PESCANDO NO BODOSAL

domingo, 14 de agosto de 2011

O Velho Matrinxã


Domingo, dia dos pais. Como no caso dos dias das mães, das crianças, dos avós, dos namorados, da amante... tem se tornado mais uma data cujo significado é meramente comercial. Não tenho certeza, mas acho que as escolas públicas não fazem mais aqueles trabalhinhos das aulas de educação artística, para dar-se de presente para os pais, ou para as mães, conforme a data.
Hoje em dia, os presentes oferecidos pelos grandes magazines, a preços módicos e em suaves prestações a perder de vista, são mais sofisticados e vão além da meia, gravata e/ou caixa de ferramentas. Infelizmente porque, bem, agora poderia estar ganhando um celular, ou um tablet, ou até mesmo um bom whisky importado, que com certeza seria muito apreciado, no seu dia.
Pois é, faz alguns anos que o velho matrinxã deixou o nosso convívio. Não o temos mais para comemorarmos o dia dos pais. O velho Matrinxã era velho mesmo: nasceu na primeira metade do século passado, a II Grande Guerra era um fato da atualidade, e Getúlio Vargas era o presidente da República, na sua mocidade. O velho Matrinxã gostava de contar histórias daquela época. Meu irmão mais novo e eu gostávamos de escutar essas histórias, algumas das quais, hoje em dia, desconfio que não fossem exatamente verídicas. E se o fossem, talvez não tivessem tido sua participação, a não ser como expectador, ou ouvinte!
A confusão já começava por sua origem: segundo minha mãe, os Matrinxãs da nossa família, teria contado ele, teriam vindo de outros rios, dos da França... mas para mim, ele contara outra história, dissera ele que seu avô e seu pai seriam nordestinos, vindos, talvez, de Pernambuco, ou da Paraíba, para o Rio Grande do Sul. Se seu avô era europeu, ou brasileiro, não sabemos, mas sua mãe era argentina! Matrinxã gaúcho, filho de nordestino com correntina!
O velho Matrinxã nos contava também dos seus tempos como funcionário civil da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, então ainda capital federal. Da rivalidade que havia com os paulistas que lá estavam, que nunca engoliram aquele gaúcho da fronteira como presidente da República. Algumas de suas histórias me fizeram interessar por assuntos que depois fui estudar mais profundamente, como um episódio em que colegas seus foram hipnotizados por um oficial, um nordestino, profundo estudioso da psicologia humana. Depois fui procurar informações sobre a psicologia, o subconsciente, as manifestações da nossa imaginação, etc. Em outro momento, ele contou-nos ter sido testemunha, com mais dois amigos, um capitão e mais uma porrada de gente, de um estranho acontecimento, envolvendo um objeto desconhecido, de forma circular, que pairava, ao que parece, sobre a lagoa Rodrigo de Freitas. Segundo ele nos contou, o objeto era imenso e ficou ali, flutuando sobre as águas por vários minutos, fazia evoluções, desaparecia no horizonte, voltava... até que, enfim, alçou vôo e desapareceu no espaço! Plena manhã! Não sei se a história contada era verídica, mas de qualquer forma, me atiçou a curiosidade sobre esses objetos não-identificados e seus tripulantes, que de vez em quando vêm nos visitar.
Com o velho Matrinxã fizemos viagens inesquecíveis, nas férias! Fomos, diversas vezes, no verão, a Florianópolis. Floripa, a ilha da magia... e hoje, dos turistas argentinos! Naquele tempo, nem ia tanto argentino assim pra lá. O velho Matrinxã gostava muito das praias catarinenses. Olhando as orlas gaúcha e paulista, você logo entende o porquê. Ele nos levou até lá num Karman Ghia, numa Brasília – azul, não amarela - , numa Caravan e até num Maverick, ano 1978, motor V8! Isso que é estilo, hein!? Enfrentamos enchentes e deslizamentos de terra, na estrada da capital catarinense! Lembro que, enquanto meu pai dirigia, víamos uma pedra imensa descendo morro abaixo e crescendo pra cima de nós! Férias radicais, mas radicais mesmo, eram com o velho Matrinxã! Satisfação garantida, ou seu dinheiro perdido!
Não é só neste dia que sinto falta do velho Matrinxã. Várias vezes acontece de nos lembrarmos dos bons tempos, dos bons momentos passados com nosso pai. Sentimos saudades das histórias que ele nos contava, dos jogos de xadrez – também de canastra, dominó, etc – das discussões filosóficas sobre qualquer assunto. Em sua atual morada, feliz dia dos Pais, velho Matrinxã! Muito grato por tudo.

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