Passam
pela praça e acho graça. Falam mal de mim e eu acho
graça. Falam mal do Sul... e já não acho mais
nenhuma graça. Falam mal do Nordeste e eu não acho
nenhuma graça. E fale mal do Norte perto de mim, se quiser
arranjar briga!
Nasci
gaúcho, do Estado do Rio Grande do Sul, portanto, sou do Sul.
Morei em Manaus, por escolha e por identificação, que
aí já é uma coisa que vai do coração,
me tornei amazonense, portanto... sou do Norte, também! E
dizia meu pai que seu avô teria vindo da Europa, talvez da
França, ou de Portugal, mesmo... e teria se estabelecido aqui
no Brasil, talvez lá por Pernambuco, ou pela Paraíba...
nem ele sabia direito. Acho que nem chegou a conhecer o avô,
deve ter ouvido o pai dele contar essa mesma história. Bom,
mas enfim, presumindo que seja verdade, tenho também um pé
no Nordeste, portanto. O que importa mesmo é que sou
brasileiro. Não importa o que digam lá pelo Eixo do
Mal. Até prova em contrário, sou brasileiro, sim. O
falar mal, a idiotice, a deselegância, a piada de gosto
duvidoso e de cunho preconceituoso e pejorativo, por fim, a xenofobia
me causam muitos dissabores e deixam meu humor ligeiramente – ou
bastante – bilioso. Sobretudo a xenofobia. “Ah, mas xenofobia é
quando se odeia o estrangeiro, o estranho...” Não, o ódio
irracional por pessoas que são do mesmo país que você,
mas vêm de uma determinada cidade, ou região que não
é a sua, pode ser considerado xenofobia, sim.
Como
naquele caso do ódio contra os nordestinos, manifestado por
uma aluna universitária paulistana, no site twitter, após
a confirmação de que Dilma Rouchefe havia sido eleita
presidente da República. Sou da teoria, ok, um pouco xenófoba,
de que o paulista, o paulistano, principalmente, é quem gasta,
é quem consome produtos e serviços, é quem faz a
grana girar, quem movimenta a mola da economia. Quem realmente
trabalha, no Estado, ou na cidade de São Paulo, é,
sempre foi o nordestino. Nos últimos trinta, ou quarenta anos,
também os nortistas, os cariocas, os gaúchos, os
mineiros, os paranaenses... e por aí vai! Sabendo disso, ou
não, aquela garota usou a eleição da atual
presidente apenas como pretexto. Pra quê...? Ora, pra
manifestar a sua intolerância, que nós sabemos ser de
muitos, contra aquela gente que “invadiu” e tem “invadido”
sua terra há anos, que têm “dominado” e “colonizado”
culturalmente a sua grande e próspera cidade, que é
próspera por que, mesmo?
Enfim,
mas é fato, não se ofenda. É assim que eles
pensam, tive várias demonstrações disso, conheço
vários casos. Ademais, queiramos, ou não, todos somos
xenófobos, em maior ou menor escala. Ou ninguém ainda
se perguntou por que chamo o eixo Rio – São Paulo de Eixo do
Mal? Há motivos que considero bastante razoáveis, para
chamá-lo assim, mas em parte, há, sim, um certo
preconceito e uma má-vontade para com nossos parentes
paulistanos e cariocas. Sim, também acho paradoxal, detestar
tanto a xenofobia e ser, ao mesmo tempo, um pouco xenófobo...
mas enfim!
Muita
gente tem confundido vacilo com xenofobia. Não é a
mesma coisa, não, viu! Um bom exemplo disso é o
episódio, já mundialmente conhecido, do Santa Etelvina
ao Belém Novo, do baterista (?!) da bandinha de tinta guache
Restart que, comentando sua expectativa em fazer um show em Manaus,
no início do mês que vem, soltou a seguinte pérola:
“que eles não sabiam como seria, se lá havia gente,
ou civilização, e seria muito legal fazer um show no
meio da floresta.” Sim, se estou bem lembrado, era mais ou menos
isso mesmo. Claro, eu entendo, creio que toda indignação
do povo amazonense é digna diante de tamanho absurdo, tamanho
disparate. Mas tal disparate não foi cometido na forma de uma
piadinha sem graça, um gracejo pejorativo e preconceituoso,
como aquele feito por aquele famoso canastrão norte-americano,
ao falar do nosso país. Naquele caso, sim, foi uma
brincadeira, de muito mau-gosto, preconceituosa e xenófoba.
