Penso
nas coisas e às vezes parece-me tarde pra falar sobre. Ou que,
então, estou falando atrasado. Ontem ainda, estava me
lembrando dum post-resposta, de um blogueiro conhecido meu, de
Manaus, a um outro moço, playboyzinho qualquer de São
Paulo – que provavelmente achava que somente isso bastava pra se
ter um blog: ser paulista! Mas faz muito tempo que li esse texto!
Enfim, à época me indignou muito tudo o que o
playboyzinho falava sobre a cidade que conheci apenas em 2003 e
aprendi a amar, como se lá tivesse nascido. Capitan, my
capitan, dirá, talvez: “não pode!!”. E eu direi em
resposta: pode sim! E foda-se quem pensa diferente!
Nunca
fui playboy, sobretudo em Manaus! Morei mal, lá, mas uma vez
só: paguei aluguel até baixo, porém muito alto,
proporcionalmente ao buraco mal-construído, extremamente
quente, desleixado e mal-ventilado onde habitei por alguns meses,
cuja única vantagem era a localização: no bairro
da Cachoeirinha, há umas duas quadras do Terminal de ônibus,
umas três ou quatro do supermercado, padaria, farmácia,
lanchonetes, barraquinhas de café da manhã –
acredite, caro manauense, por aqui já estão lhes
copiando essa idéia! – bem próximos; há uns
três quilômetros do Centro, e uns seis do Studio 5...
enfim, até gostava daquele bairro... num outro blog, uns dias
antes do segundo turno das eleições presidenciais, li
um texto, que não falava EXATAMENTE do bairro, ou do Terminal
2 em si, mas que ao lê-lo, me senti transportado para lá!
Mas
gosto mesmo é do Parque Dez de Novembro. Por uma imensa gama
de motivos, mas reconheço, a maioria deles sentimentais.
Depois, o segundo lugar fica com o São Jorge, e o próprio
Centro da cidade, empatados. Quanto aos shoppings... bom, são
shoppings! Shopping center é como aeroporto, todos
padronizados, parecidos... quem viu um, viu todos! O bom do shopping
é o ar refrigerado, pra você fugir do calor, no verão.
Reclamava do calor, da precariedade
do transporte coletivo, da má vontade de alguns funcionários
em alguns estabelecimentos comerciais, do preço de alguns
produtos, da lentidão da internet, dos políticos e das
administrações municipal e estadual... não como
alguém “de fora”, por exemplo, como um paulista que tenha
saído dos tais Jardins dia desses e não entende, nem
respeita, nada do lugar onde se encontra. Ou como paulista, por
exemplo, que não paga corretamente seus impostos, depois
reclama da burocracia na Secretaria Estadual da Fazenda (SEFAZ) pra
liberar as mercadorias trazidas de outros Estados... não se
chateiem, isso são apenas exemplos hipotéticos! Já
falei aqui, morei mal uma vez só, em Manaus, por bem pouco
tempo! O resto do tempo, morei com conforto razoável para bom,
sem ter que pagar nenhuma fábula: nunca o aluguel me custou
mais que 300 reais! E já tendo morado no Centro da cidade!
Também não reclamava
do sistema prisional manauara como, por exemplo, uma gaúcha,
que considerava um imenso absurdo um presídio na região
central da cidade... como se nunca tivesse havido um no centro da sua
cidade, digamos, Porto Alegre! E como se o Central não
estivesse localizado em pleno perímetro urbano, próximo
a um bairro residencial. Não, imagine! Neste exemplo
hipotético, o(a) forasteiro(a) insinuaria que “a bandidagem”
estaria cumprindo pena em algum lugar retirado e distante, e fora da
capital do Estado! Essa hipotética gaúcha, portanto,
estaria mentindo deliberadamente, para criticar a cidade onde estava
– Manaus – e enaltecendo qualidades inexistentes na sua “cidade
natal” – Porto Alegre. Acredite, em qualidades e defeitos, as
duas cidades meio que se equiparam. O que muda é a cultura e
ponto. Não temo em dizer que Porto Alegre é até
um pouco mais provinciana que Manaus. Com a vantagem de artistas
internacionais fora do eixo Rio-Bahia-São Paulo aparecerem
mais por aqui, mas enfim... aqui não era, não é,
e dificilmente será a cidade mais civilizada do país,
das Américas, do mundo. Da mesma forma, Manaus. De onde venho,
também há favelas. Também há vilas
irregulares, surgidas de uma invasão qualquer. Aliás,
atrás do aeroporto internacional Salgado Filho tem umas três
dessas vilas. Não lembro de ter alguma atrás do Eduardo
Gomes. Aqui também têm barracos bem precários,
alguns construídos nas encostas de morro e em cima de
igarapés. Diferença? Nenhuma, pros de Manaus! Só
não pegam malária, mas enfim, sujeira, ratos e risco de
dengue, tem igual!
