A
dança da chuva de verdade é feita quando já está
chovendo. As outras são rituais mágicos para atrair a
chuva, não danças da chuva, de fato.
Você,
neste exato momento, está fazendo a dança da chuva.
Segurando com força e destreza o guarda-chuva, que uma lufada
de vento tenta entortar, enquanto executa passos complexos e mais ou
menos elaborados, para evitar as poças d'água na
calçada. Você ginga mais que num samba, você faz
jogo de corpo, para escapar ileso e seco das goteiras nas marquises
dos prédios. Para não ter seu olho espetado, ao
atravessar aquele mar de sombrinhas multicoloridas, você desvia
e esgueira-se, tal qual Neo, em “Matrix”.
Nenhum
balé, por mais bem elaborado que seja, se iguala àquele
que vemos de graça, num dia de chuva qualquer. A música,
pouco importa, a música é aquela que estiver tocando no
seu mp3; no radinho de pilha do senhor que vende guarda-chuvas na
esquina; a que estiver tocando no seu subconsciente, ou mesmo,
nenhuma. Ou mesmo os sons da rua; as vozes e conversas das pessoas ao
seu redor, os carros, a chuva batendo na lona preta da sombrinha, o
“toc-toc” elegante dos sapatos de salto da moça bonita.
Ok,
você dança desajeitadamente a dança da chuva,
você está com pressa para chegar no trabalho, quase nem
presta atenção na música, que hoje é
“Seven Nations Arm”, com a virtuosa guitarra de Jack White e a
batera vigorosa de Marie White. Você não parou pra
perceber que não é só você, hoje todos
estão executando a sua própria dança da chuva,
alguns com um suingue quase germânico, outros, com graciosos e
delicados passos de balé. Outros, ainda, de um modo
improvisado, juntam balé e equilibrismo, com passos
arriscados, para não cair, ao patinar no piso molhado, com um
calçado muito impróprio para o clima de hoje. Todos, a
seu modo, estão dançando a sua dança da chuva,
hoje. E tem dia melhor para dançar, que hoje?!

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