou Belém do Pará, creio até
serem compreensíveis. Agora, o que impressiona é ver
paulistas e cariocas surpreenderem-se mais do que os outros, como se
ninguém lhes tivesse avisado que as cidades do Norte, ou do
Sul, também fazem parte do Brasil, alguns até
aparentando alguma decepção, ao aqui chegarem e
perceberem que ainda estão no país, que fala a mesma
língua, salvo algumas pequenas discrepâncias dialéticas.
E é má impressão que nos causa, o que se fala
dos “Brasis exóticos” lá no “país”
deles. Dão a impressão de não fazer a menor
questão de conhecer o lado de cá do país, de que
esperam vir a Porto Alegre e encontrar só peões de
estância andando de bombachas e montados a cavalo. “Gaúcho
sabe o que é rádio, jornal, internet?” O quê,
você pensou que eles só falavam isso de vocês
amazônidas? Ou nordestinos do semi-árido? Ou pantaneiros
e sertanejos do cerrado, no Centro-Oeste? Não, sinto, não
é prerrogativa só de vocês. Mas é
prerrogativa deles passar atestados de ignorância do tipo!
Dos
343 anos de Manaus, conheço há uns 9. Antes, era uma
cidade distante e desconhecida, um ponto no mapa do Brasil, daquele
Atlas Escolar que a gente usava nas aulas de Geografia, nos ensinos
Fundamental e Médio. E a cidade de onde provinham todos os
eletro-eletrônicos da nossa casa. Foi num rádio-gravador
CCE de papai que vi, pela primeira vez, aquela etiquetinha que diz
“produzido na Zona Franca de Manaus”. E temos até hoje um
liquidificador marca Arno, dado por ele a minha mãe, também
com a mesma etiqueta colada embaixo do aparelho. Que tem quase a
minha idade e continua funcionando muito bem, aliás, nunca
quebrou, que eu me lembre! Os aparelhos eletrônicos, a única
coisa de Manaus com a qual tive contato, até 2003. Nunca
pensei muito a respeito de como era, mas não me lembro jamais
de ter pensado que fosse uma cidade-floresta, habitada por índios,
caboclos ribeirinhos andando em canoas, pescando, tirando látex
de seringueira e morando em palafitas. Não esperava encontrar
jacaré andando nas ruas, nem onças nos quintais das
casas. Nas poucas vezes em que me pus a imaginar como seria, pensei
que, já que a Zona Franca era onde se fabricavam praticamente
todos os aparelhos eletrônicos vendidos no país, que
provavelmente fosse uma cidade grande e moderna. O que encontrei não
foi muito diferente do que eu esperava. Justamente porque não
esperava nada de muito espetacular, muito exótico, ou
pitoresco! Não esperava nada do que não pudesse
encontrar no meu país. Não esperava, nem mesmo
imaginava, que fosse me sentir tão em casa que hoje considere
Manaus a minha cidade, o meu lugar, só um pouquinho mais ao
norte de onde nasci. Ou alguém aí imaginava que eu
fosse entender como é sofrer bullying dos amigos
“brazileiros”?

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