Não foi o caso desse menino da Restart, o caso dele foi de
absoluta ignorância! E um pouco de ingenuidade, também,
ao falar a primeira merda que lhe veio à mente.
Mas
enfim, a fúria e a indignação do povo amazonense
foi, sim, justa, mas isso até muitos dos que se manifestaram
contra a banda, pelo que pude acompanhar, através de páginas
de comentários e em grupos de discussão, em blogs,
começarem a confundir os canais, acharem-se vítimas da,
já demasiadamente citada aqui, xenofobia por parte desses
garotos, revidando, por sua vez, com mais xenofobia, incluindo em sua
ira sem direção todo o Sudeste e Sul do país.
Sem direção porque, primeiro, se somos vítimas
da xenofobia alheia, neste país, é principalmente por
conta do Eixo do Mal. Não inclua goianos, gaúchos,
mineiros no seu ódio regionalista. Em segundo lugar, não
finja que conhece o Sul do Brasil, que eu não finjo conhecer o
Norte, ok? Estamos combinados assim?! Pois que vi a manifestação
completamente equivocada de uma leitora de um blog aí,
destilando seu ódio regionalista contra o Sul e Sudeste do
país, mesmo dizendo-se nascida no Rio, e criada no Amazonas –
chegando a dizer-se “mais amazonense que os amazonenses”. Minha
filha... não diga isso... porque não é verdade!
Você pode ser tão amazonense quanto o caboclo ribeirinho
que vive lá pros lados do Cacau Pirêra, mas nunca mais
do que ele! Pode ser, isso sim, mais bairrista. Eu me considero, por
exemplo, bastante bairrista, enquanto amazonense, tanto, ou até
um pouco mais, do que enquanto gaúcho. Ademais, vamos falar a
verdade, não podemos cobrar do outro – nem mesmo dos
moleques dessa bandinha horrível – que conheçam
geografia, ou história do Brasil. Porque nós,
brasileiros, sejamos do Norte, do Sul, do Sudeste, do Centro-oeste,
ou do Nordeste, simplesmente não conhecemos nosso país!
Não, amigo, nem mesmo a região, o Estado onde moramos,
onde nascemos... sinto muito, sei que dói ouvir/ler isso, mas
só até aceitarmos a verdade dos fatos: veja, o Brasil
que conhecemos, ainda assim bem pouco, se reduz a Rio de Janeiro e
São Paulo! Se estende a Salvador só em época de
carnaval! Os dois únicos Estados, as duas únicas
cidades que nos são mostradas pela grande mídia,
sobretudo na tv, são... quais mesmo?! Rio de Janeiro e São
Paulo!!! Você acha que as cenas que aquela afiliada de uma
grande rede sediada no RJ mostra pra você, mostra também
para o resto do país?! NÃO!!! Lógico que não!
Isso fica apenas e tão somente para “consumo interno”,
amigo. O que mostram da tua terra, para o resto do país, é
aquilo que estiver mais de acordo com a linha editorial da mesma
grande rede de mídia. Ponto. O amazonense, o gaúcho, o
catarinense, o paraense, o acreano... esses não são
mostrados como brasileiros típicos, ou ao menos semelhantes
com aqueles encontrados no Rio, São Paulo, Minas, Bahia. Esses
são mostrados como seres extraterrestres, exóticos,
estranhos, pertencentes a regiões inóspitas e
desconhecidas, com uma cultura e uma língua completamente
diferentes daquilo que se subentende como “cultura nacional
brasileira”.
