É
complicado. É complicado se readaptar! Se readaptar sem se
acomodar novamente é realmente complicado. Você, a cada
dia que passa, sente, descobre mais uma prova de que se precipitou em
desistir e vir embora de volta. Porque, você sabe, já
antes não sentia-se mais inteiro quando voltava à terra
dos seus pais. Sim, todos dizem isso, você nasceu aí...
mesmo aqueles que têm um outro entendimento sobre a vida,
encarnações, etc, parecem não te entender. Ou
não aceitam, não admitem que você encontre, tão
longe da casa onde cresceu, o teu lugar, onde corpo, alma e espírito
estão unidos, onde, de alguma forma, sente maiores
identificação e ligação. De que adianta
querer traduzir em palavras? Não há, na nossa linguagem
limitada, definição para isso que você sente,
cada vez que volta ao seu lugar, ao seu shangrilá pessoal.
Você conclui que não se precipitou porque, não
importa o momento, qualquer um seria ruim para vir embora. Nunca
chegaria o momento certo! Talvez você não devesse é
ter ido para lá novamente... agora, não tem mais jeito,
seu coração ficou na margem de lá do rio Negro!
E
agora você está de volta à velha rotina que não
desejava mais ter. Agora está mais difícil se
readaptar. Aqui, você sabe, a tentação de
acomodar-se é muito grande. Você não gosta da
rotina daqui... você não gosta desse ritmo acelerado só
durante três meses do ano. Te asseguraram que do pior do
inverno, você escapou... tudo ótimo, não fosse
pelo fato de ninguém ter te avisado que ainda estava frio aí,
quando você chegou! Você teme perder a cor que ganhou de
presente, desta vez... como se o sol tivesse, enfim, te aceitado como
um dos filhos daquela terra. Você nunca estranhou tanto o
sotaque dos seus pais. Agora você realmente se sente
estranho... um caboclo acanhado, no meio dos gaúch0s, em meio
àquela gente que vive nas terras frias e que parecem mais
europeus que brasileiros. Você se pega, às vezes,
estranhando a própria fala, achando estranho o som das
palavras, o “R” carregado, o “S” sem chiar... é
complicado! Antes, você estava, de certa forma, dividido,
estava com o coração para lá, mas tinha ainda
algum resquício das raízes da família, dos seus
pais, de pelo menos dois dos teus avós... era fluente em duas
línguas, de dois Brasis diferentes, mas que você
conseguia perceber pontos em comum. Agora, você que está
diferente. A sua cor é outra, há apenas um sotaque que
te soa natural, e não é mais aquele dos teus pais! Você
assiste a um curta-metragem na tv local, contando a história
de um garoto que saiu da mesma terra que você, da mesma região
onde cresceu, resolveu correr mundo, para buscar lugar pra chamar de
seu, que então acaba chegando à mística Machu
Picchu. Quando ele está prestes a ir embora, vem a menina
peruana para dizer o óbvio que lhe havia passado despercebido,
com uma única frase: “Eres inca”. “Você é
inca!”, disse-lhe ela. Quer dizer, ele havia, enfim, encontrado o
seu lugar no mundo, que só ele não tinha percebido...
você se identifica com a história, vai quase às
lágrimas, sente uma saudade imensa de lá, do teu lugar,
da sua “garota inca”... de diferente do garoto do filme, você
é quem percebeu ter encontrado teu lugar, teu espaço...
não precisou de ninguém pra te dizer isso. Mas, de
repente, gostaria que ela tivesse vindo te dizer que estava se
precipitando! Você voltou e agora sente que podia ter suportado
um pouco mais...
Desta
vez, você esteve lá e passou por poucas e boas... mas
ainda haviam formas de continuar, pra seguir com a rotina que havia
adotado, que lhe era mais natural. Só que você sucumbiu
ao medo e ao desespero, resolveu se precipitar e vir embora. Todos te
diziam que era o melhor, que era a única saída. Todos,
menos um! Agora, você vê que ele é que estava com
a razão! Lá, você estava se aproximando do seu
ideal, estava mantendo hábitos mais saudáveis, tinha
uma rotina diferente. Aí, você nem gosta da rotina. Não
se sente bem... e sabe que pode acabar se acomodando... você
teme se acomodar outra vez. Porque se conhece suficientemente bem. Se
isso acontecer, talvez você nunca mais consiga voltar para lá.
Nem poderá vê-las novamente. Ela quis te animar, não
te deixar cair no desânimo, por ir embora, então não
disse adeus... isso foi bom, mas se cair no velho círculo
vicioso e se acomodar, você sabe, e ela também, que
vocês não mais se verão, nesta vida. É
complicado. Pra você, é muito complicado!!
Mas
agora é necessário: você não tem como
manter, aí, a rotina que vinha mantendo lá, e não
quer voltar ao círculo vicioso da velha rotina daí, nem
ao desânimo e ao comodismo... pois crie uma nova rotina! E faça
o melhor que puder, para voltar o mais rápido possível
para lá! “Eres inca!” E quer voltar ao teu shangrilá!
Ao teu éden! Ou qualquer coisa assim... é complicado,
mas melhor que sucumbir ao desespero e ao desânimo, enquanto
espera dela a mesma saudade que você já sente... invente
um curso pra fazer, escreve mais textos sobre outros assuntos, quem
sabe aquele teu velho projeto de livro... que o texto a quatro mãos
com ela, miou mesmo! É complicado! Mude a rotina, não
caia na pasmaceira, ou vai ficar louco e perdê-la... e nunca
mais voltar ao teu shangrilá. Porque é complicado!


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