PESCANDO NO BODOSAL

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dança da Chuva

A dança da chuva de verdade é feita quando já está chovendo. As outras são rituais mágicos para atrair a chuva, não danças da chuva, de fato.
Você, neste exato momento, está fazendo a dança da chuva. Segurando com força e destreza o guarda-chuva, que uma lufada de vento tenta entortar, enquanto executa passos complexos e mais ou menos elaborados, para evitar as poças d'água na calçada. Você ginga mais que num samba, você faz jogo de corpo, para escapar ileso e seco das goteiras nas marquises dos prédios. Para não ter seu olho espetado, ao atravessar aquele mar de sombrinhas multicoloridas, você desvia e esgueira-se, tal qual Neo, em “Matrix”.
Nenhum balé, por mais bem elaborado que seja, se iguala àquele que vemos de graça, num dia de chuva qualquer. A música, pouco importa, a música é aquela que estiver tocando no seu mp3; no radinho de pilha do senhor que vende guarda-chuvas na esquina; a que estiver tocando no seu subconsciente, ou mesmo, nenhuma. Ou mesmo os sons da rua; as vozes e conversas das pessoas ao seu redor, os carros, a chuva batendo na lona preta da sombrinha, o “toc-toc” elegante dos sapatos de salto da moça bonita.
Ok, você dança desajeitadamente a dança da chuva, você está com pressa para chegar no trabalho, quase nem presta atenção na música, que hoje é “Seven Nations Arm”, com a virtuosa guitarra de Jack White e a batera vigorosa de Marie White. Você não parou pra perceber que não é só você, hoje todos estão executando a sua própria dança da chuva, alguns com um suingue quase germânico, outros, com graciosos e delicados passos de balé. Outros, ainda, de um modo improvisado, juntam balé e equilibrismo, com passos arriscados, para não cair, ao patinar no piso molhado, com um calçado muito impróprio para o clima de hoje. Todos, a seu modo, estão dançando a sua dança da chuva, hoje. E tem dia melhor para dançar, que hoje?!

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