PESCANDO NO BODOSAL

domingo, 3 de julho de 2011

A Vida e Obra de Luiz Ferris - o maior artista do Mundo de todos os tempos (parte I)


Luiz é o cara! Ele tem absoluta certeza disso. Não há cantor como ele, os mais antigos diziam que Frank Sinatra, cantor norte-americano, era “A voz”, mas Luiz considerava isso um absoluto absurdo! Ele costuma dizer que, se também fosse americano, seria muito maior que Frank Sinatra! ELE é que devia ser “a voz”! No violão, não tem pra Almir Sater, Zé Ramalho, Yamandu Costa... o melhor do Brasil, das Américas, do mundo e, quiçá, do Rio de Janeiro todo, com toda certeza, era ele! Na guitarra, todos esses nomes gringos: Jimy Hendrix, Jimmy Page, Keith Richards, Carlos Santana, Erik Clapton, George Harrison... não passavam de amadores! Não tem pra ninguém, Luiz Ferris é o verdadeiro Deus da guitarra! E ai de quem diga o contrário!
O problema é que muita gente dizia o contrário. Muita gente mesmo! Pessoas sem capacidade para perceber um verdadeiro talento, gente sem cultura musical, sem noção, não conseguiam distinguir em meio à multidão o grande gênio de Luiz Ferris! Ele não era nenhum medíocre, disso tinha absoluta certeza. Todos os que riram-se dele e o chamaram assim, um dia haveriam de pagar, de preferência assim que ele alcançasse o almejado sucesso! Aqui se faz, aqui se paga, sempre dizia ele.
Luiz Ferris foi tocar nas noites cariocas, nos barzinhos boêmios da Lapa, Leblon, Barra... só os amigos conseguiam ver sua genialidade. A viam e a invejavam! Todos queriam ser como ele, ter seu talento, não havia dúvidas disso, para ele. Quer dizer: ter o seu talento?! Não!! Queriam roubá-lo! Seus amigos músicos da noite eram todos falsos, sobretudo aquele alemãozinho que tocava balalaika. O alemãozinho só tocava balalaika porque Luiz preferiu aprender violão. Luiz tinha certeza, quando garoto, que como violeiro seria o melhor dentre os melhores, faria mais sucesso que qualquer outro! Mas, tocando aquela espécie de cavaquinho russo?? Não iria chegar a lugar algum com aquilo... era melhor deixar aquele instrumento para Sílvio, o alemão.
E quem poderia imaginar que, algum dia, alguém faria sucesso tocando aquele instrumento estrambólico? Sabia que George Harrison tinha começado tudo, trazendo aquela estranha guitarra indiana para o Ocidente... qual era o nome daquilo, mesmo? Bom, não importa! Luiz sempre teve certeza de que aquele seria um caso isolado. E agora, Sílvio estava metido, tava todo todo, com o sucesso, tinha ficado com a cabeça virada. Nem ao menos reconhecia que, se não fosse por ele ter escolhido o violão e deixado a balalaika de lado, nunca que o alemão teria ficado famoso! Esse mundo é muito ingrato, mesmo... todos os seus velhos amigos eram ingratos! Bastava alcançarem um pouquinho de fama pra que o esquecessem, e nem mais pagassem a ceva pra ele, ou fossem com ele no Posto 8.
Luiz sabia que ia viver da música. Desde muito jovem, ele tinha certeza absoluta disso. Só que a grana que ganhava, cantando e tocando na noite não chegava. Luiz sabia que podia ganhar mais! Esses donos de bares, churrascarias, boates e casas noturnas é que não passavam de uns exploradores! Todos eles!! O Gaúcho, dono de uma churrascaria na Barra era o pior de todos! Não o contratava como músico fixo, argumentava com uma desculpa esfarrapada de que deveria haver rotatividade, e tal... como se os músicos fizessem parte do cardápio de carnes do rodízio! O Gaúcho, então, fez uma proposta indecorosa, para contratá-lo como garçom, ou passador de carne, no verão. Aquilo era uma afronta! Um absurdo! Luiz pensou em pedir as contas – se houvesse alguma conta a pedir! Luiz disse poucas e boas para seu chefe, falou certas verdades que estavam entaladas na sua garganta, tudo sobre ele e a sua maldita raça, que era pior que nordestino, os gaúchos! Disse tudo em frente ao espelho do banheiro da churrascaria. Prometeu a si mesmo que era um ensaio, apenas, que diria tudo direto ao Gaúcho no momento oportuno.
