PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 25 de junho de 2013

Grenalizando - Você Está Fazendo Isto Errado!

O Rio Grande do Sul é uma província com mais contrastes do que possa imaginar sua vã filosofia. Tem uma riqueza cultural e uma diversidade étnica muito pouco difundidas. O Rio Grande do Sul tem muitas tradições e peculiaridades. A bombacha, o churrasco, o chimarrão, o orgulho gaúcho, o passado revolucionário, tudo isso todo mundo já conhece, até mesmo no Brazil. Mas há uma tradição que é daqui, é pouco divulgada, na periferia da qual fazemos parte, chamada Brasil, e é simplesmente ignorada no país desenvolvido e civilizado do Sudeste: a grenalização!
Primeiro, caro turista, um pouco de história, vamos às origens da grenalização! Há quem diga que essa nossa tradição remonta aos tempos da Revolução Farroupilha. Não, isso é um engano da parte de alguns historiadores gaúchos e brasileiros. Ao contrário do que nos foi ensinado, até há uns 15 anos, nas carteiras escolares, a motivação principal e primordial dos farroupilhas não era política, nem social, mas sim, de ordem econômica! Só um pequeno grupo é que trouxe à pauta dos revolucionários a República e o abolicionismo. Enfim, mas essa tradição começou, de fato, com uma revolução: a Federalista, de 1893, quatro anos após a proclamação da República. Acontece que, após o golpe que depôs Pedro II e derrubou o velho sistema monarquista, não se modificou muita coisa, por exemplo, mudou-se apenas a denominação das unidades da Federação, de Províncias para Estados. Os federalistas do Rio Grande do Sul defendiam, justamente, a descentralização política e uma maior autonomia dos Estados, em relação ao governo federal, coisas que o novo regime, provavelmente, deve ter prometido e depois não trouxe. A partir dessa época é que se começou a tradição, pois, na Província de São Pedro, todos, de alguma forma, tomaram partido, todos se posicionaram, ou favoráveis à revolução, à causa do federalismo, ou à manutenção do poder central, ou seja, das tropas legalistas. Daí por diante, todo mundo tinha de se definir como alguma coisa, ou como maragato (federalista), ou como chimango (governista).
Tá, mas de onde surgiu a expressão 'grenalismo'?” Bem, caro turista, imaginamos que você saiba que há dois grandes clubes de futebol, que monopolizam as paixões, por aqui, o Sport Club Internacional e o Grêmio de Football Porto-alegrense. Aqui não há outros times que rivalizem em grandeza, nem em conquistas, aos dois maiores, ambos da capital da província. Há, portanto, uma dicotomia futebolística, mais ou menos como a dicotomia política, dos tempos de guerra civil, aqui, ou você é colorado, ou é gremista. O grande clássico de futebol já surgiu, nos anos 1910, com essa divisão e, lá pelos anos 1940, ganhou a alcunha de gre-Nal. E até que faz sentido!
Então, assim é que surgiram, posteriormente, as expressões grenalismo, grenalização, grenalizar e por aí vai! Grenalizar nada mais é do que a atitude, bastante gaúcha, como você agora já sabe, de se posicionar, de ter uma opinião sobre absolutamente tudo – ou quase – seja a favor, ou contrária. Aqui se é, ou colorado, ou gremista; ou revolucionário, ou conservador; ou de esquerda, ou de direita; ou governista, ou oposicionista – é, ainda temos alguns maragatos e chimangos; ou getulista, ou brizolista – algumas vezes, ambos ao mesmo tempo, mas são casos raros, como papai, por exemplo.
Sim, algumas vezes essa tradição pode ser um tanto incômoda, às vezes causa transtornos e atrapalha o desenvolvimento da província. Vários projetos importantes, por exemplo, estão empacados, muitos deles, há mais de 20 anos, por causa da nossa atitude grenalista. Quando o governo quer avançar algum projeto de importância, a oposição atrapalha. E vice-versa...
Recentemente, caro turista, percebemos – e você também, agora, estando de posse destas importantes informações pra toda vida – que a turminha animadinha lá do grande país desenvolvido e civilizado do Sudeste, que tem liderado por lá, as manifestações pela redução das tarifas do transporte público, contra a corrupção, pelo respeito à diversidade, contra as PECs 33 e 37, contra os gastos exorbitantes com os eventos FIFA, etc, assim como a grande mídia do “centro” do país e alguns partidos políticos da ala governista, têm grenalizado a parada toda – e o pior, como se soubessem fazê-lo! A título de curiosidade, caro turista, pergunte a qualquer membro do MPL (Movimento pelo Passe Livre, SP) se ele sabe que está grenalizando o próprio movimento e os manifestos e se sabe o que quer dizer grenalizar. Surpreenda-se se ele souber, amigo turista! Alguns partidos da base governista (federal, que fique bem claro) tacharam manifestantes apartidários de “grupos nazi-fascistas infiltrados” por estes não admitirem que militantes dos referidos partidos – ditos “de esquerda” – participassem dos protestos, que, de certa forma, são CONTRA eles! Uma repórter do canal de notícias afiliado da grande rede de tevê dos bispos da IURD, falando sobre os protestos em Porto Alegre e evocando a relação “esquerda-direita”, diz que um jovem, que pichava, na imagem das câmeras, um prédio público com o símbolo ANARQUISTA, usava uma jaqueta de um “grupo radical de direita” – sendo que os anarquistas não se inserem no grenalismo político, por não serem favoráveis nem à esquerda e muito menos à direita! Se trata de um grupo radical, sim, mas anti-sistema (QUALQUER sistema), anti-governo (QUALQUER governo), portanto... nem colorado, nem gremista, nem maragato, nem chimango, nem de “esquerda”, nem de “direita”! Preste atenção, caro turista! Eles estão grenalizando a parada, e estão fazendo isto MUITO errado!

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