Criticar um lugar simplesmente por
criticar, porque não gostou, ou “pra dar a real” não
era. Me indigna quando vejo alguém fazer isso. Não
nasci no Amazonas, não nasci em Manaus. Mas me irritam
profundamente as piadinhas preconceituosas sobre lá só
haver índios e mato. Nada contra os índios, e até
gostaria que houvesse um pouquinho mais de mato dentro do perímetro
do município. O que critico em Manaus, critico porque quero e
acho que deve ser melhorado, que tem como ser melhorado. Mesmo que
não venha a morar novamente lá. Critico alguns
políticos e a política local amazonense, mas sem iludir
nem iludir-me que em algum outro lugar hajam políticos mais
honestos e gente mais politizada que ali. Atualmente, no meu Estado
natal, não sei de nenhum político sério que
tenha sido eleito nas últimas eleições. Sei de
um ou dois esforçados, só. Quanto a povo politizado, eu
tenho minhas convicções políticas, mas eu não
sou, nem me considero, politizado. E não conheço
ninguém realmente politizado, seja aqui, em Manaus, em São
Paulo, ou em Quixeramobim! Tenho com Porto Alegre, uma relação
de amizade, digamos assim. Gosto de Porto Alegre, me sinto bem, gosto
de passear na área central, na área comercial, às
vezes ia ao aeroporto, a passeio, pra assistir às pessoas que
chegavam e partiam, às aeronaves subindo e descendo – com
uma certa inveja, algumas vezes querendo ser eu um daqueles
passageiro e tripulantes – gosto de ir até o Parque da
Redenção, no Bonfim; gosto de descer a rua dos Andradas
até a velha usina do Gasômetro, e a prainha, logo ali
atrás da usina... gosto de visitar a velha amiga, olhar o
Guaíba correndo manso, dar uma chegada pra reverenciar ao
Templo do futebol gaúcho, o Estádio José
Pinheiro Borda, o Beira-rio, a casa do meu Sport Club Internacional.
Enfim... gosto de visitar a velha amiga, Porto Alegre, de lhe ver e
“conversar” com ela, caminhando por suas ruas e avenidas, me
sentindo bem em sua “companhia”... mas não me doem tanto
os defeitos da velha amiga, sei que há ali problemas a serem
corrigidos, tantos quantos há em Manaus. Mas não me
envolvo tanto!
E é aí que está
a diferença: de relação! Como disse, minha
relação com Porto Alegre é de amizade. Profunda
e querida amizade. Já com Manaus, a relação é
de amor! Me dói ver o modo como os políticos, entre
vereadores, deputados, prefeito e governador, a tratam. Sinto cada
pedra, cada tijolo, de cada prédio, de cada casa, como parte
de mim mesmo. Até hoje, amigos, inclusive de Manaus, me
perguntam o que encontrei ali, que me prendeu de tal maneira, e até
hoje não achei resposta satisfatória pra justificar aos
outros o que já justifiquei, há muito tempo, a mim
mesmo. Em Manaus, pela primeira vez – em toda a vida – me senti
em casa. Me senti no meu lugar, na minha cidade. MINHA!! Minha casa,
minha cidade, minha vida!! Sinto falta, pasmem, de pegar ônibus
no terminal de ônibus da Constantino Nery, sinto falta do
sorvete de tucumã da Glacial, sinto falta de caminhar pelas
ruas e avenidas do Centro de Manaus, sinto falta de andar pela Rua do
Comércio, no Parque Dez, aos domingos, sinto falta de passear
no Parque do Mindu, sinto falta das caminhadas na pista de saibro do
CSU do Parque Dez, sinto falta de beber no Bar do Armando, sinto
falta de morar perto do Teatro Amazonas, sinto falta de assistir às
palestras na FEA ao lado do Palácio da Justiça, sinto
falta de olhar os artesanatos da feirinha da avenida Eduardo Ribeiro,
nos domingos pela manhã, e por lá também tomar
café e comer um x-caboquinho... nem sei o que é feito
da feirinha, se ainda existe, ou não mais. Sinto falta de
matar aula da UEA nas quartas-feiras à noite, pra ir ao cinema
do Studio 5! Sinto falta de conversar pessoalmente com meus amigos,
falando bem do Serafim e mal do Amazonino, de torcer pro América
no Vivaldão, do Carnaboi e do Boi Manaus, de ir à praia
da Ponta Negra, ver o vagar apressado do Rio Negro e paquerar as
meninas que vão lá atrás dos gringos que se
hospedam no Tropical Hotel... enganar um pouquinho que sou
estrangeiro e me deixar iludir que sou lindo e gostoso! Sinto falta
de andar de balsa... ai, ai... concluindo: sinto falta de casa!

Nenhum comentário:
Postar um comentário