Luiz resolveu dar um tempo na música. Só um tempo... partiu para outros caminhos, a fim de juntar algum dinheiro, fazer um capital para investir na sua carreira musical, no futuro, quem sabe até para gravar seu primeiro LP! Sua carreira musical, enfim, iria deslanchar, Luiz tinha absoluta certeza! Ele nem notava que tinha certezas absolutas demais... e que nenhuma dava certo! Luiz era botafoguense. Tinha certeza absoluta de que era o melhor time do mundo. Seu Botafogo não iria perder a Libertadores. Tinha um timaço, Túlio Maravilha era o cara, melhor que Pelé! Acontece que saiu já na primeira fase. Aí, Luiz teve certeza de que a arbitragem e a Conmebol fizeram tudo pra prejudicar seu time!
Enfim, nesse tempo que deu pra música, Luiz fez ótimos cursos, vários do Instituto Universal Brasileiro, ele já estava colecionando todos os gibis da Disney, por causa dos cupons que vinham encartados. Ele fez até um curso de desenho artístico e publicitário, porque talvez tivesse tanto sucesso quanto o desenhista das historinhas institucionais do IUB. Seu desenho, os seus traços, eram simplesmente fantásticos, maravilhosos! Ele tinha certeza que seria o novo Michelangelo. Mandou alguns de seus desenhos para agências de publicidade, para liceus e para editoras e gráficas. Disseram que seu desenho era razoável, mas não tinha muita profundidade, perspectiva, ou noção de luz e sombras. Luiz enfureceu-se! Mas será que ninguém conseguia perceber seu imenso talento? Não viam que ele era um workaholic, não conseguia ficar parado, estava sempre com a cabeça efervescente! Só porque ele dormia quase doze horas por dia, não queria dizer que ele não se esforçava o suficiente! De tão indignado, Luiz Ferris resolveu tomar uma atitude radical: se trancou no quarto, para desenhar e fazer música.
Depois de uma semana, ele não havia concluído nada do que começara. Mas nas mais de 14 horas de sono diárias daquela semana houve um intenso brainstorm – que à época ainda era novidade! Luiz lembrou-se do seu melhor amigo ever, o cara que lhe pagava todos os pastéis de feira, todas as cervejas, todas as passagens de ônibus e todos os tickets de metrô... Robertão Pedrosa, uma vez, lhe convidou pra fazer um tipo de uma turnê pelo Norte e Nordeste. Disse que tinha vontade de tocar em lugares como Manaus, Rio Branco, Macapá... e era isso que ia fazer! Quem sabe, não faziam o sucesso que esperavam por lá!? Robertão tinha ouvido falar que no Norte, o povo gostava de tudo o que viesse do centro do país. Quem sabe, não se dariam bem por lá? Luiz não teve dúvidas de que o amigo estava ficando louco. O que ele queria, cantar no meio do mato pra um bando de caboclos de pé no chão, analfabetos e sem cultura musical? Se é que tinham alguma cultura... sua mãe era paraense, de Santarém, e era analfabeta de pai e mãe, inculta, praticamente uma índia.
Mas agora... Luiz Ferris teve um lampejo, daqueles lampejos bestiais! Quem sabe o Robertão não estava certo? Quem sabe não fariam o sucesso almejado, no Norte? Conquistar primeiro os aborígenes e seringueiros incultos para, aí sim, depois, conquistar o Brasil e o mundo! Era isso que ele ia fazer! Imediatamente foi ligar para o amigo. Com certeza, a proposta ainda estaria de pé!

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