PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Agitos Noturnos


Suas noites têm sido agitadas. Tem acordado várias vezes durante a madrugada, seu sono tem sido muito quebrado. Não tem entendido o por quê disso, só que tem ido dormir muito tarde, ultimamente, tendo acordado quase de hora em hora, após estranhos e perturbadores sonhos, que ele sabe, devem ter algum sentido, mas cujo significado, ele ainda desconhece.
Dias atrás, ele teve dois sonhos, praticamente seguidos, envolvendo sua musa. De fato, as relações estavam um tanto estremecidas, ele perdia horas importantes de sono pensando e remoendo certas coisas, algumas, fruto de sua própria imaginação, acelerada demais, outras de pequenos enganos no modo de tratarem a situação.
No primeiro sonho, o que mais temia, havia acontecido: algo muito pior que o silêncio dela, martelando seu coração, dia após dia. A ausência, definitiva, da sua vida: no sonho, ele descobria ter sido excluído das listas de “amigos” nas redes sociais. Elas são seu último elo, a persistência de uma relação que, para ele, mesmo não sendo a ideal, é muito importante, essencial, até pode-se dizer. As emoções negativas e depressivas do sonho se manifestaram nas lágrimas que ele tentava conter em vão, ao acordar. Viu-se desesperado, tentando convencer-se de que era apenas um sonho, não passava de um pesadelo. Voltou, então, a dormir. Acordou novamente, sobressaltado, após o segundo sonho, em que conversava com alguns amigos seus, quando recebia uma ligação, olhava seu celular, para ver quem era... era ela quem ligava! Mas, quando ia atender, o telefone ficava completamente mudo, nem ele conseguia ouvi-la, nem ela podia ouvi-lo.
Mesmo perturbado pelos dois sonhos, para esse segundo, ele pensou que já tinha uma explicação, uma resposta: nos últimos dias, os dois não estavam se entendendo, podia-se dizer que se falavam, mas não se ouviam, fechavam-se e concentravam-se mais no que tinham para dizer que no que precisavam escutar. Enfim, “o telefone estava mudo”, não havia comunicação!
Não os contou para ninguém, passou o fim de semana matutando sobre os sonhos, preocupado, pensando que, talvez, assim que voltasse ao trabalho, na segunda-feira, poderia descobrir que o primeiro sonho podia ter se tornado realidade. Ficou aliviado, ao constatar que, na segunda, tudo estava como antes, não tinha perdido o último contato com ela, com sua amada. Procurou ficar mais tranqüilo, mas ainda não conseguiu conciliar o sono, ainda não conseguiu dormir direito. E, nas últimas noites, sonhos ainda mais esquisitos têm lhe deixado atarantado, sem ainda entender o seu significado. Dos vários sonhos da madrugada anterior, marcou um em que encontrava-se em frente ao altar da igreja matriz, em Manaus. Estava de pé, observava que, atrás de si, a igreja estava repleta, muita gente que não conhecia, ou pelo menos, de quem não se lembrava, alguns amigos mais chegados, a sua família, uns conhecidos e colegas da internet, estavam por ali. Era, pelo que pode perceber, no finalzinho do sonho, um casamento... mas, seria o seu...?! Naquela igreja?! E quem seria a noiva?! Não conseguiu vê-la entrar, acordou logo em seguida, sentindo-se naturalmente sobressaltado.
Na última madrugada, mais uma vez, o sono quebrado, acordou várias vezes durante a noite, depois de algum sonho estranho, ou vívido demais. Lembrou-se de ter sonhado que estava seguindo sua rotina de todo dia, levantava-se da cama, ia até a cozinha, para tomar café, para depois arrumar-se e sair para o trabalho. Então, algo raro, seu padrasto lhe dirige a palavra: diz ter ouvido no rádio, ou visto no jornal da tv, que a segunda fase do tal concurso público que ele fizera, na primeira metade do ano, iria ocorrer logo após o carnaval. Sua mãe parece repreender, com o olhar, seu padrasto, e lhe diz que agora não há mais jeito, que agora já voltou para “casa”, que não tem condições de empreender a viagem de novo, tão cedo! O padrasto parece concordar e lamentar a má-sorte. Depois, parece lembrar-se de algum site de viagens, ou de cartões de crédito, falando-lhe o endereço, meio que num sussurro.
Ele acorda com aquele pensamento encrustado em sua mente. E se fosse, mesmo, um aviso, para ele se preparar? Se a entidade responsável pelo concurso estivesse mesmo planejando isso? Será que, em tão pouco tempo, ele conseguiria se preparar melhor do que fizera antes, para empreender essa nova jornada?! Ele pensou a respeito, por alguns minutos, pesando todos os prós e contras que poderia pesar, antes de novamente cair no sono e, em questão de minutos, ter mais um sonho, tão complexo e cheio de detalhes quanto o que veio a seguir: ele estava no meio de um deserto, sobre altas dunas arenosas, observando os homens que estavam a seu redor, carregando couraças e peitorais, elmos, lanças, espadas e escudos. Era uma época bastante antiga, e ele presumiu que os homens à sua volta eram uma tropa do exército egípcio, dos tempos dos faraós. Eles pareciam aguardar o ataque de outro exército. Era uma emboscada, para o inimigo, que logo vi: um outro exército, com homens vestindo túnicas, elmos, escudos aparentando ser do mesmo material dos peitorais dos guerreiros. O outro exército, pelo que entendeu, era israelense, talvez dos tempos dos reis Davi e Salomão, não tinha bem certeza. Só podia presumir que fossem. Viu-os sendo massacrados pelo exército egípcio, que estava sobre as dunas, que cercavam uma espécie de vale, ou depressão.
Acordou assustado com as cores vivas e os detalhes do sonho. Esse não parecia querer ter qualquer significado. Contou para uma amiga, que, como ele, crê em várias encarnações, que sugeriu, talvez fosse a lembrança de alguma vida anterior, passada naqueles tempos do sonho. Sim, ele concordou, pode até ser algo assim... mas, por quê?! Por que uma lembrança dessas, agora?! O que pode significar, agora?!

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