PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 25 de março de 2011

Xenofobias e Desconhecimento


Passam pela praça e acho graça. Falam mal de mim e eu acho graça. Falam mal do Sul... e já não acho mais nenhuma graça. Falam mal do Nordeste e eu não acho nenhuma graça. E fale mal do Norte perto de mim, se quiser arranjar briga!
Nasci gaúcho, do Estado do Rio Grande do Sul, portanto, sou do Sul. Morei em Manaus, por escolha e por identificação, que aí já é uma coisa que vai do coração, me tornei amazonense, portanto... sou do Norte, também! E dizia meu pai que seu avô teria vindo da Europa, talvez da França, ou de Portugal, mesmo... e teria se estabelecido aqui no Brasil, talvez lá por Pernambuco, ou pela Paraíba... nem ele sabia direito. Acho que nem chegou a conhecer o avô, deve ter ouvido o pai dele contar essa mesma história. Bom, mas enfim, presumindo que seja verdade, tenho também um pé no Nordeste, portanto. O que importa mesmo é que sou brasileiro. Não importa o que digam lá pelo Eixo do Mal. Até prova em contrário, sou brasileiro, sim. O falar mal, a idiotice, a deselegância, a piada de gosto duvidoso e de cunho preconceituoso e pejorativo, por fim, a xenofobia me causam muitos dissabores e deixam meu humor ligeiramente – ou bastante – bilioso. Sobretudo a xenofobia. “Ah, mas xenofobia é quando se odeia o estrangeiro, o estranho...” Não, o ódio irracional por pessoas que são do mesmo país que você, mas vêm de uma determinada cidade, ou região que não é a sua, pode ser considerado xenofobia, sim.
Como naquele caso do ódio contra os nordestinos, manifestado por uma aluna universitária paulistana, no site twitter, após a confirmação de que Dilma Rouchefe havia sido eleita presidente da República. Sou da teoria, ok, um pouco xenófoba, de que o paulista, o paulistano, principalmente, é quem gasta, é quem consome produtos e serviços, é quem faz a grana girar, quem movimenta a mola da economia. Quem realmente trabalha, no Estado, ou na cidade de São Paulo, é, sempre foi o nordestino. Nos últimos trinta, ou quarenta anos, também os nortistas, os cariocas, os gaúchos, os mineiros, os paranaenses... e por aí vai! Sabendo disso, ou não, aquela garota usou a eleição da atual presidente apenas como pretexto. Pra quê...? Ora, pra manifestar a sua intolerância, que nós sabemos ser de muitos, contra aquela gente que “invadiu” e tem “invadido” sua terra há anos, que têm “dominado” e “colonizado” culturalmente a sua grande e próspera cidade, que é próspera por que, mesmo?
Enfim, mas é fato, não se ofenda. É assim que eles pensam, tive várias demonstrações disso, conheço vários casos. Ademais, queiramos, ou não, todos somos xenófobos, em maior ou menor escala. Ou ninguém ainda se perguntou por que chamo o eixo Rio – São Paulo de Eixo do Mal? Há motivos que considero bastante razoáveis, para chamá-lo assim, mas em parte, há, sim, um certo preconceito e uma má-vontade para com nossos parentes paulistanos e cariocas. Sim, também acho paradoxal, detestar tanto a xenofobia e ser, ao mesmo tempo, um pouco xenófobo... mas enfim!
Muita gente tem confundido vacilo com xenofobia. Não é a mesma coisa, não, viu! Um bom exemplo disso é o episódio, já mundialmente conhecido, do Santa Etelvina ao Belém Novo, do baterista (?!) da bandinha de tinta guache Restart que, comentando sua expectativa em fazer um show em Manaus, no início do mês que vem, soltou a seguinte pérola: “que eles não sabiam como seria, se lá havia gente, ou civilização, e seria muito legal fazer um show no meio da floresta.” Sim, se estou bem lembrado, era mais ou menos isso mesmo. Claro, eu entendo, creio que toda indignação do povo amazonense é digna diante de tamanho absurdo, tamanho disparate. Mas tal disparate não foi cometido na forma de uma piadinha sem graça, um gracejo pejorativo e preconceituoso, como aquele feito por aquele famoso canastrão norte-americano, ao falar do nosso país. Naquele caso, sim, foi uma brincadeira, de muito mau-gosto, preconceituosa e xenófoba. Não foi o caso desse menino da Restart, o caso dele foi de absoluta ignorância! E um pouco de ingenuidade, também, ao falar a primeira merda que lhe veio à mente.
