O
sr. e a sra. Wesson estavam encantados! Estavam achando tudo
maravilhoso. Era sua primeira viagem fora dos Estados Unidos, desde
que se aposentaram. A primeira viagem internacional das suas vidas,
na verdade. E na sua estreia, o casal Wesson veio ao Brasil, conhecer
Salvador, São Paulo e o Amazonas. Na verdade, o casal Wesson
eram dois funcionários públicos aposentados, de classe
média baixa, residentes em Memphis, Tennessee, então
não puderam ir a um hotel de selva, que era o que queria o sr.
Wesson, a sra. Wesson gostou mais de ficar num hotel no Centro
histórico, bem no meio da antiga Zona Franca de Manaus.
O
sr. Wesson havia gostado mais de São Paulo, mas dona Wesson
gostou mais de Manaus, achou a cidade bastante pitoresca. Só o
calor lhe incomodava um pouco, mas tudo bem, porque o Brasil é
um país tropical, mesmo! Além do mais, estavam num
ponto estratégico para qualquer turista que vai passear pela
capital amazonense, próximo do Mercado Adolpho Lisboa, da
feira de artesanato na praça Tenreiro Aranha, não muito
distante do Teatro Amazonas.
Numa
manhã, dona Wesson passou praticamente toda ela dando voltas
pelas barraquinhas de artesanato da praça, comprando camisas,
brincos e objetos pitorescos que não haviam nos EUA. Dali, ela
e o marido passearam pelo porto, alfândega, subiram a rua dos
Andradas, foram conhecer a igreja dos Remédios. Dona Wesson
gostava de conhecer igrejas, fossem da religião que fossem!
Almoçaram num restaurante não muito limpo próximo
ao mercado municipal – ainda em reformas, dona Wesson lamentou
muito não poder nem fotografá-lo direito – depois
foram caminhando pelo Rodway, pela Manaus Moderna, onde pararam para
fotografar e observar os barcos que iam e vinham do interior,
trazendo e levando passageiros e mercadorias. Saboreavam a brisa que
vinha morna do rio Negro, trazendo aromas indistintos, as vozes das
pessoas, dos barqueiros, dos marujos, dos estivadores.
Seu
Wesson dali a pouco estava cantarolando uma música que parecia
ser trazida pela brisa do rio:
“Love
me tender, love me sweet, never let me go. You have made my life
complete and I love you so...”
Uma
lágrima escorreu dos olhos de dona Wesson, essa era a música
deles, dançaram-na no baile de formatura do ginásio
onde estudaram, lá pelos idos de 1960. Depois, foram a Las
Vegas, ver o próprio Elvis Presley, na década de 70,
pouco antes dele morrer. Dona Wesson se emocionou, lembrava bem
daquele show. Olhou para o marido e este ja´não cantava
mais. Ele fitava os olhos fixos, com ar incrédulo, para baixo,
além da murada do porto, onde estavam escorados. A música
ainda se espalhava pelo ar, mas entoada pelo timbre inconfundível
do rei do rock.
Ele
a olhou, apontou para um ponto abaixo de onde estavam, onde um homem
desembarcava de um barco pequeno e estreito, movido por motor de
rabeta, levando no ombro um gigantesco cacho de bananas, enquanto
cantarolava alegremente:
“Love
me tender, love me true, all my dreams fulfilled. For my darling, I
love you, and I always will...”
O
homem usava um chapéu de palha surrado e puído, que mal
escondia o basto topete e as costeletas, agora brancas como a neve,
óculos escuros, imitação de Ray-Ban, comprados
na rua Marechal Deodoro, uma camisa tipo social, de mangas curtas,
aberta na altura do peito, deixando aparecer vários correntões
e cordões de prata e uns banhados a ouro, sobressaindo-se uma
medalha de Santo Expedito e um brasão do Botafogo; completando
o “look” bermuda folgada e sandálias. Apesar das
vestimentas simples, da pele queimada e curtida pelo sol amazônida,
havia algo naquele homem, talvez os cabelos, o rosto, a boca, a voz,
o cair dos ombros, o caminhar, que lembrava ao sr. e sra. Wesson
alguém. Isso! Lhes lembrava do rei! Daquele homem, daquele
grande cantor que eles viram uma vez, em Las Vegas. Seria ele?! Após
uma rápida conferência, eles decidiram, correram até
as escadarias, de cujos degraus o homem começava a galgar e,
tentando conter a emoção, o casal o abordou. Dona
Wesson já vinha com o seu iPhone no modo fotografia em punho,
enquanto o marido falava timidamente, sentindo-se um pouco ridículo:
“Sorry,
my wife and I do not want to border you, but we think you... we think
you're Elvis Presley...!?”
