Estou
tranqüilo só por fora, na aparência. Por dentro,
estou sempre ansioso demais, agitado por uma montanha russa de
emoções. Por aqui, bem ou mal, há uma aparente
segurança, aí volto ao comodismo, à preguiça,
prometo todos os dias a mim mesmo, que vou mudar a rotina, não
vou me deixar vencer... e todos os dias quebro minha promessa. Por
motivos que não vêm ao caso, acabo me sentindo
desmotivado, acovardado, deixo-me cair na rotina, sem muita luta.
Aqui, as coisas são assim mesmo. Não quero estar aqui.
Preferiria estar lá, no Norte, em Manaus... “O quê?!
Loucura!! Você não lembra por que passou?!” Sim, eu
lembro, sim, de cada perrengue que passei, de cada problema que tive,
por conta de uma falta de planejamento adequado, e alguma reserva,
pelo menos financeira. Há seis meses embarquei, sem lenço,
nem documento, numa aventura, numa jornada, onde fui prestar um
concurso no local onde eu queria ser lotado para trabalhar. Foi,
realmente, uma aventura, com algumas desventuras pelo caminho. Mas
enfim, lá acabei descobrindo mais sobre mim mesmo, acabei
tendo, na pele, a marca da terra que amo, como se fora um nativo seu,
sinto ter, realmente, deixado meu coração lá,
nesta terceira viagem, ao ponto de estranhar a fala do povo daqui,
mais ainda, quando tentava reproduzi-la, o sotaque daqui deixou de
ser o meu, acabei me desconhecendo, falando outra língua que
não o caboquês. Preferia, mesmo, estar lá,
lutando contra as dificuldades, que foram muitas, seguir a rotina –
ou a falta de – que tinha por lá.
Pois
bem, pensando nisso, me perguntei... será que isso tem algo a
ver com a idade? Será porque estou passando pela casa dos 30
anos? É, porque eu me lembro, há dez anos eu não
tinha metade da coragem, da ousadia e da porraloucura que hoje tenho.
Há dez anos, eu não sairia pra tão longe, apenas
para participar de um concurso público! Sem nem certeza,
direito, de ter um teto onde ficar! Sério mermo, hoje em dia,
eu corro bem mais riscos do que anos atrás, sobretudo pra
alcançar meus pequenos objetivos.
Até
hoje, o mais perto de uma viagem ao exterior que fiz, foi ir até
a fronteira do Brasil com o Uruguai, em Santana do Livramento –
tendo passado a noite em Rivera, na banda uruguaya! E, de vez em
quando, eu vejo, nos classificados dos jornais, um anúncio, do
governo canadense, convocando profissionais de todas as áreas,
com bons conhecimentos de inglês, francês, ou ambos os
idiomas, para emigrarem ao Canadá. Sei me virar, mais ou
menos, em inglês, agora me falta uma profissão! Tem dia
que leio esses anúncios e penso seriamente em me mandar, de
mala e cuia, pro Canadá, apesar da minha famigerada
intolerância ao frio... é que é uma experiência
que me parece muito interessante, conhecer outro país, viver
lá, por um tempo, ver qual é que é! Novamente,
há uns dez anos, quando a exigência profissional era
mais baixa, com a cabeça que tenho hoje, talvez não
pensasse nem duas vezes. Mas, né...
É,
sim, acho que é da idade, mesmo... tenho uma amiga, que
cheguei a jurar, quando chegasse aos 30, iria querer estabilidade
total, segurança, coisa e tal, que então iria já
estar atrás de um marido, até mesmo rebaixando seu
nível de exigência! Ledo engano: chegou aos 30 este ano,
e parece estar buscando bem mais “aproveitar” a vida, por vezes,
ela me parece mais adolescente que sua irmã, que tem
exatamente a metade de sua idade! Seus últimos relacionamentos
têm sido mais casos, mesmo, que namoros, ou ficadas. É
interessante, ela parece querer recuperar o tempo perdido da
juventude, ou algo assim.
Pensei,
então: por que esse meu gosto, meio que repentino, por
aventuras e presepadas, por uma vida mais cigana, mais sem rotinas,
me preocupando apenas em estar na cidade que quero estar? Talvez
seja, mesmo, uma síndrome dos 30? Estaremos passando por
alguma nova fase de transição, mais ou menos como a
adolescência, mesmo, onde saímos da infância e
começamos a amadurecer, até chegar à fase
adulta? Será uma transição da fase jovem adulta
para a adulta madura? Será?! Bom, não sou psicólogo,
nem psiquiatra, não estudei muito sobre o caso... mas acho que
até que tem a ver! Se não tem, enfim, não faz
tanta diferença, é que comecei a me preocupar, quando
me vi em frente a uma vitrine de loja de calçados, pensando
seriamente em adquirir um par de tênis All Star...

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