Após
o almoço, lá vem ela: a leseira, não importa
onde eu esteja, na Praça São Sebastião, debaixo
das árvores que ainda têm, na prainha atrás da
Usina do Gasômetro, no escritório, ou no mundo da Lua,
ela é Baré, com certeza, da rocha que é.
Desconfio que até no dia do Fim do Mundo, após o
meio-dia, ela virá! Ah, não voltei o mesmo lá do
Norte, ela nunca mais me deixou, toma conta de mim dia sim, dia
também... oh, leseira baré! Um sono, um cansaço,
uma preguiça, até de pensar! Sabe, quando os olhos
pesam, parecem ter vontade própria, insistindo em se fechar
mesmo que você não queira? Pois é...
E
a leseira lembra sono, que parece que ainda não recuperei,
desde a noite de segunda-feira. Não conseguia dormir, tamanho
o calor, o ventilador não dava conta, o suor escorria, o bafo
quente sufocava até os pensamentos. Só queria dormir,
um pouco que fosse, só queria que aquele ventilador fosse mais
potente, ou melhor, se transformasse num aparelho split, ou qualquer
coisa assim! Desejava que a chuva, que estava prevista, chegasse
logo. Não me importava mais nem que fosse uma tempestade capaz
de inundar e levar tudo, desde que também levasse aquele calor
abafado embora. Naquela hora, encharcado umas dez vezes de suor só
tinha um desejo: estar bem longe, do meu quarto abafado, do calor da
noite, em um outro lugar.
Cara,
como gostaria de estar numa praia, àquela hora! Podia ser o
Cacau Pirêra, prainha do Gasômetro, praia da Figueira!
Podia ser Capão da Canoa, Quintão, Pinhal, Cidreira...
não, não precisava ser praia de cartão postal!
Qualquer uma já servia! Num calor daqueles, impossível
é dormir, impossível é não querer se
teletransportar para uma ilha paradisíaca, para qualquer beira
de rio, de lagoa, ou de mar, ouvir o som da brisa que acaricia a
gente, dormir balouçando numa rede branquinha, como a areia, o
pé descalço deslizando na água, quem sabe, quem
sabe, um certo alguém ao lado, aproveitando contigo o teu
paraíso pessoal... ah, amigo, mesmo com a chuva e o climinha
mais ameno que faz hoje, queria estar lá, espairecer,
descansar o cérebro, repassar o ano e projetar alguma coisa
para janeiro... só aproveitar a paisagem e curtir um dia de
cada vez!

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