Ele acordou atrasado, às 5:30 da manhã, correu para
se ajeitar, ajeitar as suas coisas, bebeu uma xícara de café pelando de quente,
também correndo, colocou os sapatos nos pés, pegou as chaves de casa, colocou
sua bolsa no ombro e correu para o ponto do ônibus, para pegar o seu para o
trabalho.
Chega às 6:20 na parada, um tanto cheia, esperando
o “bendito” ônibus passar. Conforme o tempo vai passando, o seu ônibus não vem,
a parada começa a esvaziar, depois a encher de novo... e ele começa a
irritar-se. Ou o ônibus das 6:30 passou antes, ou não passou e nem vai passar! Sua
irritação vai aumentando com o passar do tempo, tanto mais quando ele vê pelo
menos seis ônibus da linha que ele tem de pegar passarem na direção do Centro,
enquanto que nenhum passa na direção do bairro.
Nisso, passa-se uma hora. Uma hora inteira em que
ele está ali, parado no ponto, começando a sentir o calor e o sol começa a
queimar, lentamente, sua pele, já quase completamente esturricada. A essa
altura, ele já está, praticamente, praguejando alto, abusando do palavreado
chulo, contra o maldito ônibus que não vem. Ele pensa que vai ter de enfrentar
o sol do meio-dia para terminar o seu trabalho daquele dia, pensa em explodir o
maldito ônibus, assim que ele chegar naquela parada, pensa em xingar o
motorista e tirar satisfações pela demora daquele cretino. Pensa em dar
meia-volta e seguir pro outro lado, já que seu dia de trabalho fora
comprometido, mesmo... até que enfim...
Até que enfim! Não, não é o ônibus que chega, para
cessar com a onda de raiva e impropérios! Se fosse o ônibus, provavelmente iria
arrefecer sua ira, mas não iria cessá-la... ele ainda continuaria com muita
raiva pelo atraso, doido pra descontar no cobrador fuleiro e no motorista bagaceiro.
Não, só mesmo ela, sua musa, sua amiga predileta, sua paixão platônica, seria
capaz de acalmar aquele cabeça quente! Ele a viu se dirigindo para a parada do
outro lado da avenida e, por um instante, ele esqueceu o ônibus que não vinha,
um sorriso besta apareceu em seus lábios. Pensou em chamar sua atenção, mas
preferiu não fazê-lo: não queria deixá-la envergonhada logo de manhã cedo. Quase
sentiu-se feliz por seu ônibus atrasar, pois assim pôde vê-la, se dirigindo
para o seu ponto, para também pegar seu ônibus para seu trabalho. Notou que ela
olhava para a frente, reto, como que concentrada no seu caminho. No seu
caminho... ou no seu dia? Ele se perguntou em que ela estaria pensando, se
estaria preocupada com alguma coisa. Aparentemente, ele não foi visto, mas
provavelmente porque ela estaria com a cabeça muito ocupada pra ver quem quer
que fosse.
Enfim, chegou seu ônibus, ele teve de interromper
seus pensamentos, teve de embarcar no ônibus e deixá-la para trás, perdê-la de
vista. Isso sempre lhe dá um aperto no coração... mas ele ainda dá mais uma
olhada para trás. Uma última olhada, antes que o dia volte a ficar cinza.

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