PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Bom Brasileiro


Pois hoje tirei pra rir porque tô mais pra chorar. É que é tradição, sexta-feia você não pode ficar de mal com o mundo, tem que sorrir, dar risada, alegrar-se porque tá começando o fim de semana, mesmo que sem muitas perspectivas boas, nem grana, nem com quem sair, desopilar, beber, e blá-blá-blá... é, rir demais acaba um pouco com minha produtividade no trabalho, mas a depressão afeta muito mais, então vamos rir! Vamos tentar insistir em rir e achar graça da vida!
Pois já sabem, também, que tô longe de casa. Ou do lugar onde chamo de lar. Se não sabiam, estão sabendo, pois já falei umas trocentas vezes por aqui. Aqui onde tô, tem metrô. E eu o pego, de segunda a sexta, de onde estou morando até o trabalho. E já contei do tipo de gente que cruza conosco, nas passarelas de acesso das estações do metrô. E já devo ter contado do tipo de gente que me aborrece dentro dos trens e das estações – e o seu entorno.
Hoje, talvez intuitivamente, pois antes de ler o fantástico texto do professor Sérgio Freire – que você pode ler aqui – já tinha decidido que não iria me deixar aborrecer. Tanto que, vendo um apressadinho, um rapaz dos seus vinte e poucos anos, vestido com camisa social cor creme e calça jeans escura, cabelo cortado bem curtinho, com uma daquelas bolsas estilo executivo a tira-colo, passar por mim esgueirando-se rapidamente, feito uma osga passando pela fresta da madeira, o máximo que consegui sentir foi pena do pobre indivíduo.
É que hoje, justo hoje, justo na sexta-feira, todo mundo resolveu descer, às 9 horas da manhã, a passarela em bloco. O apressadinho passou por mim e tudo o que pude fazer por ele foi sorrir e desejar-lhe sorte, pois já antevia o que ia acontecer logo ali adiante – e fatalmente aconteceu: ele não conseguiu mais passar por entre o mar de gente, tanto que o sujeito grandão e desengonçado que ele havia deixado pra trás – e que no caso era eu – quase pisou nos seus calcanhares pelo menos duas vezes. Na maioria das vezes me irritam os apressadinhos justamente por isso, fatalmente os encontro na “curva” da passarela, atravancando o caminho. Deve ser coisa da nossa cultura. Brasileiro é mesmo um povo fodástico, os apressadinhos querem chegar antes da gente lá adiante, pra ficar tastaveando, como diz minha mãe, bem na nossa frente, e os lerdos parece que, quando percebem que estão num passo mais lento que o nosso, fazem questão de andar ainda mais lentos, na nossa frente, e sem dar passagem, nem que disso dependam suas vidas!
E enquanto descíamos, aquele belo grupo compacto de pessoas bonitas, elegantes e sinceras, vinha subindo, do outro lado da passarela, um casal de anciãos. E não sei exatamente sobre o que os dois conversavam, mas tenho uma vaga ideia. O homem falava à senhora, que, imagino, era sua mulher: “Antigamente poucos chegavam aos 60 anos...” Imagino eu que estivessem falando sobre... a longevidade! E me peguei pensando...
Muitas vezes ouvi minha mãe dizer que “muita gente” chegava aos 60 anos, nos “antigamente”. Porém já tentei argumentar com ela, dizendo que “muita gente” não é o mesmo que “a maioria”! Não faz muito tempo, uns 50 anos, mais ou menos, era raro alguém chegar até os 60 anos de idade. Ponto! Com saúde, ou sem saúde, eram raros os que chegavam à casa dos 60, mais raros ainda os que passavam disso! Há quase vinte anos, meu pai falecia, antes de completar 67 anos, quer dizer, ele foi um desses que não venceram essa barreira.
Lembro que há uns 20 e poucos anos, quando eu era menino, quando se ouvia a notícia da morte de algum famoso, de alguma celebridade, ou autoridade, ou o que o valha, a gente ainda comentava que o dito já tinha vivido muito, caso tivesse chegado à famigerada casa dos sessenta. Hoje, já se ouve falar que fulano morreu e se surpreende por ter partido “tão moço”... nessa mesma casa aí, dos sessenta! É, a gente não se apercebe, na maioria das vezes, dessas sutis mudanças de parâmetros. Aí a gente pensa mais ou menos como minha mãe: que isso sempre foi assim, que sempre foi normal ter tanta gente chegando a uma certa idade, quando na verdade aquele nosso tio-avô lá de Nhamundá era um dos casos raros de pessoas longevas! E podemos perceber, duma hora pra outra, que nem foi tão longevo assim! Há uns anos atrás, eu ficaria contente se chegasse a idade que meu pai chegou. Hoje, se puder, penso que gostaria de chegar relativamente bem aos 90, talvez 100 anos! Por que não? Talvez, até lá, isso seja tão normal e corriqueiro quanto se chegar aos 60 é hoje. E quanto nunca foi antes! Ainda mais num país como o Brasil!
