PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Em Hibernação

Não mais era esperado, e por isso mesmo ele voltou com força, de com tudo, com ventos e muita chuva. O infernal inverno parecia que já tinha ido embora, as árvores do parque Farroupilha já estão completamente floridas, flores de todas as cores, rosadas, amarelas, azuis, lilases, brancas... enfim! O calor já era quase de verão, nos finais de semana já estávamos desejosos de pegar uma praia.
Só que veio o vento, as nuvens carregadas e cinzentas, chegando da banda oriental do Uruguai, o sábado amanheceu muito úmido, muito feio e frio. A chuva caiu torrencialmente desde o amanhecer até à noite e continuou assim por todo o domingo. Com chuva e frio, sem muito pila nos bolsos, o convite para a preguiça e o sono é praticamente irresistível, não nos resta muito a fazer a não ser se encasular sob mantas e cobertores, numa caverna escura e funda, a que chamamos de quarto e, enquanto esperamos a chuva passar e, quem sabe, o verãozinho retornar, hiberna-se.
E enquanto hiberna, ele viaja. Passeia por estranhas versões deste nosso mundinho. Volta por uns instantes para sua casa e vê os digníssimos governantes, em algum evento oficial, para inaugurar, com toda pompa e circunstância, um novo projeto na Ponta do Eymael. “Mas... por que na Ponta do Eymael?”, ele se pergunta. “E não seria Ponta do ISMAEL?!” Ele, pelo menos, ouvia chamarem assim...
Depois, subia a ladeira, no avançado da noite, entre a estação de metrô do Centro e a da avenida Louis Pasteur, para encontrar uma pessoa conhecida...(?) não encontrando o que havia ido procurar, voltava, em pleno dia, pedalando perigosamente por entre os carros, em meio a um trânsito pesado, ao qual não se lembra de estar habituado, passando por prédios dos quais não tem certeza se conhece, descendo a ladeira de volta, sentindo-se desconfortável com a sensação de que aquela ladeira sequer deveria existir.
Depois, ele ia a um restaurante elegante, vestido igualmente elegante, para encontrar com você, com a bela morena por quem ele se perde, de vez em quando. Ou será que estão na praça de alimentação daquele shopping, em frente ao qual vocês se viram uma vez? Bom, tanto faz, na verdade ele tem alguma noção de que, na verdade, ainda está na sua caverna escura, encapsulado nas suas cobertas, hibernando e sentindo os pés gelados, mesmo com os dois pares de meias. Ele até tem a impressão de ter já escrito isso, em algum lugar!
O frio ainda não foi de todo embora, a chuva ainda cai pesada, lá fora, mas o fim de semana, enfim, se acabou e ele tem de levantar-se, então ele acorda. Sentindo-se estranho, por estar ali, por ter sentido como real tudo aquilo que ele viu durante a sua hibernação. E o que será sonho, o que será real? Ou poderia mesmo ele ter se transportado para outros mundos, durante aquele final de semana? A gente se pergunta, se ficamos o tempo todo dentro da caverna, ou se realmente perambulamos por ruas e lugares que nos pareceram familiares e ao mesmo tempo desconhecidos. O que é sonho, mesmo, e o que é real? A gente se pergunta... e imagina, para onde vão nos levar, na próxima hibernação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário