PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Médicos e Ditadores


Não costumo falar muito a respeito. Tampouco reconheço isso. Mas é fato que tenho absoluto pavor de médico. Pra mim, quanto mais tempo eu passar longe de um posto de saúde – sobretudo de um posto de saúde do SUS, onde, segundo a propaganda oficial, a saúde é de primeiro mundo, embora eles se esqueçam de dizer que as doenças são de país subdesenvolvido – ou de um consultório médico. Quanto a hospitais, há anos tenho mantido o saudável hábito de manter uma distância segura. No máximo passo pela frente. Estive dentro de um pouquíssimas vezes. Lembro de ter ido visitar um tio, internado no Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre, de ter recebido uma injeção de penicilina no Getúlio Vargas, de ter ido outra vez, pra visitar não lembro quem, no Getúlio – mas em outra cidade – e de ter ido ver meu pai, que se recuperava de um enfarte, no Hospital Centenário, em São Leopoldo. Cheguei a ficar na entrada do 28 de Agosto também, mas a situação em que lá me encontrava não é bom nem lembrar. Gente metida a rica, barracos e espancamentos típicos de periferia, enfim... bora mudar de prosa! Ontem à noite havia parado de chover. Chovera forte, toda madrugada, toda manhã e boa parte da tarde, parando definitivamente no iniciozinho da noite. Pois bem, tomei o rumo da estação, onde peguei o trem para casa. Descendo na estação mais próxima do meu atual domicílio, constatei que não estava lá a lotação, a qual pretendia tomar para ir pra casa, então... decidi ir para casa a pé! Lá chegando, depois de uma caminhada de 20 minutos, pouco mais ou menos, cheguei em casa de minha mãe, com pouco fôlego, sensação de peso no corpo, dores e nós nos ombros e pescoço, um sono ao qual só consegui resistir até o fim do primeiro bloco do CQC... fiquei realmente preocupado! E é fato, preocupa-me mais a saúde de minha mãe, de dona Conceição – minha “mãe” manauara –, minha filha e a filha mais velha de dona Conceição – minha eterna paixão, meu eterno ódio... ou quase isso! Enfim, não me preocupa a própria saúde, porque simplesmente quase não penso que eu mesmo possa, algum dia, ficar realmente doente. Ou precisar ir a um médico, a um hospital, recorrer a planos de saúde, essa coisa toda. Bom, depois desses sintomas todos que falei, horas mais tarde, na cama, senti terríveis dores e fisgadas no joelho esquerdo, nas costas, nos braços... e pela primeira vez pensei se seria obrigado a ver um médico. Pois não é por me achar um super-herói indestrutível, ou qualquer coisa assim, que não penso na provável necessidade de consultar um doutor, é simplesmente porque tenho pavor dessa idéia e sinceramente não gostaria de ter que fazer isso. Não quero ficar doente. Nem descobrir que já estou BEM doente. Como diz um irmão meu, eu não vou procurar, porque periga de eu achar! “De repente” tenho me lembrado da Olimpíada de Beijing, dois anos atrás. Lembro que um colunista conceituado – sabe lá Deus porquê – do principal jornal do RS, talvez do Sul do país, não sei, enfim... que numa sexta-feira li um artigo escrito por esse moço, enaltecendo o governo chinês, a economia chinesa, etc. Dizia ele que, pela sua “percepção” do que via por lá, naquele ano, em que fora enviado, pela rede afiliada da Globo na região Sul, é que, “apesar da falta de liberdade de expressão, apesar da falta de um governo democrático, o povo chinês estava empregado, estava comprando seus bens de consumo e estava feliz”... aham, sim, claro... ele realmente achou que, justo na capital chinesa, seria capaz de encontrar alguém que fosse, digamos, “louco” o bastante pra admitir que a coisa não era assim tão boa, quanto os números oficiais demonstravam, que fosse capaz de criticar o governo, a falta de certas liberdades individuais e de expressão – principalmente – e mostrar algum descontentamento! Bem, continuando seu artigo, o referido colunista chegou a apregoar que tal sistema fosse adotado também aqui no Brasil. Segundo ele, o povo não precisa de democracia, não precisa de liberdade de expressão, para ser feliz. Sim, ele realmente escreveu isso, num jornal de grande circulação, aqui no Brasil – não importa o que digam os paulistas, Porto Alegre faz parte do Brasil, veja