O
Rio Grande do Sul é uma província com mais contrastes
do que possa imaginar sua vã filosofia. Tem uma riqueza
cultural e uma diversidade étnica muito pouco difundidas. O
Rio Grande do Sul tem muitas tradições e
peculiaridades. A bombacha, o churrasco, o chimarrão, o
orgulho gaúcho, o passado revolucionário, tudo isso
todo mundo já conhece, até mesmo no Brazil. Mas há
uma tradição que é daqui, é pouco
divulgada, na periferia da qual fazemos parte, chamada Brasil, e é
simplesmente ignorada no país desenvolvido e civilizado do
Sudeste: a grenalização!
Primeiro,
caro turista, um pouco de história, vamos às origens da
grenalização! Há quem diga que essa nossa
tradição remonta aos tempos da Revolução
Farroupilha. Não, isso é um engano da parte de alguns
historiadores gaúchos e brasileiros. Ao contrário do
que nos foi ensinado, até há uns 15 anos, nas carteiras
escolares, a motivação principal e primordial dos
farroupilhas não era política, nem social, mas sim, de
ordem econômica! Só um pequeno grupo é que trouxe
à pauta dos revolucionários a República e o
abolicionismo. Enfim, mas essa tradição começou,
de fato, com uma revolução: a Federalista, de 1893,
quatro anos após a proclamação da República.
Acontece que, após o golpe que depôs Pedro II e derrubou
o velho sistema monarquista, não se modificou muita coisa, por
exemplo, mudou-se apenas a denominação das unidades da
Federação, de Províncias para Estados. Os
federalistas do Rio Grande do Sul defendiam, justamente, a
descentralização política e uma maior autonomia
dos Estados, em relação ao governo federal, coisas que
o novo regime, provavelmente, deve ter prometido e depois não
trouxe. A partir dessa época é que se começou a
tradição, pois, na Província de São
Pedro, todos, de alguma forma, tomaram partido, todos se
posicionaram, ou favoráveis à revolução,
à causa do federalismo, ou à manutenção
do poder central, ou seja, das tropas legalistas. Daí por
diante, todo mundo tinha de se definir como alguma coisa, ou como
maragato (federalista), ou como chimango (governista).
“Tá,
mas de onde surgiu a expressão 'grenalismo'?” Bem, caro
turista, imaginamos que você saiba que há dois grandes
clubes de futebol, que monopolizam as paixões, por aqui, o
Sport Club Internacional e o Grêmio de Football
Porto-alegrense. Aqui não há outros times que rivalizem
em grandeza, nem em conquistas, aos dois maiores, ambos da capital da
província. Há, portanto, uma dicotomia futebolística,
mais ou menos como a dicotomia política, dos tempos de guerra
civil, aqui, ou você é colorado, ou é gremista. O
grande clássico de futebol já surgiu, nos anos 1910,
com essa divisão e, lá pelos anos 1940, ganhou a
alcunha de gre-Nal. E até que faz sentido!
Então,
assim é que surgiram, posteriormente, as expressões
grenalismo, grenalização, grenalizar e
por aí vai! Grenalizar nada mais é do que a atitude,
bastante gaúcha, como você agora já sabe, de se
posicionar, de ter uma opinião sobre absolutamente tudo – ou
quase – seja a favor, ou contrária. Aqui se é, ou
colorado, ou gremista; ou revolucionário, ou conservador; ou
de esquerda, ou de direita; ou governista, ou oposicionista – é,
ainda temos alguns maragatos e chimangos; ou getulista, ou brizolista
– algumas vezes, ambos ao mesmo tempo, mas são casos raros,
como papai, por exemplo.
Sim,
algumas vezes essa tradição pode ser um tanto incômoda,
às vezes causa transtornos e atrapalha o desenvolvimento da
província. Vários projetos importantes, por exemplo,
estão empacados, muitos deles, há mais de 20 anos, por
causa da nossa atitude grenalista. Quando o governo quer avançar
algum projeto de importância, a oposição
atrapalha. E vice-versa...
Recentemente,
caro turista, percebemos – e você também, agora,
estando de posse destas importantes informações pra
toda vida – que a turminha animadinha lá do grande país
desenvolvido e civilizado do Sudeste, que tem liderado por lá,
as manifestações pela redução das tarifas
do transporte público, contra a corrupção, pelo
respeito à diversidade, contra as PECs 33 e 37, contra os
gastos exorbitantes com os eventos FIFA, etc, assim como a grande
mídia do “centro” do país e alguns partidos
políticos da ala governista, têm grenalizado a parada
toda – e o pior, como se soubessem fazê-lo! A título
de curiosidade, caro turista, pergunte a qualquer membro do MPL
(Movimento pelo Passe Livre, SP) se ele sabe que está
grenalizando o próprio movimento e os manifestos e se sabe o
que quer dizer grenalizar. Surpreenda-se se ele souber, amigo
turista! Alguns partidos da base governista (federal, que fique bem
claro) tacharam manifestantes apartidários de “grupos
nazi-fascistas infiltrados” por estes não admitirem que
militantes dos referidos partidos – ditos “de esquerda” –
participassem dos protestos, que, de certa forma, são CONTRA
eles! Uma repórter do canal de notícias afiliado da
grande rede de tevê dos bispos da IURD, falando sobre os
protestos em Porto Alegre e evocando a relação
“esquerda-direita”, diz que um jovem, que pichava, na imagem das
câmeras, um prédio público com o símbolo
ANARQUISTA, usava uma jaqueta de um “grupo radical de direita” –
sendo que os anarquistas não se inserem no grenalismo
político, por não serem favoráveis nem à
esquerda e muito menos à direita! Se trata de um grupo
radical, sim, mas anti-sistema (QUALQUER sistema), anti-governo
(QUALQUER governo), portanto... nem colorado, nem gremista, nem
maragato, nem chimango, nem de “esquerda”, nem de “direita”!
Preste atenção, caro turista! Eles estão
grenalizando a parada, e estão fazendo isto MUITO errado!

Nenhum comentário:
Postar um comentário