PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 15 de março de 2013

Elvis No Tucupi

O sr. e a sra. Wesson estavam encantados! Estavam achando tudo maravilhoso. Era sua primeira viagem fora dos Estados Unidos, desde que se aposentaram. A primeira viagem internacional das suas vidas, na verdade. E na sua estreia, o casal Wesson veio ao Brasil, conhecer Salvador, São Paulo e o Amazonas. Na verdade, o casal Wesson eram dois funcionários públicos aposentados, de classe média baixa, residentes em Memphis, Tennessee, então não puderam ir a um hotel de selva, que era o que queria o sr. Wesson, a sra. Wesson gostou mais de ficar num hotel no Centro histórico, bem no meio da antiga Zona Franca de Manaus.
O sr. Wesson havia gostado mais de São Paulo, mas dona Wesson gostou mais de Manaus, achou a cidade bastante pitoresca. Só o calor lhe incomodava um pouco, mas tudo bem, porque o Brasil é um país tropical, mesmo! Além do mais, estavam num ponto estratégico para qualquer turista que vai passear pela capital amazonense, próximo do Mercado Adolpho Lisboa, da feira de artesanato na praça Tenreiro Aranha, não muito distante do Teatro Amazonas.
Numa manhã, dona Wesson passou praticamente toda ela dando voltas pelas barraquinhas de artesanato da praça, comprando camisas, brincos e objetos pitorescos que não haviam nos EUA. Dali, ela e o marido passearam pelo porto, alfândega, subiram a rua dos Andradas, foram conhecer a igreja dos Remédios. Dona Wesson gostava de conhecer igrejas, fossem da religião que fossem! Almoçaram num restaurante não muito limpo próximo ao mercado municipal – ainda em reformas, dona Wesson lamentou muito não poder nem fotografá-lo direito – depois foram caminhando pelo Rodway, pela Manaus Moderna, onde pararam para fotografar e observar os barcos que iam e vinham do interior, trazendo e levando passageiros e mercadorias. Saboreavam a brisa que vinha morna do rio Negro, trazendo aromas indistintos, as vozes das pessoas, dos barqueiros, dos marujos, dos estivadores.
Seu Wesson dali a pouco estava cantarolando uma música que parecia ser trazida pela brisa do rio:
Love me tender, love me sweet, never let me go. You have made my life complete and I love you so...”
Uma lágrima escorreu dos olhos de dona Wesson, essa era a música deles, dançaram-na no baile de formatura do ginásio onde estudaram, lá pelos idos de 1960. Depois, foram a Las Vegas, ver o próprio Elvis Presley, na década de 70, pouco antes dele morrer. Dona Wesson se emocionou, lembrava bem daquele show. Olhou para o marido e este ja´não cantava mais. Ele fitava os olhos fixos, com ar incrédulo, para baixo, além da murada do porto, onde estavam escorados. A música ainda se espalhava pelo ar, mas entoada pelo timbre inconfundível do rei do rock.
Ele a olhou, apontou para um ponto abaixo de onde estavam, onde um homem desembarcava de um barco pequeno e estreito, movido por motor de rabeta, levando no ombro um gigantesco cacho de bananas, enquanto cantarolava alegremente:
Love me tender, love me true, all my dreams fulfilled. For my darling, I love you, and I always will...”
