PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Cão Sem Dono

Um cão sem dono... a gente encontra alguns, ali no terminal dos ônibus. Zanzando perdidos, sem destino, sem porquê, só andando pra lá e pra cá, de vez em quando se enroscando por entre os pés das pessoas, que esperam, aborrecidas, o seu coletivo passar para, enfim, irem pra casa.
O cãozinho não tem casa, não tem lar, não tem família, não tem nada... é só aquela parada, aquele ponto de ônibus, aquela cobertura velha e arrebentada de telhas de zinco esvoaçantes, nada mais. São só as multidões indiferentes, que chegam e que partem. Só algumas pessoas que estão por ali todos os dias, descem de um coletivo e se põe a esperar o próximo, sem mal olhar umas para as outras, ou para os cães sem dono da rua, ou para as barraquinhas que vendem churrasquinho de filé miau, salgadinhos, jujubas, água mineral e o jornal barato com a gata da capa do dia.
Às vezes, o cãozinho tem motivos para abanar a cauda, às vezes ganha os afagos do tio do churrasquinho, ou dos motoras das conduções que dali partem e iniciam suas rotas. De vez em quando ele recebe as atenções de uma moça, que pega ali, todas as noites, a sua condução para casa, após mais um cansativo e atribulado dia de trabalho. De vez em quando ela lhe curte, brinca um pouco com ele, ri para ele, lhe atira um pedacinho do seu churrasquinho com farofa. Todas as noites ela está ali. Pelo menos, quase todas as noites. E o cãozinho se habitua a vê-la, a tê-la por perto. Bichinhos também se apegam com a gente... é só ela apontar na passarela que ele senta-se no cordão da calçada para esperá-la e ficar ali, aos seus pés. Esperando alguma coisa, qualquer coisa, ou esperando nada. Esperando junto o micro-ônibus, no qual ele não entrará junto, está ali apenas lhe fazendo companhia, enquanto o coletivo não vem.
O cãozinho sem dono já está habituado, já se acostumou, quando o sol se põe, ele já sabe, mais cedo ou mais tarde ela estará por ali. Torna-se instintivo, em vez de zanzar por entre os pés dos usuários de ônibus, revirar o lixo, atrás de alguma coisa que comer, ou se abrigar embaixo de algum quiosque, pra dormir, ele senta-se na calçada e espera. E a noite passa, o último ônibus passa, os passageiros desaparecem e ela simplesmente não apareceu. O bichinho, frustrado, não entende, vai pra um canto do paradão, deita-se encolhido, enroscado com outros cãezinhos, naquela noite. Nos outros dias, ele repete o ritual, já está no seu instinto, ir para o início de onde costumam formar-se as filas para entrar nos ônibus, sentar-se no cordão da calçada e esperar por ela... que teima em não aparecer mais. A espera começa a diminuir, os bichinhos também têm paciência, e esta também se acaba, dali há um mês, mais ou menos, ao se pôr o sol, ele dá uma olhadinha furtiva para a fila de passageiros indiferentes, antes de continuar a zanzar, correr atrás de catadores de latinhas, ou carros, ou motocicletas, revirar as latas de lixo, atrás de comida.
Eu saio do trabalho. Eu pego o metrô de superfície (nome estúpido, prefiro “trem”). Chego na minha estação, desço do trem, ando pela plataforma, subo a escada rolante, pego a passarela, desço até o terminal, me ponho parado de pé, fico esperando pelo meu ônibus, me irrito com a demora, às vezes dou sorte e ele vem quase ao mesmo tempo em que chego. Mas, quando tenho de esperar além do que gostaria, eu observo a vida do ponto de ônibus, as pessoas que trabalham por ali, os motoras, os catadores de latinhas, os cães sem dono... um dia, observando-os, me sinto um pouco como aqueles cãezinhos.
Me habituei a vê-la nas redes sociais, pela manhã, quando ligo o computador, para começar a trabalhar e perco alguns minutos do dia, ou no horário de almoço, quando estou só fazendo a digestão, quase cochilando em cima da mesa de trabalho, lendo algumas notícias “fascinantes”. Me acostumei a, todas as manhãs, escolher uma canção para dedicar-lhe, para postar em seu mural, uma canção que lhe agrade, que seja do seu ótimo gosto. Quando se ausenta, o dia parece que não vai render a mesma coisa, sinto como se o dia não tivesse a mesma graça. Me acostumei demais a sua presença, é isso. Parece até que os sites de notícias publicaram todas as matérias mais interessantes enquanto ela estava presente, pra depois se entregarem a um marasmo sem nenhuma novidade instigante. Parece que nem as bandas que só eu gosto lançam nada de novo na sua ausência, nenhuma música nova, nenhuma nova promessa da música pop surge por esses dias. As melhores piadas e os assuntos mais comentados de forma um pouco mais mordaz também somem, quando ela não está, os adolescentes fãs de Restart e as passivas fãs de Lady Gaga dominam as redes sociais, com sua total ausência de humor – que dirá de bom humor. A vidinha cotidiana parece ser mais suportável, quando ela está por perto, e nada parece ter a mesma graça, enquanto ela não está.
Olho para o cachorrinho, com o olhar tristonho e implorante, olhando para uma menina de olhar distante e indiferente, com um espetinho de carne numa mão, o celular na outra, os fones nos ouvidos, isolada no seu mundinho particular. O bichinho, timidamente, lhe acena com uma balançada de cauda e ela nem “tchum”. Somente parece despertar quando vem o C-10, apressa-se em jogar o espetinho em qualquer canto e corre para entrar no coletivo, quase jogando no meio da rua uma senhorinha que vinha lhe perguntar se já havia passado a C-7 Sial. Enquanto isso, observo o cãozinho, que também parece me observar. Ele parece entender o que estou pensando e eu, olhando nos seus olhos, me sinto um pouco como ele, sou também meio que um cão sem dono.


Nenhum comentário:

Postar um comentário