Mas enfim, a fúria e a indignação do povo amazonense foi, sim, justa, mas isso até muitos dos que se manifestaram contra a banda, pelo que pude acompanhar, através de páginas de comentários e em grupos de discussão, em blogs, começarem a confundir os canais, acharem-se vítimas da, já demasiadamente citada aqui, xenofobia por parte desses garotos, revidando, por sua vez, com mais xenofobia, incluindo em sua ira sem direção todo o Sudeste e Sul do país. Sem direção porque, primeiro, se somos vítimas da xenofobia alheia, neste país, é principalmente por conta do Eixo do Mal. Não inclua goianos, gaúchos, mineiros no seu ódio regionalista. Em segundo lugar, não finja que conhece o Sul do Brasil, que eu não finjo conhecer o Norte, ok? Estamos combinados assim?! Pois que vi a manifestação completamente equivocada de uma leitora de um blog aí, destilando seu ódio regionalista contra o Sul e Sudeste do país, mesmo dizendo-se nascida no Rio, e criada no Amazonas – chegando a dizer-se “mais amazonense que os amazonenses”. Minha filha... não diga isso... porque não é verdade! Você pode ser tão amazonense quanto o caboclo ribeirinho que vive lá pros lados do Cacau Pirêra, mas nunca mais do que ele! Pode ser, isso sim, mais bairrista. Eu me considero, por exemplo, bastante bairrista, enquanto amazonense, tanto, ou até um pouco mais, do que enquanto gaúcho. Ademais, vamos falar a verdade, não podemos cobrar do outro – nem mesmo dos moleques dessa bandinha horrível – que conheçam geografia, ou história do Brasil. Porque nós, brasileiros, sejamos do Norte, do Sul, do Sudeste, do Centro-oeste, ou do Nordeste, simplesmente não conhecemos nosso país! Não, amigo, nem mesmo a região, o Estado onde moramos, onde nascemos... sinto muito, sei que dói ouvir/ler isso, mas só até aceitarmos a verdade dos fatos: veja, o Brasil que conhecemos, ainda assim bem pouco, se reduz a Rio de Janeiro e São Paulo! Se estende a Salvador só em época de carnaval! Os dois únicos Estados, as duas únicas cidades que nos são mostradas pela grande mídia, sobretudo na tv, são... quais mesmo?! Rio de Janeiro e São Paulo!!! Você acha que as cenas que aquela afiliada de uma grande rede sediada no RJ mostra pra você, mostra também para o resto do país?! NÃO!!! Lógico que não! Isso fica apenas e tão somente para “consumo interno”, amigo. O que mostram da tua terra, para o resto do país, é aquilo que estiver mais de acordo com a linha editorial da mesma grande rede de mídia. Ponto. O amazonense, o gaúcho, o catarinense, o paraense, o acreano... esses não são mostrados como brasileiros típicos, ou ao menos semelhantes com aqueles encontrados no Rio, São Paulo, Minas, Bahia. Esses são mostrados como seres extraterrestres, exóticos, estranhos, pertencentes a regiões inóspitas e desconhecidas, com uma cultura e uma língua completamente diferentes daquilo que se subentende como “cultura nacional brasileira”.
Você que jura que conhece melhor o Sul, do que eu conheço o Norte, veja que dados curiosos: a maioria dos brasileiros acredita que no extremo Sul do Brasil, do seu próprio país, não existe verão, é sempre frio, até mesmo acreditam que não haja saída para o mar, que dirá, então, de praias! A imensa maioria dos brasileiros imagina que é absolutamente normal o sujeito andar pela capital gaúcha, ou pela região metropolitana, vestindo bombachas, calçando botas até quase os joelhos e usando chapéu de feltro. Muita, mas muita gente mesmo, ainda crê que se usem cavalos e charretes para se locomover dentro do perímetro das cidades gaúchas, não automóveis, motocicletas, ônibus. A maioria sequer imagina que possa haver uma linha de metrô ligando Porto Alegre à região metropolitana! E sim, há tal linha!! E amigo, em Porto Alegre, só se admite alguém andar pilchado, como se diz da roupa considerada tradicional do gaúcho, em épocas específicas do ano. Costuma ser no mês de setembro, e só. Em qualquer outra época do ano, é considerado ridículo quem faz isso. Bem como usar cocares e colares coloridos e andar sem camisa – os homens, obviamente – no Amazonas, fora do período das festas juninas e do festival folclórico, em Parintins, também soa ridículo. Ou me enganei...? Vá explicar isso pra um paulista, um baiano, um goiano... eles não vão crer, e se acreditarem, não vão aceitar! Porque aí, você sai fora do estereótipo regionalista, que não foi criado por nós, e sim pelos senhores das grandes redes nacionais de mídia e imprensa. Quer um exemplo? Mais um?? Ok, ligue na tv, no horário das 18 horas – ou 17h, dependendo de onde você se encontra – e preste atenção nos “gaúchos” mostrados numa novela aí. Note, o vilão, “gaúcho” da fronteira, usa bombacha, colete, lenço branco amarrado no pescoço. O mocinho, esse seria um “gaúcho” urbano, nascido e crescido na capital do Estado... muito embora, se vista igual a aqueles cowboys fajutos de Goiás e interior de São Paulo! Agora, vem a segunda parte da gincana: procure um gaúcho na sua cidade. Dependendo da cidade/região onde você vive, talvez encontre alguma dificuldade em achar um, mas gaúcho é que nem nordestino e chinês, em todo lugar tem um, pelo menos! Aí, quando encontrá-lo, veja, observe-o, seu jeito de vestir-se – que dificilmente será diferente do teu – de falar, etc. E aí?! Você pode vir a se decepcionar... pode vir, também, a descobrir o óbvio: a tv mente, amigo! Os estereótipos estão aí pra serem quebrados! Chato que você vai descobrir que seus preconceitos não condizem com a realidade.
