De
manhã até a noite ali, sentado, esperando... esperando,
na sua mesa de trabalho, em frente à janela. Faça frio,
ou calor; faça chuva, ou faça sol, esperava ela passar.
O dia não poderia começar sem que a garota passasse, no
seu andar gracioso e altivo. O dia não estava completo, sem
ver seus olhos castanhos, sua pele morena, seus cabelos bem
penteados, seu sorriso, seus piercings e seus brincos.
Todas
as manhãs, o que ainda dava-lhe forças para levantar,
para não desanimar e se acomodar de vez era a possibilidade de
olhar pela janela e vê-la passar. Ter a vizinha da frente, nem
que fosse pelo olhar, apenas, guardada na retina, sempre tão
bonita, com suas calças, suas blusas, seus vestidos...
observar os discos que trazia para casa, as revistas e os jornais
que lia, tentar adivinhar quais músicas gostava de ouvir,
quais autores e livros eram seus favoritos, se preferia gatos a cães.
Imaginava, algum dia, ir até lá fora, atravessar a rua
e trocar algumas palavras com ela, presentear-lhe, quem sabe, com o
DVD do seu filme favorito... sonhos, sonhos! Ele apertava os olhos,
tentando voltar para a vida real, para a velha escrivaninha em frente
a janela. A vizinha passa por ela, olha para o seu lado, sorri na sua
direção. De vez em quando ele a vê sorrir, de vez
em quando ela parece aperceber-se de que é observada, que
provoca o interesse dele, de vez em quando ele sente que seu sorriso
é para ele. E ele sorri de volta, timidamente. É assim
que a tem, paciência...
Outro
dia ele a viu, numa manhã ensolarada, passeando, abrindo o seu
mais belo e largo sorriso, acenando, parecendo ser para ele. Fez
menção de acenar de volta, logo o sorriso desmaiou,
logo mudou de ideia: não era com ele. Outro rapaz correra na
direção dela, era o sorriso dele que correspondia ao
dela, não era o seu. Sorte dele, naquele dia ela nem reparar
na janela aberta, do outro lado. Sorte dele a janela não
transparecer todo o ambiente, de repente tão pesado e
claustrofóbico, não deixá-la perceber o ciúme
que nele se instalara, que teria dificuldades em disfarçar.
Enfim, já fazia muito tempo, estava em frente àquela
janela. Talvez fosse hora de fechá-la, ou quem sabe, de trocar
a paisagem...


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