bem, para um paulistano médio nem você, aí em Ouro Preto, Alter do Chão, Rio Preto da Eva, ou em Morungava, é brasileiro! Enfim, não é essa a questão. A questão é: por que comecei a me lembrar daquela coluna, escrita e publicada há dois anos, num jornal de grande circulação local, mas do qual, você aí, de repente, jamais ouviu falar? Bom, porque acredito que as coisas se interligam... À época, achei risível a idéia do tal colunista, risível, mas também preocupante. Por anos, os jornalistas, escritores, colunistas, formadores de opinião em geral tinham que ter muito cuidado com o que iriam escrever para ser publicado num jornal. Todo jornalista mais antigo guarda recordações um tanto soturnas dos tempos do governo militar, nas décadas de 60 e 70. Eu mesmo peguei algum rescaldo disso, no início da reabertura democrática do país, nos anos 80. Até pelo menos o 3º ano do ensino fundamental – na época a gente chamava 3ª série do 1º grau – a gente discutia isso, e alguns professores começavam a discutir, timidamente, certos assuntos políticos com a gente, em sala de aula. Ok, belê, a gente, ou os que vieram antes da gente, lutaram durante 20 anos, pra que a gente pudesse ter de volta a democracia e o tal do Estado de Direito, inclusive pra que uma anta feito essa escreva um líbelo a uma ditadura violentíssima e faça apologia a isso. Tá no direito dele. Agora, o problema começa, quando a gente vê outros comunicadores e membros da imprensa ecoando essa idéia por aqui, os integrantes do atual governo federal e do partido do governo darem declarações e fazerem insinuações de que tudo caminha para esse cenário, caso seja eleita a candidata do presidente. Vejo comunicadores de rádio e tevê ainda deixarem passar tal discurso desapercebidamente, enquanto criticam outros comunicadores, redes e jornais, por uma suposta perseguição a candidata do governo, por causa do novo velho caso dos dossiês. Vejo o presidente na tevê dizer que um determinado partido deveria ser “extirpado” da política nacional, vejo a candidata do presidente acusar seus oponentes de estarem “criando factóides”, que aliás, é a palavra da moda, e vejo o “velho e bom” José Dirceu, reaparecendo, como se o mensalão nunca tivesse existido, pra dizer que há um excesso de liberdade e de direito de expressão da imprensa(!!). Voltando à China, o governo de lá começou com uma “revolução cultural”, promovida por Mao Tsé Tung, onde o seu partido tomou conta da imprensa, educação e de todo e qualquer objeto de expressão cultural, para massificar a “cultura” do Estado, para manobrar a população chinesa para onde lhes parecia não exatamente o melhor para o país, mas com certeza o mais interessante, para se perpetuarem no poder. De uma certa forma, nesses 8 anos de governo do presidente molusco e da sua bolsa-família, estamos vendo essa experiência sendo feita também aqui no Brasil. O atual governo pouco tem investido em educação, a informação é controlada, embora não haja, ainda, uma censura oficial e os números e notícias oficiais são divulgados a exaustão, para, através da repetição, serem considerados como verdades absolutas. E alguns senhores, renomados comunicadores, tanto no âmbito local, quanto no nacional, calam-se ante o que seus olhos realmente vêem, aceitam os números e as notícias oficiais, esses sim, belos factóides, anestesiam-se, como boa parte da população, admitindo as teorias conspiratórias que só servem a um grupo de pessoas – que não somos exatamente eu e você – que busca justamente se perpetuar no poder, mas fingem-se de vítimas de um terrível complô engendrado por pessoas mesquinhas com intenções obscuras. Esses formadores de opinião parecem, efetivamente, não perceber para o quê temos nos encaminhado, neste ano de eleição. Quantos deles, será, vão ver, provavelmente tarde demais, que estão aceitando demais as “verdades” governamentais, advindas de fontes obscuras!? Quantos ainda se aperceberão de seu enorme engano e se levantarão contra a perda de seus direitos e liberdades!? Quando os jornais “malignos” e “reacionários” começarem a ser fechados, será que comemorarão...? Ou será que vão começar a entender o que está, realmente, acontecendo...?! Enfim, oremos...

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