Suas
noites têm sido agitadas. Tem acordado várias vezes
durante a madrugada, seu sono tem sido muito quebrado. Não tem
entendido o por quê disso, só que tem ido dormir muito
tarde, ultimamente, tendo acordado quase de hora em hora, após
estranhos e perturbadores sonhos, que ele sabe, devem ter algum
sentido, mas cujo significado, ele ainda desconhece.
Dias
atrás, ele teve dois sonhos, praticamente seguidos, envolvendo
sua musa. De fato, as relações estavam um tanto
estremecidas, ele perdia horas importantes de sono pensando e
remoendo certas coisas, algumas, fruto de sua própria
imaginação, acelerada demais, outras de pequenos
enganos no modo de tratarem a situação.
No
primeiro sonho, o que mais temia, havia acontecido: algo muito pior
que o silêncio dela, martelando seu coração, dia
após dia. A ausência, definitiva, da sua vida: no sonho,
ele descobria ter sido excluído das listas de “amigos” nas
redes sociais. Elas são seu último elo, a persistência
de uma relação que, para ele, mesmo não sendo a
ideal, é muito importante, essencial, até pode-se
dizer. As emoções negativas e depressivas do sonho se
manifestaram nas lágrimas que ele tentava conter em vão,
ao acordar. Viu-se desesperado, tentando convencer-se de que era
apenas um sonho, não passava de um pesadelo. Voltou, então,
a dormir. Acordou novamente, sobressaltado, após o segundo
sonho, em que conversava com alguns amigos seus, quando recebia uma
ligação, olhava seu celular, para ver quem era... era
ela quem ligava! Mas, quando ia atender, o telefone ficava
completamente mudo, nem ele conseguia ouvi-la, nem ela podia ouvi-lo.
Mesmo
perturbado pelos dois sonhos, para esse segundo, ele pensou que já
tinha uma explicação, uma resposta: nos últimos
dias, os dois não estavam se entendendo, podia-se dizer que se
falavam, mas não se ouviam, fechavam-se e concentravam-se mais
no que tinham para dizer que no que precisavam escutar. Enfim, “o
telefone estava mudo”, não havia comunicação!
Não
os contou para ninguém, passou o fim de semana matutando sobre
os sonhos, preocupado, pensando que, talvez, assim que voltasse ao
trabalho, na segunda-feira, poderia descobrir que o primeiro sonho
podia ter se tornado realidade. Ficou aliviado, ao constatar que, na
segunda, tudo estava como antes, não tinha perdido o último
contato com ela, com sua amada. Procurou ficar mais tranqüilo,
mas ainda não conseguiu conciliar o sono, ainda não
conseguiu dormir direito. E, nas últimas noites, sonhos ainda
mais esquisitos têm lhe deixado atarantado, sem ainda entender
o seu significado. Dos vários sonhos da madrugada anterior,
marcou um em que encontrava-se em frente ao altar da igreja matriz,
em Manaus. Estava de pé, observava que, atrás de si, a
igreja estava repleta, muita gente que não conhecia, ou pelo
menos, de quem não se lembrava, alguns amigos mais chegados, a
sua família, uns conhecidos e colegas da internet, estavam por
ali. Era, pelo que pode perceber, no finalzinho do sonho, um
casamento... mas, seria o seu...?! Naquela igreja?! E quem seria a
noiva?! Não conseguiu vê-la entrar, acordou logo em
seguida, sentindo-se naturalmente sobressaltado.
Na
última madrugada, mais uma vez, o sono quebrado, acordou
várias vezes durante a noite, depois de algum sonho estranho,
ou vívido demais. Lembrou-se de ter sonhado que estava
seguindo sua rotina de todo dia, levantava-se da cama, ia até
a cozinha, para tomar café, para depois arrumar-se e sair para
o trabalho. Então, algo raro, seu padrasto lhe dirige a
palavra: diz ter ouvido no rádio, ou visto no jornal da tv,
que a segunda fase do tal concurso público que ele fizera, na
primeira metade do ano, iria ocorrer logo após o carnaval. Sua
mãe parece repreender, com o olhar, seu padrasto, e lhe diz
que agora não há mais jeito, que agora já voltou
para “casa”, que não tem condições de
empreender a viagem de novo, tão cedo! O padrasto parece
concordar e lamentar a má-sorte. Depois, parece lembrar-se de
algum site de viagens, ou de cartões de crédito,
falando-lhe o endereço, meio que num sussurro.
Ele
acorda com aquele pensamento encrustado em sua mente. E se fosse,
mesmo, um aviso, para ele se preparar? Se a entidade responsável
pelo concurso estivesse mesmo planejando isso? Será que, em
tão pouco tempo, ele conseguiria se preparar melhor do que
fizera antes, para empreender essa nova jornada?! Ele pensou a
respeito, por alguns minutos, pesando todos os prós e contras
que poderia pesar, antes de novamente cair no sono e, em questão
de minutos, ter mais um sonho, tão complexo e cheio de
detalhes quanto o que veio a seguir: ele estava no meio de um
deserto, sobre altas dunas arenosas, observando os homens que estavam
a seu redor, carregando couraças e peitorais, elmos, lanças,
espadas e escudos. Era uma época bastante antiga, e ele
presumiu que os homens à sua volta eram uma tropa do exército
egípcio, dos tempos dos faraós. Eles pareciam aguardar
o ataque de outro exército. Era uma emboscada, para o inimigo,
que logo vi: um outro exército, com homens vestindo túnicas,
elmos, escudos aparentando ser do mesmo material dos peitorais dos
guerreiros. O outro exército, pelo que entendeu, era
israelense, talvez dos tempos dos reis Davi e Salomão, não
tinha bem certeza. Só podia presumir que fossem. Viu-os sendo
massacrados pelo exército egípcio, que estava sobre as
dunas, que cercavam uma espécie de vale, ou depressão.
Acordou
assustado com as cores vivas e os detalhes do sonho. Esse não
parecia querer ter qualquer significado. Contou para uma amiga, que,
como ele, crê em várias encarnações, que
sugeriu, talvez fosse a lembrança de alguma vida anterior,
passada naqueles tempos do sonho. Sim, ele concordou, pode até
ser algo assim... mas, por quê?! Por que uma lembrança
dessas, agora?! O que pode significar, agora?!


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