O
bananeiro estacou, com seu imenso cacho de bananas num dos ombros,
tirou os óculos escuros, olhou para o homem, depois para a
mulher, primeiro com ar hesitante, depois com cara aparvalhada de
quem não estava entendendo nada. Respondeu:
“Sorry,
mixter, ai... ai dontchi ander ixtendiú. Ai dontchi ixpiqui
inglish...”
Seu
Wesson tentava se fazer entender, voltando a perguntar, em inglês,
misturando com espanhol, se ele era Elvis Presley. O homem de chapéu
de palha sacudiu negativamente a cabeça e falou:
“Nou,
ai ame dontchi Elvix Prexli, mixter, desculpa, tá?
Eksquíuzimi...”
Olhava
agora com ar aborrecido para o americano, que ia murchando,
constrangido, começando a gaguejar e a titubear. Dona Wesson
não dizia nada, fitava-o piscando os olhos, ainda com a câmera
do celular em punho, ainda tinha dúvidas de que aquele não
era seu ídolo. Seu Wesson começou a falar novamente:
“Forgiveness, thought you were Elvis, we hear you singing, so, we
think... we deceive ourselves, forgive us!”
O
bananeiro sorriu, acenou afirmativamente com a cabeça e
respondeu: “Ok, óraiti, tênquix, eu fico lisonjeado
por acharem minha voz parecida com a do Elvis, mas... ai ame nót
Elvix Préxli, ok?! Eksquíuzimi...”
Terminou
de subir as escadas, seguido por seu colega, um chinesinho de
sorrisinho maroto que carregava outro enorme cacho de pacovãs
sobre a cabeça, deixando para trás o casal de turistas
americanos atordoados e frustrados.
Mais
tarde, num barzinho meio decadente, próximo da Manaus Moderna,
o caboclo bananeiro e o chinês bebiam uma garrafa de guaraná
Real.
“Égua,
mano”, começou ele. “Acho que vou ter que dar um tempo lá
pro interiorzinho de Iranduba, mermo... é a terceira vez, só
essa semana, que esses turistas me reconhecem!”
“Pois
é, bróder”, argumentou com aquele olhar de monge
budista do Himalaia o chinês, “é como eu te digo faz é
tempo... fica esperto, não fica por aí cantando toda
hora essas músicas daquela tua outra vida, que aí
ninguém nota a gente por aqui!”
Elvis
soltou uma fungada, olhando com ar contrariado para o chinês:
“Mas pra ti é fácil falar, né, ô Bruce
Lee! Cabocada só ia te reconhecer se tu começasse a
brigar na rua, aí que eu queria ver!”
Bruce
deu uma risadinha marota.
“Verdade,
verdade... mas, mano! Há quantos anos que tu tá aqui no
Brasil? Canta em português que o pessoal nem vai vir te encher
as pacovãs!”
Elvis
coçou o queixo, os olhos meio encolhidos, refletindo. Pegou no
copo de guaraná e, antes de emborcá-lo, como quem toma
um gole de cachaça, concluiu:
“Sabe
que tu até me deu uma boa ideia, Bruce!?” Terminado o gole,
falou: “Bora!”, e “Bora”, respondeu Bruce Lee, seguindo-o.
Pagaram no balcão pra moça, que sorriu com um flerte do
cantor. Os dois, então, embiocaram e voltaram ali para o
porto, pegaram o seu barquinho e partiram.

Nenhum comentário:
Postar um comentário