Você
que jura que conhece melhor o Sul, do que eu conheço o Norte,
veja que dados curiosos: a maioria dos brasileiros acredita que no
extremo Sul do Brasil, do seu próprio país, não
existe verão, é sempre frio, até mesmo acreditam
que não haja saída para o mar, que dirá, então,
de praias! A imensa maioria dos brasileiros imagina que é
absolutamente normal o sujeito andar pela capital gaúcha, ou
pela região metropolitana, vestindo bombachas, calçando
botas até quase os joelhos e usando chapéu de feltro.
Muita, mas muita gente mesmo, ainda crê que se usem cavalos e
charretes para se locomover dentro do perímetro das cidades
gaúchas, não automóveis, motocicletas, ônibus.
A maioria sequer imagina que possa haver uma linha de metrô
ligando Porto Alegre à região metropolitana! E sim, há
tal linha!! E amigo, em Porto Alegre, só se admite alguém
andar pilchado, como se diz da roupa considerada tradicional do
gaúcho, em épocas específicas do ano. Costuma
ser no mês de setembro, e só. Em qualquer outra época
do ano, é considerado ridículo quem faz isso. Bem como
usar cocares e colares coloridos e andar sem camisa – os homens,
obviamente – no Amazonas, fora do período das festas juninas
e do festival folclórico, em Parintins, também soa
ridículo. Ou me enganei...? Vá explicar isso pra um
paulista, um baiano, um goiano... eles não vão crer, e
se acreditarem, não vão aceitar! Porque aí, você
sai fora do estereótipo regionalista, que não foi
criado por nós, e sim pelos senhores das grandes redes
nacionais de mídia e imprensa. Quer um exemplo? Mais um?? Ok,
ligue na tv, no horário das 18 horas – ou 17h, dependendo de
onde você se encontra – e preste atenção nos
“gaúchos” mostrados numa novela aí. Note, o vilão,
“gaúcho” da fronteira, usa bombacha, colete, lenço
branco amarrado no pescoço. O mocinho, esse seria um “gaúcho”
urbano, nascido e crescido na capital do Estado... muito embora, se
vista igual a aqueles cowboys fajutos de Goiás e interior de
São Paulo! Agora, vem a segunda parte da gincana: procure um
gaúcho na sua cidade. Dependendo da cidade/região onde
você vive, talvez encontre alguma dificuldade em achar um, mas
gaúcho é que nem nordestino e chinês, em todo
lugar tem um, pelo menos! Aí, quando encontrá-lo, veja,
observe-o, seu jeito de vestir-se – que dificilmente será
diferente do teu – de falar, etc. E aí?! Você pode vir
a se decepcionar... pode vir, também, a descobrir o óbvio:
a tv mente, amigo! Os estereótipos estão aí pra
serem quebrados! Chato que você vai descobrir que seus
preconceitos não condizem com a realidade.
Eu
pude ver a realidade de Manaus, mas se assim não fosse, se não
tivesse tido essa oportunidade, duvido que poderia confiar 100% nos
meus conhecimentos sobre a região amazônica, também
sobre Manaus, aqueles que adquiri ainda nos tempos de escola, posto
que não seriam lá muito maiores que os dos meninos da
tal Restart. Xenofobia?! Não! Ignorância, pura e
simples! E sim, graças a nossas grandes redes midiáticas
e ao nosso sistema educacional ultrapassado! Pois, falando dos dois
casos que melhor conheço, sequer os amazonenses conhecem,
verdadeiramente, o Amazonas, ou a Amazônia e tampouco os
gaúchos conhecem o Rio Grande do Sul e a Pampa. Anos atrás,
numa aula de cursinho pré-vestibular, em Manaus, descobri que
não só os meus conhecimentos sobre a economia local
andavam MUITO desatualizados, desde a 7ª série, pelo
menos, como os próprios amazonenses andavam tão
desatualizados quanto eu. Sim, pois a informação que me
chegara, pela professora Sônia, de geografia, na cidadezinha da
região metropolitana de Porto Alegre, era a mesma que fora
repassada aos alunos da rede de ensino fundamental em Manaus e no
Amazonas. Incrivelmente! Segundo aprendi, a principal atividade
econômica, no Amazonas, ainda seria o extrativismo, ainda se
estudava o seringueiro como principal trabalhador e os seringais como
principais geradores de renda no Estado. Sim, ok, tinha-se o
conhecimento da indústria madeireira, do garimpo – no Pará
– e etc. Mas só depois, na mesma referida aula, é que
vim saber que estávamos TODOS redondamente enganados, quando o
professor, após bater ruidosamente na lousa e gritar um sonoro
“não”, explicou-nos que a indústria e o comércio
já haviam suplantado, e muito, o extrativismo, como principal
atividade econômica no Estado da região Norte. Se você
também não sabia, agora fica sabendo! Até
porque, não duvido nada que aquilo que aprendi na escola, há
uns 20 anos, quase, continua valendo no nosso sistema educacional, e
seu professor pode ser daqueles que se acham doutores e donos da
verdade.
