PESCANDO NO BODOSAL

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Relações de Amizade e de Amor


Penso nas coisas e às vezes parece-me tarde pra falar sobre. Ou que, então, estou falando atrasado. Ontem ainda, estava me lembrando dum post-resposta, de um blogueiro conhecido meu, de Manaus, a um outro moço, playboyzinho qualquer de São Paulo – que provavelmente achava que somente isso bastava pra se ter um blog: ser paulista! Mas faz muito tempo que li esse texto! Enfim, à época me indignou muito tudo o que o playboyzinho falava sobre a cidade que conheci apenas em 2003 e aprendi a amar, como se lá tivesse nascido. Capitan, my capitan, dirá, talvez: “não pode!!”. E eu direi em resposta: pode sim! E foda-se quem pensa diferente!
Nunca fui playboy, sobretudo em Manaus! Morei mal, lá, mas uma vez só: paguei aluguel até baixo, porém muito alto, proporcionalmente ao buraco mal-construído, extremamente quente, desleixado e mal-ventilado onde habitei por alguns meses, cuja única vantagem era a localização: no bairro da Cachoeirinha, há umas duas quadras do Terminal de ônibus, umas três ou quatro do supermercado, padaria, farmácia, lanchonetes, barraquinhas de café da manhã – acredite, caro manauense, por aqui já estão lhes copiando essa idéia! – bem próximos; há uns três quilômetros do Centro, e uns seis do Studio 5... enfim, até gostava daquele bairro... num outro blog, uns dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, li um texto, que não falava EXATAMENTE do bairro, ou do Terminal 2 em si, mas que ao lê-lo, me senti transportado para lá!
Mas gosto mesmo é do Parque Dez de Novembro. Por uma imensa gama de motivos, mas reconheço, a maioria deles sentimentais. Depois, o segundo lugar fica com o São Jorge, e o próprio Centro da cidade, empatados. Quanto aos shoppings... bom, são shoppings! Shopping center é como aeroporto, todos padronizados, parecidos... quem viu um, viu todos! O bom do shopping é o ar refrigerado, pra você fugir do calor, no verão.
Reclamava do calor, da precariedade do transporte coletivo, da má vontade de alguns funcionários em alguns estabelecimentos comerciais, do preço de alguns produtos, da lentidão da internet, dos políticos e das administrações municipal e estadual... não como alguém “de fora”, por exemplo, como um paulista que tenha saído dos tais Jardins dia desses e não entende, nem respeita, nada do lugar onde se encontra. Ou como paulista, por exemplo, que não paga corretamente seus impostos, depois reclama da burocracia na Secretaria Estadual da Fazenda (SEFAZ) pra liberar as mercadorias trazidas de outros Estados... não se chateiem, isso são apenas exemplos hipotéticos! Já falei aqui, morei mal uma vez só, em Manaus, por bem pouco tempo! O resto do tempo, morei com conforto razoável para bom, sem ter que pagar nenhuma fábula: nunca o aluguel me custou mais que 300 reais! E já tendo morado no Centro da cidade!
Também não reclamava do sistema prisional manauara como, por exemplo, uma gaúcha, que considerava um imenso absurdo um presídio na região central da cidade... como se nunca tivesse havido um no centro da sua cidade, digamos, Porto Alegre! E como se o Central não estivesse localizado em pleno perímetro urbano, próximo a um bairro residencial. Não, imagine! Neste exemplo hipotético, o(a) forasteiro(a) insinuaria que “a bandidagem” estaria cumprindo pena em algum lugar retirado e distante, e fora da capital do Estado! Essa hipotética gaúcha, portanto, estaria mentindo deliberadamente, para criticar a cidade onde estava – Manaus – e enaltecendo qualidades inexistentes na sua “cidade natal” – Porto Alegre. Acredite, em qualidades e defeitos, as duas cidades meio que se equiparam. O que muda é a cultura e ponto. Não temo em dizer que Porto Alegre é até um pouco mais provinciana que Manaus. Com a vantagem de artistas internacionais fora do eixo Rio-Bahia-São Paulo aparecerem mais por aqui, mas enfim... aqui não era, não é, e dificilmente será a cidade mais civilizada do país, das Américas, do mundo. Da mesma forma, Manaus. De onde venho, também há favelas. Também há vilas irregulares, surgidas de uma invasão qualquer. Aliás, atrás do aeroporto internacional Salgado Filho tem umas três dessas vilas. Não lembro de ter alguma atrás do Eduardo Gomes. Aqui também têm barracos bem precários, alguns construídos nas encostas de morro e em cima de igarapés. Diferença? Nenhuma, pros de Manaus! Só não pegam malária, mas enfim, sujeira, ratos e risco de dengue, tem igual!
