Lembro
da primeira vez que fui a Iranduba. Ainda não tinha a Ponte do
Bilhão, se chegava de balsa, pelo porto do Cacau Pirera. Não
sou motorista, sou pedestre, por isso gostava mais da viagem de
balsa. Enfim... não fiquei no Cacau, fui até o Centro
de Iranduba, num ônibus que me lembrou os “bons e velhos”
coletivos da Real Rodovias – mais velhos do que bom, tanto num caso
quanto no outro. Lá chegando... como explicar de uma forma que
vocês possam entender...? Bem, a sensação não
foi de estranhamento, mas sim de familiaridade. Não, não
dejá vù, como se já tivesse estado ali. De
familiaridade, mesmo! “Oh, mas você não é
nortista, deve ter estranhado muito, você vem de um lugar muito
diferente...” ouvi um radialista e ex-senador cara de pau dizendo
mais ou menos isso, outro dia, se referindo ao caso de uma mulher que
veio do Mato Grosso, em busca de tratamento pro filho e tal. Mas não
vamos falar dele, não por agora! E não, as diferenças
não conseguem ser tão gritantes fora dos bancos de
escola e da telinha do plim-plim!
Quando
cheguei no centro de Iranduba, percebi bem uma ideia pré-concebida
desmoronando diante dos meus olhos. Ali, no centro da cidade, me vi
como se estivesse no centro de Sapucaia, ou de Esteio! Ok, talvez há
uns 15, ou 20 anos, mas ainda assim, me senti de volta a Sapucaia,
tendo apenas atravessado uma ponte! Tão próximo da
capital do Estado – 25 km separam Iranduba de Manaus, mais ou menos
a mesma distância entre Sapucaia e Porto Alegre – e com um
certo ar mais bucólico, interiorano... isso, as duas cidades
têm, muito!
Parece
que os brasileiros sentimos um certo fascínio por nos
considerarmos num mundo à parte, num mundo ocupado somente
pelo Brasil, que parecemos não gostar muito da ideia dele como
um só país. Os sulistas e nortistas fomos ensinados a
ver-nos tão diferentes quanto os ingleses e os franceses. As
grandes redes midiáticas de Rio e São Paulo colaboram
bastante para nos vermos assim, fortalecem os estereótipos e
escondem os pontos em comum.
Por
isso que escrevi, outro dia, um outro texto, brincando com a série
Fringe! Parece que vivemos em mundos distantes, quando encontramo-nos
com as semelhanças, com o que achamos que temos de bom, ou de
mau, refletido num paraense, num catarinense, num pernambucano, é
como se tivéssemos atravessado um portal para uma outra
dimensão, porque, afinal, aprendemos que o Brasil são
vários países, várias nações, com
culturas muito distintas, somos levados a crer que sair de Rio
Branco, no Acre, rumo a Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande
do Sul, equivaleria a uma viagem de Portugal ao Japão, o que,
talvez infelizmente pra você, não é bem verdade!
A
sensação de estar atravessando por mundos paralelos tem
aumentado, este ano. Lembro disso a cada dia quente que tem feito,
abafado do amanhecer até o meio da madrugada! No supermercado
vi costela de tambaqui, tem pra vender – ok, é do Mato
Grosso e deve ser de açude, mas quem não tem cão...
outro dia vi no jornal, a mesma rede de supermercados anunciar
tambaqui fresco, inteiro, à venda! Imagine a felicidade,
qualquer dia vai sair ruelo assado na brasa, uma caldeirada, uma
costelinha grelhada! Posso fazer suco de açaí, cupuaçu,
graviola e até taperebá! Qualquer mercado tem as polpas
congeladas pra você comprar! No litoral encontrei uma boa
tapiocaria e tomei sorvete de cupuaçu, no verão
passado. Talvez o planeta esteja invertido, mas, quem sabe, eu esteja
em alguma terra paralela, muito parecida com a nossa, mas onde as
nossas culturas e climas, tão diferentes, sejam bem mais
semelhantes!

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