À
noite apago a luz, deito na cama e preguiçosamente espero o
sono vir. Em meio à escuridão, deixo o rádio
ligado, mas não presto atenção na música
que toca. Os olhos estão abertos, fixando o teto, em meio ao
breu, observando o nada, fitando muito além, além do
nada, além do mundo, além de mim.
Estou
sozinho, pensando na vida, e isso não é novidade, minha
cara. Penso em como foi meu dia, nos textos que gostaria de escrever,
nas ideias em dupla, que nem sei se algum dia irão ganhar o
papel... penso em pequenas ideias, planos, intenções,
traçando um, ou vários possíveis futuros, lembro
algumas coisas agradáveis e outras nem tanto, do passado.
Então recolho as coisas mentalmente espalhadas pela cama, pelo
quarto e começo a pensar em você.
Enfim,
canso de mirar o teto, fecho os olhos, fito para dentro de mim mesmo
e penso em você. Tenho a sensação no peito,
difícil de definir, não sei se é boa, ou se é
ruim, um sorriso bobo se desenha em meus lábios. Imagino,
visualizo você aqui, comigo... seja aqui onde aqui for. Não
estou dormindo, mas não estou mais em mim, não estou
neste mundo, estou num lugar muito melhor, pois estou com você
ao meu lado.
Te
vejo olhando para mim, com teu olhar cândido, teu sorriso meigo
e doce, que me faz esquecer as raivas, mágoas e frustrações,
que seria capaz de desarmar o arsenal nuclear do mundo todo; teus
cabelos soltos, suavemente emoldurando teu belo rosto moreno. O
sorriso besta se alarga, mecho-me devagar, para que não
desapareça, recitando teu nome, te chamando por um apelido que
nem lembro se fui eu quem criou. Você parece dizer-me num
sussurro: “sim, estou aqui”. Conversamos por horas a fio, até
a mais alta noite, até o sono chegar, se abancar, me levar à
terra dos sonhos, mais tranquilo, mesmo momentaneamente sendo
separado de você.
De
manhã acordo como se tivesse você aconchegada em meus
braços, quase sinto meus dedos enrolarem-se em teus cabelos. O
sorriso bobo ainda está lá. Pareço olhar pra
você, visualizo tua cabeça pousada em meu peito, sinto a
respiração ritmada, enquanto você dormita como
uma gata, aninhada bem perto de mim, por vezes sou capaz de sentir
teus cabelos roçando em meu rosto. É difícil não
rolar uma lágrima, nesses momentos. Penso então em como
será o dia, repasso o que tenho para fazer, reviso aquilo que
planejei, faço uma oração, deixo-me entregar um
pouco mais à preguiça e à imaginação,
“quem sabe”, eu penso, desejo, “você também está
aqui, estamos nós dois...” reafirmo meu amor, com a alma
leve, como se te dissesse olhos nos olhos. Reafirmo também a
fé em um dia, em que estaremos, realmente, juntos, quando abro
os olhos e me preparo para levantar, banhar-me, vestir-me, tomar
café, escovar os dentes, calçar sapatos e sair para
mais um dia de trabalho, me entregar a essa rotina, que você
foi uma das pessoas que me ensinaram a valorizar.
Antes
disso tudo, me despeço de você, de nosso mundinho
secreto, particular, beijo teus cabelos, tuas pálpebras, teus
lábios, suavemente, para não te acordar – ou não
assustar. Te deixo dormindo, aí, separada de mim por
kilômetros e pelo fuso horário. Sei que logo mais a
noite chega e nos encontraremos, de novo. Só em minha mente,
ou realmente, num mundo particular, num mundo de sonhos, talvez nossa
própria Nárnia, onde nos encontramos, ao menos, em
espírito, não sei... sei apenas que, tendo você,
não me sinto mais tão sozinho.



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