Mas,
ora, porra, ainda tem quem acredite, mesmo aqui, no Rio Grande do
Sul, que a Revolução Farroupilha foi um movimento
político, separatista, republicano e abolicionista! E não
é verdade, desculpe! Não faz muito tempo, descobri que,
de fato, a motivação principal da revolução
não era política, mas sim, econômica! Todos os
principais líderes farroupilhas eram estancieiros,
fazendeiros, donos de vastas extensões de terra, criadores de
gado bovino e donos de charqueadas. Todos estavam descontentes com os
altos impostos que recaíam sobre o charque nacional,
tornando-o muito caro. Mas nem todos estavam descontentes com o
sistema político e social vigente no país, naquela
época. O principal líder farroupilha, Bento Gonçalves,
que depois veio a ser aclamado presidente, era monarquista, e
escravagista, convicto. O único idealista dentre os
farroupilhas, ou pelo menos, um dos únicos, era o general
Antônio de Sousa Netto. Idealista, porém, veja bem, não
era separatista! O general Netto queria que a revolta, que havia
começado por causa do preço muito alto do charque,
fosse, mesmo, uma revolução de cunho político e
ideológico, queria levá-la a todo o país, queria
implantar em nosso país o sistema republicano, como já
havia nos nossos vizinhos, Argentina, Uruguai, Paraguai, queria mais
autonomia para as províncias da época e, é
claro, queria o fim da escravidão no nosso país.
Infelizmente, eram poucos que queriam levar a revolução
adiante. Quanto ao resto da história, acho que você
desconfia...
Sabia
disso?? Pois é... nem eu! Fui saber desses pequenos detalhes
muito tempo depois... o que aprendi na escola, era e ainda é a
versão oficial, a que se ensina ainda por aqui, e imagino que
por aí também! O Eixo do Mal, se pudesse se sustentar
sozinho, já tinha “implodido” o resto do país, mas
como não dá, o “melhor” que eles conseguiram foi
criar as lendas de que o Rio Grande do Sul – e o gaúcho, por
conseqüência – é separatista e que o Acre não
existe, só pra ficar nesses dois exemplos de propaganda
difamatória que, fala a verdade, você conhece bem. Mas
enfim, muito gaúcho também continua sem conhecer
direito – e o que é mais assustador, não se importar
com isso – a sua própria história. O amazonense
também não conhece direito sua história e sua
geografia e a juventude desse Estado, tristemente, também não
se importa. O Eixo do Mal vai continuar, por um bom tempo, ainda, ao
que tudo indica, ditando-nos quem somos, como somos, quem é
brasileiro “de fato” e quem é “por karma”. Vamos
continuar, sem nem conhecer direito o outro, aceitando os
estereótipos que nos são impostos, alfinetando-nos
mutuamente, com picuinhas, preconceitos e xenofobia de cunho
regionalista. Fazer o quê, isso é Brasil! Me leva,
Kubrusly!




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