PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 18 de março de 2011

Terremotos, Sonhos e Abalos Emocionais


Uma vergonha: hoje completando exatos 14 dias que não posto nada no blog. Pior que tenho escrito muito, mas nada que se aproveite. Quer dizer... deixa pra lá! Portanto, não é falta de idéias, é dificuldade para pô-las em ordem de uma forma lógica!
Tenho idéias do que escrever, mas acabo desistindo delas. Não ando mais tão concentrado. Ando meio desanimado, meio depressivo. Pensei em escrever, comecei trocentos textos nessas últimas duas semanas, mas toda vez eu acabei não sabendo como continuá-los, muito menos como terminá-los. Acabava me distraindo, me irritando com alguma coisa, perdendo o fio da meada, perdendo horas, inclusive as de sono, e por fim, desistindo. Hoje, mais uma vez, a esperança de que pelo menos um texto, este, eu consiga terminar. Ah, se nada pudesse abalar essa minha resolução...! O caso é que tô facinho de me abalar, por qualquer besteira, por uma canção qualquer... ah! Qualquer bobagem!
Acho que de tempos em tempos sofro desses abalos, que não são tão fáceis de se detectar, como um terremoto, mas que fazem um bom estrago: fazem a gente fraquejar, se questionar quanto a nossas escolhas, quanto à justeza do nosso destino, se culpar, se cobrar, perder a confiança, em si e nos outros e umas outras coisinhas mais. E não estou fazendo piada quanto ao Japão, quando falo em terremoto! Assim que as notícias chegaram, dando conta dos abalos terríveis que por lá houveram, que arrasaram comunidades, cidades inteiras e culminaram com mais de 6 mil mortos, milhares de desaparecidos e desabrigados, também fiquei muito triste. Também fiquei desassossegado. Mais do que já me encontrava.
Tenho estado, ultimamente, mais suscetível a certas situações, aos problemas meus e os alheios, tenho estado muito emotivo. Não sei se é da lua, ou se sou eu mesmo. Antes mesmo do terremoto e da tsunami que assolaram o Japão, já faz uma semana, já fiquei mais sensibilizado que de costume, ao assistir num noticiário local, uma reportagem sobre um acidente de trânsito no interior de Santa Catarina, entre um ônibus e um caminhão, que provocou 26 mortes, só no dia. Após o acidente, pelo menos mais três vítimas vieram a falecer, até hoje. Estavam hospitalizadas, mas isso só deu pra segurá-las mais uns dias vivas, infelizmente. De um modo geral, tenho verdadeira ojeriza a sensacionalismo, mas como ficar inabalável, sentado na frente da tevê, ao ver jovens, crianças e adultos chorando, desesperados, a perda de amigos, pais, irmãos, parentes, maridos, esposas...?! Me comoveu imensamente aquela imagem, passei o carnaval pensando nisso. Sim, foi em pleno feriado de carnaval! Se você ainda não soube, não é culpa sua: as grandes redes não costumam noticiar tragédias durante os feriados, especialmente os pautados pela alegria, como o Natal, Ano Novo e carnaval.
No carnaval, já é um costume meu, há pelo menos uns três anos, lamentar-me por não poder estar no sambódromo, em Manaus, indo atrás do trio elétrico, dançando, brincando, enfim, curtindo o Carnaboi. Este ano, por alguns motivos para mim óbvios, outros nem tanto, parece ter sido pior, mais dolorido, esse lamentar, essa tristeza por estar alijado desse pequeno universo de folia ao som de toadas. Me sinto desnorteado, fora do meu eixo, deslocado, longe de casa. Da casa que meu coração inventou de escolher. Sinto falta de andar pelas ruas do Centro histórico – que às vezes acho que só eu gosto – encontrar os velhos amigos e conhecidos, voltar a ver, poder abraçar a minha segunda família: a filha do coração, que do alto dos seus seis anos me adotou como pai, já faz uns bons seis anos... aquela que era pra ser minha querida futura sogra, mas que acabou me adotando também, por fim se tornando minha segunda mãe... essa saudade, não sei, tem horas que me faz mal! Quero estar lá até o fim deste ano, porque 2012, sabe-se lá o que nos espera... se o fim do mundo, ou a hiper-inflação, ou o desemprego, ou o quê... tem horas que sinto que está tudo meio emperrado, sem saída! Tem me provocado imensa agonia, essa incerteza toda, de tudo.
Depois do carnaval, isso sou eu quem diz, é assim que penso, não começa o novo ano, começam os desastres. Os grandes desastres. Veio o terremoto, e depois o maremoto, parece que para arrematar, no Nordeste do Japão. Depois ainda mais essa, o desastre nuclear em Fukushima, cujas informações são ainda muito confusas, dando a impressão de que a gente não sabe da missa a metade. Enquanto que por aqui, temos o cardápio requentado de sempre: enchentes no sul do Rio Grande do Sul, gente morta, centenas, ou milhares de desabrigados, praticamente aqui do lado. Médicos displicentes e negligentes que tiveram a coragem de amputar a perna de um bebê por vacilo, pura e simplesmente! Tempestades e deslizamentos de terra no litoral do Paraná, destruindo estradas e isolando comunidades inteiras, que não têm como se comunicar nem com o Sul, que dirá com o resto do país. Em Minas Gerais, milhares de desabrigados, no interior e na Capital, por conta das chuvas torrenciais. Nos dois Matos Grossos, os rios estão subindo, e os meteorologistas nos trazem notícias “animadoras”: as cheias no pantanal ainda estão longe de acabar, ainda subirão mais do que já subiram! No Pará, enxurradas também, destruindo casas, inundando ruas de vilas e cidades, deixando muita gente desabrigada. O terremoto que ocorreu no Japão, parece que reverberou no mundo inteiro, não só através das grandes redes de notícias: no Chile, antes do jogo do Santos, pela copa Libertadores, houveram fortes tremores, de magnitude 5.7! Ontem pela manhã, fiquei sabendo de tremores de terra no interior de Pernambuco, e à noitinha, soube de tremores também no interior de São Paulo. Tudo isso tem calado fundo no meu coração, tem me agoniado... um misto de tristeza e medo: sim, eu comecei a temer que os tremores chegassem até minhas duas cidades! Fiquei preocupado com todas as pessoas queridas, que estão nos dois extremos deste país.