O homem usava um chapéu de palha surrado e puído, que mal escondia o basto topete e as costeletas, agora brancas como a neve, óculos escuros, imitação de Ray-Ban, comprados na rua Marechal Deodoro, uma camisa tipo social, de mangas curtas, aberta na altura do peito, deixando aparecer vários correntões e cordões de prata e uns banhados a ouro, sobressaindo-se uma medalha de Santo Expedito e um brasão do Botafogo; completando o “look” bermuda folgada e sandálias. Apesar das vestimentas simples, da pele queimada e curtida pelo sol amazônida, havia algo naquele homem, talvez os cabelos, o rosto, a boca, a voz, o cair dos ombros, o caminhar, que lembrava ao sr. e sra. Wesson alguém. Isso! Lhes lembrava do rei! Daquele homem, daquele grande cantor que eles viram uma vez, em Las Vegas. Seria ele?! Após uma rápida conferência, eles decidiram, correram até as escadarias, de cujos degraus o homem começava a galgar e, tentando conter a emoção, o casal o abordou. Dona Wesson já vinha com o seu iPhone no modo fotografia em punho, enquanto o marido falava timidamente, sentindo-se um pouco ridículo:
Sorry, my wife and I do not want to border you, but we think you... we think you're Elvis Presley...!?”
O bananeiro estacou, com seu imenso cacho de bananas num dos ombros, tirou os óculos escuros, olhou para o homem, depois para a mulher, primeiro com ar hesitante, depois com cara aparvalhada de quem não estava entendendo nada. Respondeu:
Sorry, mixter, ai... ai dontchi ander ixtendiú. Ai dontchi ixpiqui inglish...”
Seu Wesson tentava se fazer entender, voltando a perguntar, em inglês, misturando com espanhol, se ele era Elvis Presley. O homem de chapéu de palha sacudiu negativamente a cabeça e falou:
Nou, ai ame dontchi Elvix Prexli, mixter, desculpa, tá? Eksquíuzimi...”
Olhava agora com ar aborrecido para o americano, que ia murchando, constrangido, começando a gaguejar e a titubear. Dona Wesson não dizia nada, fitava-o piscando os olhos, ainda com a câmera do celular em punho, ainda tinha dúvidas de que aquele não era seu ídolo. Seu Wesson começou a falar novamente: “Forgiveness, thought you were Elvis, we hear you singing, so, we think... we deceive ourselves, forgive us!”
O bananeiro sorriu, acenou afirmativamente com a cabeça e respondeu: “Ok, óraiti, tênquix, eu fico lisonjeado por acharem minha voz parecida com a do Elvis, mas... ai ame nót Elvix Préxli, ok?! Eksquíuzimi...”
Terminou de subir as escadas, seguido por seu colega, um chinesinho de sorrisinho maroto que carregava outro enorme cacho de pacovãs sobre a cabeça, deixando para trás o casal de turistas americanos atordoados e frustrados.
Mais tarde, num barzinho meio decadente, próximo da Manaus Moderna, o caboclo bananeiro e o chinês bebiam uma garrafa de guaraná Real.
Égua, mano”, começou ele. “Acho que vou ter que dar um tempo lá pro interiorzinho de Iranduba, mermo... é a terceira vez, só essa semana, que esses turistas me reconhecem!”
Pois é, bróder”, argumentou com aquele olhar de monge budista do Himalaia o chinês, “é como eu te digo faz é tempo... fica esperto, não fica por aí cantando toda hora essas músicas daquela tua outra vida, que aí ninguém nota a gente por aqui!”
Elvis soltou uma fungada, olhando com ar contrariado para o chinês: “Mas pra ti é fácil falar, né, ô Bruce Lee! Cabocada só ia te reconhecer se tu começasse a brigar na rua, aí que eu queria ver!”
Bruce deu uma risadinha marota.
Verdade, verdade... mas, mano! Há quantos anos que tu tá aqui no Brasil? Canta em português que o pessoal nem vai vir te encher as pacovãs!”
Elvis coçou o queixo, os olhos meio encolhidos, refletindo. Pegou no copo de guaraná e, antes de emborcá-lo, como quem toma um gole de cachaça, concluiu:
Sabe que tu até me deu uma boa ideia, Bruce!?” Terminado o gole, falou: “Bora!”, e “Bora”, respondeu Bruce Lee, seguindo-o. Pagaram no balcão pra moça, que sorriu com um flerte do cantor. Os dois, então, embiocaram e voltaram ali para o porto, pegaram o seu barquinho e partiram.

Nenhum comentário:

Postar um comentário