Não
mais era esperado, e por isso mesmo ele voltou com força, de
com tudo, com ventos e muita chuva. O infernal inverno parecia que já
tinha ido embora, as árvores do parque Farroupilha já
estão completamente floridas, flores de todas as cores,
rosadas, amarelas, azuis, lilases, brancas... enfim! O calor já
era quase de verão, nos finais de semana já estávamos
desejosos de pegar uma praia.
Só
que veio o vento, as nuvens carregadas e cinzentas, chegando da banda
oriental do Uruguai, o sábado amanheceu muito úmido,
muito feio e frio. A chuva caiu torrencialmente desde o amanhecer até
à noite e continuou assim por todo o domingo. Com chuva e
frio, sem muito pila nos bolsos, o convite para a preguiça e o
sono é praticamente irresistível, não nos resta
muito a fazer a não ser se encasular sob mantas e cobertores,
numa caverna escura e funda, a que chamamos de quarto e, enquanto
esperamos a chuva passar e, quem sabe, o verãozinho retornar,
hiberna-se.
E
enquanto hiberna, ele viaja. Passeia por estranhas versões
deste nosso mundinho. Volta por uns instantes para sua casa e vê
os digníssimos governantes, em algum evento oficial, para
inaugurar, com toda pompa e circunstância, um novo projeto na
Ponta do Eymael. “Mas... por que na Ponta do Eymael?”, ele se
pergunta. “E não seria Ponta do ISMAEL?!” Ele, pelo menos,
ouvia chamarem assim...
Depois,
subia a ladeira, no avançado da noite, entre a estação
de metrô do Centro e a da avenida Louis Pasteur, para encontrar
uma pessoa conhecida...(?) não encontrando o que havia ido
procurar, voltava, em pleno dia, pedalando perigosamente por entre os
carros, em meio a um trânsito pesado, ao qual não se
lembra de estar habituado, passando por prédios dos quais não
tem certeza se conhece, descendo a ladeira de volta, sentindo-se
desconfortável com a sensação de que aquela
ladeira sequer deveria existir.
Depois,
ele ia a um restaurante elegante, vestido igualmente elegante, para
encontrar com você, com a bela morena por quem ele se perde, de
vez em quando. Ou será que estão na praça de
alimentação daquele shopping, em frente ao qual vocês
se viram uma vez? Bom, tanto faz, na verdade ele tem alguma noção
de que, na verdade, ainda está na sua caverna escura,
encapsulado nas suas cobertas, hibernando e sentindo os pés
gelados, mesmo com os dois pares de meias. Ele até tem a
impressão de ter já escrito isso, em algum lugar!
O
frio ainda não foi de todo embora, a chuva ainda cai pesada,
lá fora, mas o fim de semana, enfim, se acabou e ele tem de
levantar-se, então ele acorda. Sentindo-se estranho, por estar
ali, por ter sentido como real tudo aquilo que ele viu durante a sua
hibernação. E o que será sonho, o que será
real? Ou poderia mesmo ele ter se transportado para outros mundos,
durante aquele final de semana? A gente se pergunta, se ficamos o
tempo todo dentro da caverna, ou se realmente perambulamos por ruas e
lugares que nos pareceram familiares e ao mesmo tempo desconhecidos.
O que é sonho, mesmo, e o que é real? A gente se
pergunta... e imagina, para onde vão nos levar, na próxima
hibernação.


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