PESCANDO NO BODOSAL

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Bipolares

Já faz tempo que tô falando isso. Quando eu comecei a perceber esse fenômeno que se dá a cada dois anos, por ocasião das eleições, sendo que nas majoritárias – pra eleger presidente, governador, senadores, deputados – ele se acirra, eu só tinha a percepção local, da minha cidade, do meu Estado. Só quando fui morar em Manaus, tomei contato com o povo dali, fiz amigos, etc, foi que percebi que esse fenômeno não era, como inclusive tinha gente que enaltecia – ou, como eu, desancava –, um traço da cultura local, que na verdade isso é um traço, de certa forma, que une todos nós, nos mais recônditos lugares do Brasil, como brasileiros. Pensei que, se isso se reproduzia no Amazonas, da mesma forma que ocorria no Rio Grande do Sul, dois Estados muito distantes, fisicamente, aparentemente muito diferentes, então era óbvio que se tratava de um traço, de um fenômeno comum em todo país.
Pois hoje, no conhecido site de microblogs, vejo Marcelo Tas, jornalista, comunicador, ator e mais trocentas atividades, se referir a esse fenômeno, ao qual ele deu um nome, que não tinha me ocorrido ainda, embora tenha pensado num semelhante: eu pensei em chamar esses debatedores políticos de ano de eleição por binários, mas bipolares, como denominou o apresentador do programa de tevê CQC, também é bom.

Quero dizer aqui que eu sou bipolar. Ou seja: sofro de transtorno bipolar. Não me orgulho disso, não digo pra me gabar, mas anos atrás fui diagnosticado, por uma psicóloga como tendo esse problema, embora num grau, digamos, normal, que todo mundo tem e que não chega a comprometer seriamente o cotidiano, a vida pessoal, familiar e/ou profissional do indivíduo, aquela coisa toda. Mas que já foi pior, tanto que por uns seis anos, mais ou menos, me tratei com essa psicóloga. Resumindo, o transtorno bipolar é aquele em que você tem flutuações de humor, num momento chegando à euforia, no outro à depressão, ou tristeza profunda. Eu tenho isso, conheço muita gente que tem, inclusive tem gente de minha família que sofre disso também. Acontece que em ano de eleição, isso se torna um fenômeno de duração curta, todo mundo se torna bipolar, não apenas escolhe um candidato para votar, como também torce por ele, veste a camisa, o defende de forma ferrenha, por outro lado escolhendo um adversário, que lidera, ou está em segundo nas pesquisas de intenção de voto, para odiar. As pessoas passam a perceber as coisas só pelo 8 ou 80, só enxerga duas cores, ou é branco, ou é preto, não percebe as várias outras que existem, tendem a reduzir o debate político em a favor ou contra. Ou você é petralha, ou é tucano; ou é situacionista, ou oposicionista. Ou Inter, ou Grêmio.
Já falei por aqui, antes, sou (aí, sim) veementemente contrário a essa visão política, que torna o circo eleitoral numa arena, numa partida de futebol. Sou colorado fanático, mas mesmo eu sei que, quem ganha, ou perde, a partida, o campeonato, enfim, não sou exatamente eu, mas o meu time, que eu, pessoa física, indivíduo, ainda tenho minha vida particular, que não se resume ao futebol, à rodada do meio, ou fim, da semana, e que, como diz sabiamente o mestre Sérgio Freire, tenho que fazer o PIB girar.
Em casa mesmo, observo e vivencio esse fenômeno, hoje mesmo, umas duas ou três vezes, fui taxado por minha mãe e meu irmão de petralha. E isso por quê? Porque discordei de algumas opiniões suas, ou eles discordaram de algumas opiniões minhas. Mas veja, eu não voto no PT. Porém, tampouco posso ser taxado por ninguém de tucano, porque não voto no PSDB. Já votei. Nos dois. Num eu votei por ocasião da reeleição de Fernando Henrique, em 1998; no outro por ocasião da primeira eleição de Lula, em 2002. Não me arrependo... inteiramente! Mas, ao menos no momento atual, não voto mais. Em alguns tópicos estou do lado do atual partido do governo, em outros, do lado daquele considerado o principal da oposição. Na imensa maioria, estou contra ambos. Ou do lado de algum outro.
Cada dia mais tenho reforçada a opinião de que, enquanto não mudar o sistema, não fará muita diferença manter os que estão no governo, ou mudar. Os candidatos todos falam em manter o bolsa família, alguns falam em fazer reforma tributária, menos ainda falam em reforma política. Mas nenhum deles fala em reforma constitucional e institucional. No momento, acho que é disso que estamos precisando. E nem os petralhas, nem os tucanos vão fazê-lo.

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