Um
cão sem dono... a gente encontra alguns, ali no terminal dos
ônibus. Zanzando perdidos, sem destino, sem porquê, só
andando pra lá e pra cá, de vez em quando se enroscando
por entre os pés das pessoas, que esperam, aborrecidas, o seu
coletivo passar para, enfim, irem pra casa.
O
cãozinho não tem casa, não tem lar, não
tem família, não tem nada... é só aquela
parada, aquele ponto de ônibus, aquela cobertura velha e
arrebentada de telhas de zinco esvoaçantes, nada mais. São
só as multidões indiferentes, que chegam e que partem.
Só algumas pessoas que estão por ali todos os dias,
descem de um coletivo e se põe a esperar o próximo, sem
mal olhar umas para as outras, ou para os cães sem dono da
rua, ou para as barraquinhas que vendem churrasquinho de filé
miau, salgadinhos, jujubas, água mineral e o jornal barato com
a gata da capa do dia.
Às
vezes, o cãozinho tem motivos para abanar a cauda, às
vezes ganha os afagos do tio do churrasquinho, ou dos motoras das
conduções que dali partem e iniciam suas rotas. De vez
em quando ele recebe as atenções de uma moça,
que pega ali, todas as noites, a sua condução para
casa, após mais um cansativo e atribulado dia de trabalho. De
vez em quando ela lhe curte, brinca um pouco com ele, ri para ele,
lhe atira um pedacinho do seu churrasquinho com farofa. Todas as
noites ela está ali. Pelo menos, quase todas as noites. E o
cãozinho se habitua a vê-la, a tê-la por perto.
Bichinhos também se apegam com a gente... é só
ela apontar na passarela que ele senta-se no cordão da calçada
para esperá-la e ficar ali, aos seus pés. Esperando
alguma coisa, qualquer coisa, ou esperando nada. Esperando junto o
micro-ônibus, no qual ele não entrará junto, está
ali apenas lhe fazendo companhia, enquanto o coletivo não vem.
O
cãozinho sem dono já está habituado, já
se acostumou, quando o sol se põe, ele já sabe, mais
cedo ou mais tarde ela estará por ali. Torna-se instintivo, em
vez de zanzar por entre os pés dos usuários de ônibus,
revirar o lixo, atrás de alguma coisa que comer, ou se abrigar
embaixo de algum quiosque, pra dormir, ele senta-se na calçada
e espera. E a noite passa, o último ônibus passa, os
passageiros desaparecem e ela simplesmente não apareceu. O
bichinho, frustrado, não entende, vai pra um canto do paradão,
deita-se encolhido, enroscado com outros cãezinhos, naquela
noite. Nos outros dias, ele repete o ritual, já está no
seu instinto, ir para o início de onde costumam formar-se as
filas para entrar nos ônibus, sentar-se no cordão da
calçada e esperar por ela... que teima em não aparecer
mais. A espera começa a diminuir, os bichinhos também
têm paciência, e esta também se acaba, dali há
um mês, mais ou menos, ao se pôr o sol, ele dá uma
olhadinha furtiva para a fila de passageiros indiferentes, antes de
continuar a zanzar, correr atrás de catadores de latinhas, ou
carros, ou motocicletas, revirar as latas de lixo, atrás de
comida.
Eu
saio do trabalho. Eu pego o metrô de superfície (nome
estúpido, prefiro “trem”). Chego na minha estação,
desço do trem, ando pela plataforma, subo a escada rolante,
pego a passarela, desço até o terminal, me ponho parado
de pé, fico esperando pelo meu ônibus, me irrito com a
demora, às vezes dou sorte e ele vem quase ao mesmo tempo em
que chego. Mas, quando tenho de esperar além do que gostaria,
eu observo a vida do ponto de ônibus, as pessoas que trabalham
por ali, os motoras, os catadores de latinhas, os cães sem
dono... um dia, observando-os, me sinto um pouco como aqueles
cãezinhos.
Me
habituei a vê-la nas redes sociais, pela manhã, quando
ligo o computador, para começar a trabalhar e perco alguns
minutos do dia, ou no horário de almoço, quando estou
só fazendo a digestão, quase cochilando em cima da mesa
de trabalho, lendo algumas notícias “fascinantes”. Me
acostumei a, todas as manhãs, escolher uma canção
para dedicar-lhe, para postar em seu mural, uma canção
que lhe agrade, que seja do seu ótimo gosto. Quando se
ausenta, o dia parece que não vai render a mesma coisa, sinto
como se o dia não tivesse a mesma graça. Me acostumei
demais a sua presença, é isso. Parece até que os
sites de notícias publicaram todas as matérias mais
interessantes enquanto ela estava presente, pra depois se entregarem
a um marasmo sem nenhuma novidade instigante. Parece que nem as
bandas que só eu gosto lançam nada de novo na sua
ausência, nenhuma música nova, nenhuma nova promessa da
música pop surge por esses dias. As melhores piadas e os
assuntos mais comentados de forma um pouco mais mordaz também
somem, quando ela não está, os adolescentes fãs
de Restart e as passivas fãs de Lady Gaga dominam as redes
sociais, com sua total ausência de humor – que dirá de
bom humor. A vidinha cotidiana parece ser mais suportável,
quando ela está por perto, e nada parece ter a mesma graça,
enquanto ela não está.
Olho
para o cachorrinho, com o olhar tristonho e implorante, olhando para
uma menina de olhar distante e indiferente, com um espetinho de carne
numa mão, o celular na outra, os fones nos ouvidos, isolada no
seu mundinho particular. O bichinho, timidamente, lhe acena com uma
balançada de cauda e ela nem “tchum”. Somente parece
despertar quando vem o C-10, apressa-se em jogar o espetinho em
qualquer canto e corre para entrar no coletivo, quase jogando no meio
da rua uma senhorinha que vinha lhe perguntar se já havia
passado a C-7 Sial. Enquanto isso, observo o cãozinho, que
também parece me observar. Ele parece entender o que estou
pensando e eu, olhando nos seus olhos, me sinto um pouco como ele,
sou também meio que um cão sem dono.

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