Até uns dias atrás, já não vinha dormindo direito. Desde o começo do carnaval, não estava conseguindo dormir direito, acordava no meio da madrugada, e durante o dia ficava com a incômoda sensação de areia nos olhos. Não era conjuntivite, mas hoje pela manhã já fiquei alarmado, ao ver uma reportagem sobre epidemia dessa doença, lá em São Paulo. Tem muito otário que vai pra lá, sei lá pra quê, depois traz essas piras pra passar pra gente! Mas então, voltando, recentemente tive dois sonhos que só contribuíram, cada um a seu modo, pra me abalar ainda mais as estruturas e me tirar mais um pouquinho do meu eixo. Numa noite, acho que foi no fim de semana de, ou no fim do carnaval, sonho com as duas criaturas que mais têm dominado os meus pensamentos e meu coração: o meu amor mais verdadeiro neste momento, minha filha, a menina que me adotou, era uma, a outra que aparecia no sonho, sequer conheço pessoalmente, mas é aquela que, me hipnotizou com seu olhar cálido, com seu sorriso doce, que elegi como musa inspiradora, que a cada dia me sinto mais apaixonado, sem sequer ter-lhe visto pessoalmente, sem jamais ter-lhe ouvido a voz. E ainda dizem que Manaus é um ovo... como pode, então, eu jamais tê-la visto nem de relance?! Enfim, no sonho, estaríamos os três usando roupas imaculadamente brancas, sentados numa sala de uma casa toda branca, com móveis brancos, cortinas brancas, piso caiado e o sol entrava e tomava conta, iluminando todos os cômodos, graças às grandes janelas e aberturas nas paredes, que tornavam a casa muito iluminada e arejada. Estava minha musa sentada a meu lado, observando um álbum, meio como aqueles books de fotos, meio como um tablet do tamanho de um caderno universitário, com belas fotos, muito bem-feitas, da filhota, que como uma princesa, sentava-se a nossa frente e penteava os cabelos calmamente. Em dado momento, minha bela morena volta-se para mim e diz: “Tua filha é linda! Podia ser uma modelo...” como era meu inconsciente falando, minha musa, creio eu, manifestava de forma maternal a minha corujisse de pai... é, um tanto contraditório, eu sei. Faz tempo que não falo com um psicólogo, talvez devesse... sei que, ao acordar do sonho, me senti bastante bem, ao saber que tinha sonhado com minha paixão platônica e cibernética, ao mesmo tempo que com minha filha. Por pouco tempo... logo comecei a pensar nelas, me preocupar, a saudade começar a dialogar comigo, a solidão entrando no meio da conversa... enfim, acabei agoniado, inseguro, deprimido, quase chorando. Enfim, abalado, emocional e moralmente.
Dias depois, num outro sonho, creio que fui bastante influenciado pelas notícias dos desastres, que nos têm chegado todo santo dia, especialmente as do Japão. Sonhei que trabalhava com um grupo, como voluntário no resgate de corpos e possíveis sobreviventes, em uma região que fora devastada por uma tempestade, uma cheia e um grande desmoronamento do barranco de algum morro. Várias casas encontravam-se só os escombros, soterrados por toneladas de terra, areia e argila. Entrávamos num sobrado, cuja parte de baixo havia resistido e não ruíra, em busca de sobreviventes e corpos. Lá entrando, fomos surpreendidos por uma cena tétrica: várias pessoas, na maioria, mulheres, amarradas e amordaçadas com o que parecia ser fita adesiva, algumas com a cabeça completamente recoberta daquele material, penduradas no que restara do piso do andar de cima, como se tivessem sido enforcadas. Esse sonho me causou tão forte impressão, tão grande mau-estar que o meu sono só piorou nos dias posteriores. Lembro de acordar assustado após esse sonho, no meio da madrugada, e não conseguir mais dormir, só ficar deitado, olhando para o teto, talvez com medo que ele, de repente, viesse abaixo.
Tenho me emocionado com grande facilidade, tenho ido às lágrimas com facilidade maior ainda: dia desses, revendo pela enésima vez àquele filme, Click, comecei a chorar copiosamente em algumas cenas do filme, e não sei por quê, pensei, naquele momento, em meu amor e em minha paixão. O que pode ter aquele filme a ver comigo, com minha musa e/ou com minha filhota? É muito estranho. Eu sei. É estranho também pensar e temer que possa perdê-las, a minha filhota, pela distância, por ela estar crescendo, por não podermos nos falar todo o tempo, pelo menos todo o que quisermos... minha morena, temo perdê-la se ela souber o quanto a admiro e adoro, de forma platônica, se souber-se admirada por mim, ou então no caso de nos encontrarmos, mesmo que fortuitamente. É loucura. E me abala. Esses tremores estão me deixando simplesmente agoniado e fora do eixo. Precisaria e gostaria, muito, que esse terremoto emocional acabasse.

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