PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Every Single Night


À noite apago a luz, deito na cama e preguiçosamente espero o sono vir. Em meio à escuridão, deixo o rádio ligado, mas não presto atenção na música que toca. Os olhos estão abertos, fixando o teto, em meio ao breu, observando o nada, fitando muito além, além do nada, além do mundo, além de mim.
Estou sozinho, pensando na vida, e isso não é novidade, minha cara. Penso em como foi meu dia, nos textos que gostaria de escrever, nas ideias em dupla, que nem sei se algum dia irão ganhar o papel... penso em pequenas ideias, planos, intenções, traçando um, ou vários possíveis futuros, lembro algumas coisas agradáveis e outras nem tanto, do passado. Então recolho as coisas mentalmente espalhadas pela cama, pelo quarto e começo a pensar em você.

Enfim, canso de mirar o teto, fecho os olhos, fito para dentro de mim mesmo e penso em você. Tenho a sensação no peito, difícil de definir, não sei se é boa, ou se é ruim, um sorriso bobo se desenha em meus lábios. Imagino, visualizo você aqui, comigo... seja aqui onde aqui for. Não estou dormindo, mas não estou mais em mim, não estou neste mundo, estou num lugar muito melhor, pois estou com você ao meu lado.
Te vejo olhando para mim, com teu olhar cândido, teu sorriso meigo e doce, que me faz esquecer as raivas, mágoas e frustrações, que seria capaz de desarmar o arsenal nuclear do mundo todo; teus cabelos soltos, suavemente emoldurando teu belo rosto moreno. O sorriso besta se alarga, mecho-me devagar, para que não desapareça, recitando teu nome, te chamando por um apelido que nem lembro se fui eu quem criou. Você parece dizer-me num sussurro: “sim, estou aqui”. Conversamos por horas a fio, até a mais alta noite, até o sono chegar, se abancar, me levar à terra dos sonhos, mais tranquilo, mesmo momentaneamente sendo separado de você.
De manhã acordo como se tivesse você aconchegada em meus braços, quase sinto meus dedos enrolarem-se em teus cabelos. O sorriso bobo ainda está lá. Pareço olhar pra você, visualizo tua cabeça pousada em meu peito, sinto a respiração ritmada, enquanto você dormita como uma gata, aninhada bem perto de mim, por vezes sou capaz de sentir teus cabelos roçando em meu rosto. É difícil não rolar uma lágrima, nesses momentos. Penso então em como será o dia, repasso o que tenho para fazer, reviso aquilo que planejei, faço uma oração, deixo-me entregar um pouco mais à preguiça e à imaginação, “quem sabe”, eu penso, desejo, “você também está aqui, estamos nós dois...” reafirmo meu amor, com a alma leve, como se te dissesse olhos nos olhos. Reafirmo também a fé em um dia, em que estaremos, realmente, juntos, quando abro os olhos e me preparo para levantar, banhar-me, vestir-me, tomar café, escovar os dentes, calçar sapatos e sair para mais um dia de trabalho, me entregar a essa rotina, que você foi uma das pessoas que me ensinaram a valorizar.
Antes disso tudo, me despeço de você, de nosso mundinho secreto, particular, beijo teus cabelos, tuas pálpebras, teus lábios, suavemente, para não te acordar – ou não assustar. Te deixo dormindo, aí, separada de mim por kilômetros e pelo fuso horário. Sei que logo mais a noite chega e nos encontraremos, de novo. Só em minha mente, ou realmente, num mundo particular, num mundo de sonhos, talvez nossa própria Nárnia, onde nos encontramos, ao menos, em espírito, não sei... sei apenas que, tendo você, não me sinto mais tão sozinho.



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