Pois
hoje tirei pra rir porque tô mais pra chorar. É que é
tradição, sexta-feia você não pode ficar
de mal com o mundo, tem que sorrir, dar risada, alegrar-se porque tá
começando o fim de semana, mesmo que sem muitas perspectivas
boas, nem grana, nem com quem sair, desopilar, beber, e
blá-blá-blá... é, rir demais acaba um
pouco com minha produtividade no trabalho, mas a depressão
afeta muito mais, então vamos rir! Vamos tentar insistir em
rir e achar graça da vida!
Pois
já sabem, também, que tô longe de casa. Ou do
lugar onde chamo de lar. Se não sabiam, estão sabendo,
pois já falei umas trocentas vezes por aqui. Aqui onde tô,
tem metrô. E eu o pego, de segunda a sexta, de onde estou
morando até o trabalho. E já contei do tipo de gente
que cruza conosco, nas passarelas de acesso das estações
do metrô. E já devo ter contado do tipo de gente que me
aborrece dentro dos trens e das estações – e o seu
entorno.
Hoje,
talvez intuitivamente, pois antes de ler o fantástico texto do
professor Sérgio Freire – que você pode ler aqui –
já tinha decidido que não iria me deixar aborrecer.
Tanto que, vendo um apressadinho, um rapaz dos seus vinte e poucos
anos, vestido com camisa social cor creme e calça jeans
escura, cabelo cortado bem curtinho, com uma daquelas bolsas estilo
executivo a tira-colo, passar por mim esgueirando-se rapidamente,
feito uma osga passando pela fresta da madeira, o máximo que
consegui sentir foi pena do pobre indivíduo.
É
que hoje, justo hoje, justo na sexta-feira, todo mundo resolveu
descer, às 9 horas da manhã, a passarela em bloco. O
apressadinho passou por mim e tudo o que pude fazer por ele foi
sorrir e desejar-lhe sorte, pois já antevia o que ia acontecer
logo ali adiante – e fatalmente aconteceu: ele não conseguiu
mais passar por entre o mar de gente, tanto que o sujeito grandão
e desengonçado que ele havia deixado pra trás – e que
no caso era eu – quase pisou nos seus calcanhares pelo menos duas
vezes. Na maioria das vezes me irritam os apressadinhos justamente
por isso, fatalmente os encontro na “curva” da passarela,
atravancando o caminho. Deve ser coisa da nossa cultura. Brasileiro é
mesmo um povo fodástico, os apressadinhos querem chegar antes
da gente lá adiante, pra ficar tastaveando, como diz minha
mãe, bem na nossa frente, e os lerdos parece que, quando
percebem que estão num passo mais lento que o nosso, fazem
questão de andar ainda mais lentos, na nossa frente, e sem dar
passagem, nem que disso dependam suas vidas!
E
enquanto descíamos, aquele belo grupo compacto de pessoas
bonitas, elegantes e sinceras, vinha subindo, do outro lado da
passarela, um casal de anciãos. E não sei exatamente
sobre o que os dois conversavam, mas tenho uma vaga ideia. O homem
falava à senhora, que, imagino, era sua mulher: “Antigamente
poucos chegavam aos 60 anos...” Imagino eu que estivessem falando
sobre... a longevidade! E me peguei pensando...
Muitas
vezes ouvi minha mãe dizer que “muita gente” chegava aos
60 anos, nos “antigamente”. Porém já tentei
argumentar com ela, dizendo que “muita gente” não é
o mesmo que “a maioria”! Não faz muito tempo, uns 50 anos,
mais ou menos, era raro alguém chegar até os 60 anos de
idade. Ponto! Com saúde, ou sem saúde, eram raros os
que chegavam à casa dos 60, mais raros ainda os que passavam
disso! Há quase vinte anos, meu pai falecia, antes de
completar 67 anos, quer dizer, ele foi um desses que não
venceram essa barreira.
Lembro
que há uns 20 e poucos anos, quando eu era menino, quando se
ouvia a notícia da morte de algum famoso, de alguma
celebridade, ou autoridade, ou o que o valha, a gente ainda comentava
que o dito já tinha vivido muito, caso tivesse chegado à
famigerada casa dos sessenta. Hoje, já se ouve falar que
fulano morreu e se surpreende por ter partido “tão moço”...
nessa mesma casa aí, dos sessenta! É, a gente não
se apercebe, na maioria das vezes, dessas sutis mudanças de
parâmetros. Aí a gente pensa mais ou menos como minha
mãe: que isso sempre foi assim, que sempre foi normal ter
tanta gente chegando a uma certa idade, quando na verdade aquele
nosso tio-avô lá de Nhamundá era um dos casos
raros de pessoas longevas! E podemos perceber, duma hora pra outra,
que nem foi tão longevo assim! Há uns anos atrás,
eu ficaria contente se chegasse a idade que meu pai chegou. Hoje, se
puder, penso que gostaria de chegar relativamente bem aos 90, talvez
100 anos! Por que não? Talvez, até lá, isso seja
tão normal e corriqueiro quanto se chegar aos 60 é
hoje. E quanto nunca foi antes! Ainda mais num país como o
Brasil!
