PESCANDO NO BODOSAL

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Aeroportos, Trem e Bala


22 de Abril de 2011. Nesta data, por volta do ano 1500, segundo os livros de história, Pedro Álvares Cabral teria “descoberto” o Brasil. Acredito no que dizem vários historiadores, que ele veio para cá com uma missão bem simples, tomar posse do nosso território para a coroa portuguesa. Enfim, não é por esse motivo que hoje é feriado. Acontece que hoje é a sexta-feira da semana santa, Sexta-feira da Paixão, segundo a tradição Cristã. Não estou discutindo isso. Enfim, hoje faltam exatamente doze dias da data da minha viagem. Já falei sobre isso, é minha terceira viagem, mas sinto-me a cada dia mais nervoso, mais ansioso, como se essa fosse a primeira viagem – e é como se fosse, fazem quatro anos que não vôo de avião, nem vou pra lá.
De qualquer forma, nos últimos quatro anos sempre procurei estar informado, mesmo que haja alguma insegurança quanto ao que vou encontrar na “minha” cidade, já sei mais ou menos o que esperar desse meu reencontro com Manaus. O que realmente me causa um certo receio, alguma preocupação, é com a viagem em si. O que esperar da situação dos aeroportos, do vôo, das aeronaves, aí, já não sei. As informações que me chegam são quase sempre preocupantes. Não sei exatamente o que pode acontecer, já escolhi um vôo sem conexões porque, bem, tenho pavor só de pensar na possibilidade de haver atrasos e possibilidade de perder o vôo de conexão, um troço assim. Já vou ter que despachar bagagem, coisa que nunca fiz, que sempre que pude, aliás, eu evitei, mais por medo do estravio que por comodidade. Que por mim, eu despachava sempre, só ficaria com objetos pessoais e jornal na mão, mermo, o resto podia ir no bagageiro do avião que pra mim até seria melhor. Mas agora, por circunstâncias outras, terei de arriscar, terei de despachar uma mala, pelo menos. E isso deixa-me bastante inseguro.
Estavam falando na TV, esses dias, da situação dos aeroportos e da malha aérea do país agora, no nosso momento atual, e das projeções para a tal da Copa do Mundo, 2014. Era a primeira de uma série de reportagens especiais feitas por um telejornal noturno de uma grande rede midiática do Eixo do Mal. E pelo que pude ver, as projeções não são muito animadoras, antes pelo contrário! No outro dia pela manhã, no telejornal matutino da mesma emissora, uma reportagem mostrava a situação de improviso total do aeroporto de Goiânia, capital de Goiás. Ok, não será uma das cidades-sedes da Copa 2014, mas o aeroporto de Goiás seria estratégico para Brasília, que será cidade-sede. E a Infraero estava, segundo a reportagem – e a própria Infraero – construindo um “puxadinho”, para servir de terminal “provisório” para a demanda cada vez maior de passageiros. Claro, acho bem legal a idéia de uma Copa do Mundo no Brasil, sou totalmente a favor de que ocorra um evento dessa magnitude no país. Claro! Desde que o país tenha condições para sediar uma copa e/ou uma Olimpíada. O que não é o caso. A meu ver, seria melhor cancelar, ou adiar a Copa aqui no Brasil, pra um momento mais propício. Sim, sem dúvida! No momento, não estamos preparados nem pra dar conta da demanda interna e tampouco para a projeção de aumento dessa demanda para os próximos anos. No caso dos aeroportos, ainda, óbvio que temos outros gargalos, mas... a Infraero sabia há tempos que a demanda seria maior que o espaço físico para dar conta dela, isso já há uns bons cinco anos. Só que não buscou-se nenhuma forma de se atender melhor essa demanda, de se aumentar os espaços já existentes, nem de se criar novos espaços. E um evento como a Copa e a Olimpíada vai criar mais demanda do que as obras do governo pretendem suprir.
Não, claro, também acho ótimo que mais pessoas estejam viajando de avião, estejam indo conhecer outros países, tanto desenvolvidos, como França, Itália, Portugal, quanto os subdesenvolvidos, como Tailândia, São Paulo... acharia ótimo mesmo se a infraestrutura acompanhasse esse crescimento, esse incremento de demanda. A malha aérea, dizem, teria condições de aumentar sua oferta, mas a infraestrutura... bem!
Mas vou falar a verdade do que penso, gosto de voar, viajar de avião, coisa e tal, mas acho que o avião deveria ser um meio de transporte utilizado só para viagens internacionais, ou como último recurso, em caso de extrema necessidade, para viagens mais longas. Acho que as viagens aéreas deveriam ser mais caras, mesmo, e que o padrão de qualidade deveria continuar sendo aquele que foi perdido, o da VARIG. “Oh, como você é elitista! Então como faríamos, como você faria, pra cruzar o país?” Ora, pra que temos estradas?! Para que temos essa imensidão de rios?! Na Europa, você pode cruzar praticamente o continente inteiro de trem. É romantismo da minha parte, eu sei, mas gostaria muito que pudéssemos cruzar o país de trem. Talvez complementando com outros meios de transporte, os barcos e balsas, os ônibus intermunicipais, e até mesmo os conurbados. De preferência, perfeitamente integrados, ou quase.
Sim, eu sei, já estou ultrapassando os limites do romantismo e indo às raias da utopia. Utopia esta que deu certo em outros lugares, e que, embora compreenda por que não daria certo por aqui, não deixo de sonhar com algo pelo menos parecido. Quem sabe, algum dia... o país estaria melhor integrado, se assim fosse. Poderíamos até sediar uma Copa. Agora, do jeito que estamos, nossas capitais estaduais praticamente isoladas umas das outras, nossos aeroportos acanhados, sem nem um projeto eficaz, a curto e médio prazos, um projeto para a instalação de um trem-bala que, para ligar apenas três cidades no Eixo do Mal, custará o preço de uma linha que, seguramente, poderia ligar Belém do Pará a Curitiba, no Paraná... melhor ceder a vez para o Qatar... que tal pegarmos a Copa de 2022? Iríamos, pelo menos, ganhar um tempinho pra nos adequar a nossas próprias necessidades...

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