PESCANDO NO BODOSAL

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Paralelas (Parte #2)

Lembro da primeira vez que fui a Iranduba. Ainda não tinha a Ponte do Bilhão, se chegava de balsa, pelo porto do Cacau Pirera. Não sou motorista, sou pedestre, por isso gostava mais da viagem de balsa. Enfim... não fiquei no Cacau, fui até o Centro de Iranduba, num ônibus que me lembrou os “bons e velhos” coletivos da Real Rodovias – mais velhos do que bom, tanto num caso quanto no outro. Lá chegando... como explicar de uma forma que vocês possam entender...? Bem, a sensação não foi de estranhamento, mas sim de familiaridade. Não, não dejá vù, como se já tivesse estado ali. De familiaridade, mesmo! “Oh, mas você não é nortista, deve ter estranhado muito, você vem de um lugar muito diferente...” ouvi um radialista e ex-senador cara de pau dizendo mais ou menos isso, outro dia, se referindo ao caso de uma mulher que veio do Mato Grosso, em busca de tratamento pro filho e tal. Mas não vamos falar dele, não por agora! E não, as diferenças não conseguem ser tão gritantes fora dos bancos de escola e da telinha do plim-plim!
Quando cheguei no centro de Iranduba, percebi bem uma ideia pré-concebida desmoronando diante dos meus olhos. Ali, no centro da cidade, me vi como se estivesse no centro de Sapucaia, ou de Esteio! Ok, talvez há uns 15, ou 20 anos, mas ainda assim, me senti de volta a Sapucaia, tendo apenas atravessado uma ponte! Tão próximo da capital do Estado – 25 km separam Iranduba de Manaus, mais ou menos a mesma distância entre Sapucaia e Porto Alegre – e com um certo ar mais bucólico, interiorano... isso, as duas cidades têm, muito!
Parece que os brasileiros sentimos um certo fascínio por nos considerarmos num mundo à parte, num mundo ocupado somente pelo Brasil, que parecemos não gostar muito da ideia dele como um só país. Os sulistas e nortistas fomos ensinados a ver-nos tão diferentes quanto os ingleses e os franceses. As grandes redes midiáticas de Rio e São Paulo colaboram bastante para nos vermos assim, fortalecem os estereótipos e escondem os pontos em comum.
Por isso que escrevi, outro dia, um outro texto, brincando com a série Fringe! Parece que vivemos em mundos distantes, quando encontramo-nos com as semelhanças, com o que achamos que temos de bom, ou de mau, refletido num paraense, num catarinense, num pernambucano, é como se tivéssemos atravessado um portal para uma outra dimensão, porque, afinal, aprendemos que o Brasil são vários países, várias nações, com culturas muito distintas, somos levados a crer que sair de Rio Branco, no Acre, rumo a Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul, equivaleria a uma viagem de Portugal ao Japão, o que, talvez infelizmente pra você, não é bem verdade!
A sensação de estar atravessando por mundos paralelos tem aumentado, este ano. Lembro disso a cada dia quente que tem feito, abafado do amanhecer até o meio da madrugada! No supermercado vi costela de tambaqui, tem pra vender – ok, é do Mato Grosso e deve ser de açude, mas quem não tem cão... outro dia vi no jornal, a mesma rede de supermercados anunciar tambaqui fresco, inteiro, à venda! Imagine a felicidade, qualquer dia vai sair ruelo assado na brasa, uma caldeirada, uma costelinha grelhada! Posso fazer suco de açaí, cupuaçu, graviola e até taperebá! Qualquer mercado tem as polpas congeladas pra você comprar! No litoral encontrei uma boa tapiocaria e tomei sorvete de cupuaçu, no verão passado. Talvez o planeta esteja invertido, mas, quem sabe, eu esteja em alguma terra paralela, muito parecida com a nossa, mas onde as nossas culturas e climas, tão diferentes, sejam bem mais semelhantes!

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