Acho que aqui, em relação a outros países, principalmente os desenvolvidos, há um fenômeno que não se repete em nenhum outro lugar no mundo! Sim, pois mesmo não tendo a estrutura que tem nos países da Europa ocidental, por exemplo, como Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, França, etc, já estamos chegando à expectativa média de vida desses países! Mesmo com um sistema de saúde deficitário, mesmo faltando saneamento básico, mesmo com os índices alarmantes de insegurança – que não se resume só à criminalidade, não senhor, falta segurança nas estradas, melhor educação no trânsito, o risco de se viver em locais irregulares e insalubres, etc – ainda há uma boa porcentagem da população, quase metade, com uma elevada expectativa de vida.
Sei de um blogueiro que sigo no site de microblogs twitter, que critica todos aqueles lugares-comuns, todos aqueles jargões e motivos de que se fala pra “se ter orgulho de ser brasileiro”. Às vezes concordo inteiramente, ultimamente tenho considerado pura e simplesmente como rabugice de carioquinha de classe média alta que preferia ser “daselite”, mesmo. Preferia e não pode, sabe coé? Então. Pois esse moço tem sérias dúvidas sobre o que o brasileiro teria de mais que outros povos e outros indivíduos de outras nacionalidades. Pois hoje, me peguei pensando nisso, e cheguei a conclusão, que provavelmente amanhã, ou depois, vai se mostrar parcial ou inteiramente equivocada, mas enfim: o que nós temos de mais que os outros povos, qual a “vantagem” do brasileiro, se podemos dizer assim? Acho eu que é a teimosia! Pois, se apesar de todos os problemas listados, o brasileiro médio está vivendo mais... só pode ser por teimosia! Com essa saúde e saneamento básico ainda a níveis africanos, na imensa maioria de nossas cidades... a única explicação plausível é que somos um povo muito teimoso!
Apesar dos altos impostos, da falta de subsídios, das intempéries e outros fatores internos e externos, o país quebra recordes de safra de diversos produtos agropecuários há uns quinze anos seguidos! Apesar da imensa carga tributária, dos altos juros, da falta de crédito aos pequenos e microempreendedores, da baixa do dólar, da inflação, parcialmente controlada, dos rescaldos de uma crise econômica, que ainda vêm afetando o mercado internacional, a economia vem tendo um crescimento considerado de um bom volume. Sem falar nos pesares todos que, apesar deles, ainda temos a maior floresta do mundo ainda bem preservada! Não é espantoso?! o.0
Por que insisto em escrever, sabendo-me dono de tão pouco estudo quanto “luzes”, sabendo que sou medíocre? Por que gosto de quem não gosta de mim, apesar de todos os fatores possíveis para desgostar? Por que me importo com quem não tá lá tão preocupado com meu bem-estar – como se tivesse que estar? Por que dou moral pra quem nem tchum pra mim, praquilo que faço, pras coisas de que gosto? Por que insisto em ficar triste num domingo ensolarado? Por que me apego tão facilmente a pessoas que mal conheço? Por que gosto tanto de você, se você não faz nem ideia de que existo, e se faz, é uma ideia bem vaga? Por que insisto em tentar descobrir formas de voltar a estar em um outro lugar, por que insisto que lá é que é o meu lugar? Por que me deixei amar pessoas que não correspondiam, porque não era obrigação delas mais do que serem alvo do amor alheio? Por que insisto em sorrir, mesmo sentindo-me triste, e por que gargalho, quando a depressão me corrói o coração e a mente? Por que insisto em ter fé no Alto, quando, em algumas ocasiões, não tenho tanta fé em mim mesmo, minha capacidade, minha sorte...? Por que insisto em ser otimista quando tudo e todos, inclusive eu mesmo, está puxando para baixo? Por um motivo bem simples! Sou teimoso, como todo bom brasileiro!

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