Eu pude ver a realidade de Manaus, mas se assim não fosse, se não tivesse tido essa oportunidade, duvido que poderia confiar 100% nos meus conhecimentos sobre a região amazônica, também sobre Manaus, aqueles que adquiri ainda nos tempos de escola, posto que não seriam lá muito maiores que os dos meninos da tal Restart. Xenofobia?! Não! Ignorância, pura e simples! E sim, graças a nossas grandes redes midiáticas e ao nosso sistema educacional ultrapassado! Pois, falando dos dois casos que melhor conheço, sequer os amazonenses conhecem, verdadeiramente, o Amazonas, ou a Amazônia e tampouco os gaúchos conhecem o Rio Grande do Sul e a Pampa. Anos atrás, numa aula de cursinho pré-vestibular, em Manaus, descobri que não só os meus conhecimentos sobre a economia local andavam MUITO desatualizados, desde a 7ª série, pelo menos, como os próprios amazonenses andavam tão desatualizados quanto eu. Sim, pois a informação que me chegara, pela professora Sônia, de geografia, na cidadezinha da região metropolitana de Porto Alegre, era a mesma que fora repassada aos alunos da rede de ensino fundamental em Manaus e no Amazonas. Incrivelmente! Segundo aprendi, a principal atividade econômica, no Amazonas, ainda seria o extrativismo, ainda se estudava o seringueiro como principal trabalhador e os seringais como principais geradores de renda no Estado. Sim, ok, tinha-se o conhecimento da indústria madeireira, do garimpo – no Pará – e etc. Mas só depois, na mesma referida aula, é que vim saber que estávamos TODOS redondamente enganados, quando o professor, após bater ruidosamente na lousa e gritar um sonoro “não”, explicou-nos que a indústria e o comércio já haviam suplantado, e muito, o extrativismo, como principal atividade econômica no Estado da região Norte. Se você também não sabia, agora fica sabendo! Até porque, não duvido nada que aquilo que aprendi na escola, há uns 20 anos, quase, continua valendo no nosso sistema educacional, e seu professor pode ser daqueles que se acham doutores e donos da verdade.
Mas, ora, porra, ainda tem quem acredite, mesmo aqui, no Rio Grande do Sul, que a Revolução Farroupilha foi um movimento político, separatista, republicano e abolicionista! E não é verdade, desculpe! Não faz muito tempo, descobri que, de fato, a motivação principal da revolução não era política, mas sim, econômica! Todos os principais líderes farroupilhas eram estancieiros, fazendeiros, donos de vastas extensões de terra, criadores de gado bovino e donos de charqueadas. Todos estavam descontentes com os altos impostos que recaíam sobre o charque nacional, tornando-o muito caro. Mas nem todos estavam descontentes com o sistema político e social vigente no país, naquela época. O principal líder farroupilha, Bento Gonçalves, que depois veio a ser aclamado presidente, era monarquista, e escravagista, convicto. O único idealista dentre os farroupilhas, ou pelo menos, um dos únicos, era o general Antônio de Sousa Netto. Idealista, porém, veja bem, não era separatista! O general Netto queria que a revolta, que havia começado por causa do preço muito alto do charque, fosse, mesmo, uma revolução de cunho político e ideológico, queria levá-la a todo o país, queria implantar em nosso país o sistema republicano, como já havia nos nossos vizinhos, Argentina, Uruguai, Paraguai, queria mais autonomia para as províncias da época e, é claro, queria o fim da escravidão no nosso país. Infelizmente, eram poucos que queriam levar a revolução adiante. Quanto ao resto da história, acho que você desconfia...
Sabia disso?? Pois é... nem eu! Fui saber desses pequenos detalhes muito tempo depois... o que aprendi na escola, era e ainda é a versão oficial, a que se ensina ainda por aqui, e imagino que por aí também! O Eixo do Mal, se pudesse se sustentar sozinho, já tinha “implodido” o resto do país, mas como não dá, o “melhor” que eles conseguiram foi criar as lendas de que o Rio Grande do Sul – e o gaúcho, por conseqüência – é separatista e que o Acre não existe, só pra ficar nesses dois exemplos de propaganda difamatória que, fala a verdade, você conhece bem. Mas enfim, muito gaúcho também continua sem conhecer direito – e o que é mais assustador, não se importar com isso – a sua própria história. O amazonense também não conhece direito sua história e sua geografia e a juventude desse Estado, tristemente, também não se importa. O Eixo do Mal vai continuar, por um bom tempo, ainda, ao que tudo indica, ditando-nos quem somos, como somos, quem é brasileiro “de fato” e quem é “por karma”. Vamos continuar, sem nem conhecer direito o outro, aceitando os estereótipos que nos são impostos, alfinetando-nos mutuamente, com picuinhas, preconceitos e xenofobia de cunho regionalista. Fazer o quê, isso é Brasil! Me leva, Kubrusly!

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