Criticar um lugar simplesmente por criticar, porque não gostou, ou “pra dar a real” não era. Me indigna quando vejo alguém fazer isso. Não nasci no Amazonas, não nasci em Manaus. Mas me irritam profundamente as piadinhas preconceituosas sobre lá só haver índios e mato. Nada contra os índios, e até gostaria que houvesse um pouquinho mais de mato dentro do perímetro do município. O que critico em Manaus, critico porque quero e acho que deve ser melhorado, que tem como ser melhorado. Mesmo que não venha a morar novamente lá. Critico alguns políticos e a política local amazonense, mas sem iludir nem iludir-me que em algum outro lugar hajam políticos mais honestos e gente mais politizada que ali. Atualmente, no meu Estado natal, não sei de nenhum político sério que tenha sido eleito nas últimas eleições. Sei de um ou dois esforçados, só. Quanto a povo politizado, eu tenho minhas convicções políticas, mas eu não sou, nem me considero, politizado. E não conheço ninguém realmente politizado, seja aqui, em Manaus, em São Paulo, ou em Quixeramobim! Tenho com Porto Alegre, uma relação de amizade, digamos assim. Gosto de Porto Alegre, me sinto bem, gosto de passear na área central, na área comercial, às vezes ia ao aeroporto, a passeio, pra assistir às pessoas que chegavam e partiam, às aeronaves subindo e descendo – com uma certa inveja, algumas vezes querendo ser eu um daqueles passageiro e tripulantes – gosto de ir até o Parque da Redenção, no Bonfim; gosto de descer a rua dos Andradas até a velha usina do Gasômetro, e a prainha, logo ali atrás da usina... gosto de visitar a velha amiga, olhar o Guaíba correndo manso, dar uma chegada pra reverenciar ao Templo do futebol gaúcho, o Estádio José Pinheiro Borda, o Beira-rio, a casa do meu Sport Club Internacional. Enfim... gosto de visitar a velha amiga, Porto Alegre, de lhe ver e “conversar” com ela, caminhando por suas ruas e avenidas, me sentindo bem em sua “companhia”... mas não me doem tanto os defeitos da velha amiga, sei que há ali problemas a serem corrigidos, tantos quantos há em Manaus. Mas não me envolvo tanto!
E é aí que está a diferença: de relação! Como disse, minha relação com Porto Alegre é de amizade. Profunda e querida amizade. Já com Manaus, a relação é de amor! Me dói ver o modo como os políticos, entre vereadores, deputados, prefeito e governador, a tratam. Sinto cada pedra, cada tijolo, de cada prédio, de cada casa, como parte de mim mesmo. Até hoje, amigos, inclusive de Manaus, me perguntam o que encontrei ali, que me prendeu de tal maneira, e até hoje não achei resposta satisfatória pra justificar aos outros o que já justifiquei, há muito tempo, a mim mesmo. Em Manaus, pela primeira vez – em toda a vida – me senti em casa. Me senti no meu lugar, na minha cidade. MINHA!! Minha casa, minha cidade, minha vida!! Sinto falta, pasmem, de pegar ônibus no terminal de ônibus da Constantino Nery, sinto falta do sorvete de tucumã da Glacial, sinto falta de caminhar pelas ruas e avenidas do Centro de Manaus, sinto falta de andar pela Rua do Comércio, no Parque Dez, aos domingos, sinto falta de passear no Parque do Mindu, sinto falta das caminhadas na pista de saibro do CSU do Parque Dez, sinto falta de beber no Bar do Armando, sinto falta de morar perto do Teatro Amazonas, sinto falta de assistir às palestras na FEA ao lado do Palácio da Justiça, sinto falta de olhar os artesanatos da feirinha da avenida Eduardo Ribeiro, nos domingos pela manhã, e por lá também tomar café e comer um x-caboquinho... nem sei o que é feito da feirinha, se ainda existe, ou não mais. Sinto falta de matar aula da UEA nas quartas-feiras à noite, pra ir ao cinema do Studio 5! Sinto falta de conversar pessoalmente com meus amigos, falando bem do Serafim e mal do Amazonino, de torcer pro América no Vivaldão, do Carnaboi e do Boi Manaus, de ir à praia da Ponta Negra, ver o vagar apressado do Rio Negro e paquerar as meninas que vão lá atrás dos gringos que se hospedam no Tropical Hotel... enganar um pouquinho que sou estrangeiro e me deixar iludir que sou lindo e gostoso! Sinto falta de andar de balsa... ai, ai... concluindo: sinto falta de casa!

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