PESCANDO NO BODOSAL

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

É Complicado...


É complicado. É complicado se readaptar! Se readaptar sem se acomodar novamente é realmente complicado. Você, a cada dia que passa, sente, descobre mais uma prova de que se precipitou em desistir e vir embora de volta. Porque, você sabe, já antes não sentia-se mais inteiro quando voltava à terra dos seus pais. Sim, todos dizem isso, você nasceu aí... mesmo aqueles que têm um outro entendimento sobre a vida, encarnações, etc, parecem não te entender. Ou não aceitam, não admitem que você encontre, tão longe da casa onde cresceu, o teu lugar, onde corpo, alma e espírito estão unidos, onde, de alguma forma, sente maiores identificação e ligação. De que adianta querer traduzir em palavras? Não há, na nossa linguagem limitada, definição para isso que você sente, cada vez que volta ao seu lugar, ao seu shangrilá pessoal. Você conclui que não se precipitou porque, não importa o momento, qualquer um seria ruim para vir embora. Nunca chegaria o momento certo! Talvez você não devesse é ter ido para lá novamente... agora, não tem mais jeito, seu coração ficou na margem de lá do rio Negro!
E agora você está de volta à velha rotina que não desejava mais ter. Agora está mais difícil se readaptar. Aqui, você sabe, a tentação de acomodar-se é muito grande. Você não gosta da rotina daqui... você não gosta desse ritmo acelerado só durante três meses do ano. Te asseguraram que do pior do inverno, você escapou... tudo ótimo, não fosse pelo fato de ninguém ter te avisado que ainda estava frio aí, quando você chegou! Você teme perder a cor que ganhou de presente, desta vez... como se o sol tivesse, enfim, te aceitado como um dos filhos daquela terra. Você nunca estranhou tanto o sotaque dos seus pais. Agora você realmente se sente estranho... um caboclo acanhado, no meio dos gaúch0s, em meio àquela gente que vive nas terras frias e que parecem mais europeus que brasileiros. Você se pega, às vezes, estranhando a própria fala, achando estranho o som das palavras, o “R” carregado, o “S” sem chiar... é complicado! Antes, você estava, de certa forma, dividido, estava com o coração para lá, mas tinha ainda algum resquício das raízes da família, dos seus pais, de pelo menos dois dos teus avós... era fluente em duas línguas, de dois Brasis diferentes, mas que você conseguia perceber pontos em comum. Agora, você que está diferente. A sua cor é outra, há apenas um sotaque que te soa natural, e não é mais aquele dos teus pais! Você assiste a um curta-metragem na tv local, contando a história de um garoto que saiu da mesma terra que você, da mesma região onde cresceu, resolveu correr mundo, para buscar lugar pra chamar de seu, que então acaba chegando à mística Machu Picchu. Quando ele está prestes a ir embora, vem a menina peruana para dizer o óbvio que lhe havia passado despercebido, com uma única frase: “Eres inca”. “Você é inca!”, disse-lhe ela. Quer dizer, ele havia, enfim, encontrado o seu lugar no mundo, que só ele não tinha percebido... você se identifica com a história, vai quase às lágrimas, sente uma saudade imensa de lá, do teu lugar, da sua “garota inca”... de diferente do garoto do filme, você é quem percebeu ter encontrado teu lugar, teu espaço... não precisou de ninguém pra te dizer isso. Mas, de repente, gostaria que ela tivesse vindo te dizer que estava se precipitando! Você voltou e agora sente que podia ter suportado um pouco mais...
Desta vez, você esteve lá e passou por poucas e boas... mas ainda haviam formas de continuar, pra seguir com a rotina que havia adotado, que lhe era mais natural. Só que você sucumbiu ao medo e ao desespero, resolveu se precipitar e vir embora. Todos te diziam que era o melhor, que era a única saída. Todos, menos um! Agora, você vê que ele é que estava com a razão! Lá, você estava se aproximando do seu ideal, estava mantendo hábitos mais saudáveis, tinha uma rotina diferente. Aí, você nem gosta da rotina. Não se sente bem... e sabe que pode acabar se acomodando... você teme se acomodar outra vez. Porque se conhece suficientemente bem. Se isso acontecer, talvez você nunca mais consiga voltar para lá. Nem poderá vê-las novamente. Ela quis te animar, não te deixar cair no desânimo, por ir embora, então não disse adeus... isso foi bom, mas se cair no velho círculo vicioso e se acomodar, você sabe, e ela também, que vocês não mais se verão, nesta vida. É complicado. Pra você, é muito complicado!!
Mas agora é necessário: você não tem como manter, aí, a rotina que vinha mantendo lá, e não quer voltar ao círculo vicioso da velha rotina daí, nem ao desânimo e ao comodismo... pois crie uma nova rotina! E faça o melhor que puder, para voltar o mais rápido possível para lá! “Eres inca!” E quer voltar ao teu shangrilá! Ao teu éden! Ou qualquer coisa assim... é complicado, mas melhor que sucumbir ao desespero e ao desânimo, enquanto espera dela a mesma saudade que você já sente... invente um curso pra fazer, escreve mais textos sobre outros assuntos, quem sabe aquele teu velho projeto de livro... que o texto a quatro mãos com ela, miou mesmo! É complicado! Mude a rotina, não caia na pasmaceira, ou vai ficar louco e perdê-la... e nunca mais voltar ao teu shangrilá. Porque é complicado!

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