Acho
que aqui, em relação a outros países,
principalmente os desenvolvidos, há um fenômeno que não
se repete em nenhum outro lugar no mundo! Sim, pois mesmo não
tendo a estrutura que tem nos países da Europa ocidental, por
exemplo, como Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, França,
etc, já estamos chegando à expectativa média de
vida desses países! Mesmo com um sistema de saúde
deficitário, mesmo faltando saneamento básico, mesmo
com os índices alarmantes de insegurança – que não
se resume só à criminalidade, não senhor, falta
segurança nas estradas, melhor educação no
trânsito, o risco de se viver em locais irregulares e
insalubres, etc – ainda há uma boa porcentagem da população,
quase metade, com uma elevada expectativa de vida.
Sei
de um blogueiro que sigo no site de microblogs twitter, que critica
todos aqueles lugares-comuns, todos aqueles jargões e motivos
de que se fala pra “se ter orgulho de ser brasileiro”. Às
vezes concordo inteiramente, ultimamente tenho considerado pura e
simplesmente como rabugice de carioquinha de classe média alta
que preferia ser “daselite”, mesmo. Preferia e não pode,
sabe coé? Então. Pois esse moço tem sérias
dúvidas sobre o que o brasileiro teria de mais que outros
povos e outros indivíduos de outras nacionalidades. Pois hoje,
me peguei pensando nisso, e cheguei a conclusão, que
provavelmente amanhã, ou depois, vai se mostrar parcial ou
inteiramente equivocada, mas enfim: o que nós temos de mais
que os outros povos, qual a “vantagem” do brasileiro, se podemos
dizer assim? Acho eu que é a teimosia! Pois, se apesar de
todos os problemas listados, o brasileiro médio está
vivendo mais... só pode ser por teimosia! Com essa saúde
e saneamento básico ainda a níveis africanos, na imensa
maioria de nossas cidades... a única explicação
plausível é que somos um povo muito teimoso!
Apesar
dos altos impostos, da falta de subsídios, das intempéries
e outros fatores internos e externos, o país quebra recordes
de safra de diversos produtos agropecuários há uns
quinze anos seguidos! Apesar da imensa carga tributária, dos
altos juros, da falta de crédito aos pequenos e
microempreendedores, da baixa do dólar, da inflação,
parcialmente controlada, dos rescaldos de uma crise econômica,
que ainda vêm afetando o mercado internacional, a economia vem
tendo um crescimento considerado de um bom volume. Sem falar nos
pesares todos que, apesar deles, ainda temos a maior floresta do
mundo ainda bem preservada! Não é espantoso?! o.0
Por
que insisto em escrever, sabendo-me dono de tão pouco estudo
quanto “luzes”, sabendo que sou medíocre? Por que gosto de
quem não gosta de mim, apesar de todos os fatores possíveis
para desgostar? Por que me importo com quem não tá lá
tão preocupado com meu bem-estar – como se tivesse que
estar? Por que dou moral pra quem nem tchum pra mim, praquilo que
faço, pras coisas de que gosto? Por que insisto em ficar
triste num domingo ensolarado? Por que me apego tão facilmente
a pessoas que mal conheço? Por que gosto tanto de você,
se você não faz nem ideia de que existo, e se faz, é
uma ideia bem vaga? Por que insisto em tentar descobrir formas de
voltar a estar em um outro lugar, por que insisto que lá é
que é o meu lugar? Por que me deixei amar pessoas que não
correspondiam, porque não era obrigação delas
mais do que serem alvo do amor alheio? Por que insisto em sorrir,
mesmo sentindo-me triste, e por que gargalho, quando a depressão
me corrói o coração e a mente? Por que insisto
em ter fé no Alto, quando, em algumas ocasiões, não
tenho tanta fé em mim mesmo, minha capacidade, minha sorte...?
Por que insisto em ser otimista quando tudo e todos, inclusive eu
mesmo, está puxando para baixo? Por um motivo bem simples! Sou
teimoso, como todo bom brasileiro!

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