Eu tive um sonho, há uns tempos atrás, há
uns anos: nesse sonho, só conseguiria voltar a Manaus quando minha “filha”
estivesse prestes a fazer quinze anos de idade. Nele, meu ex-amor estaria mais
amorável comigo, estaria querendo voltar a ser mais agradável a meus olhos,
estaria insinuando-se com palavras cheias de mel. E eu reagiria com
desconfiança, afinal foram cinco, seis anos em que ela me repeliu, ou me
ignorou, ou fez pouco de mim e do que tivéramos... de repente estaria
repensando, revendo conceitos e pré-conceitos? Só num sonho, mesmo! Pelo menos,
foi o que pensei, na época. Me pareceu bastante plausível que, estando eu há
tanto tempo sozinho e solitário, passando as semanas indo de casa para o
trabalho, do trabalho pra casa, e os finais de semana em casa, com saídas esporádicas,
para visitar o santuário, fazer fezinha nas loterias, ou fazer compras no
supermercado, quer dizer, sem nenhuma vida social, que estaria voltando a
pensar, com um certo carinho, em alguém por quem, um dia, já fui absurdamente
apaixonado.
Enfim, num outro sonho, tempos depois, me vi
numa situação que eu mais temia ver acontecer, em que perderia minha filha do
coração, por conta da distância e de outros fatores. Com o passar do tempo,
sendo constantemente indagado sobre quando voltaria, sendo diversas vezes
pressionado e intimado para voltar aqui à cidade a todo custo, tentei apagar a
impressão negativa desse sonho, acreditando que tudo se resolveria quando aqui
chegasse. Por quatro anos, pelo tempo em que ficamos longo – muito longe! – fui
intimado e pressionado a voltar e fui levado a crer que seria bastante
bem-recebido, por quem julguei ser – e eles mesmos chegaram a dizer-me isto! –
minha segunda família.
Curiosamente, de fato, a oportunidade e a
possibilidade que me surgiram, para, enfim, voltar à cidade, ocorre exatamente
no período predito pelo sonho. Faltando pouco mais de dois meses para minha “filha”
completar quinze anos, aqui cheguei, após a viagem mais atribulada que já tive,
até hoje. E aparentemente, não é só isso que tem se plasmado na realidade como
aparecera nos sonhos! Realmente, ela, minha primeira ex-namorada manauara,
parece estar querendo, ao menos, ganhar de volta minha atenção e afeição que
lhe dediquei certa vez. Minha “filha” está, realmente, afastando-se e
isolando-se de mim, tendo aparentemente gostado de me rever só no primeiro dia,
desde então dando a entender que não passo de parte da paisagem do seu
cotidiano – como se não esteja prestes a deixar de compô-la, em breve!
Da pessoa de quem eu esperava até mesmo uma
certa animosidade, daquela que menos poderia esperar, é dela que tenho sentido
receber mais acolhimento e deferência! E de quem eu esperaria, quase que
naturalmente, maiores acolhimento, deferência, amabilidade... estes é que têm
sido menos amistosos para comigo! Tenho recebido, de sua parte, o stress
acumulado, tenho recebido agressões gratuitas, por conta de picuinhas diárias
que dizem respeito a eles, e não a mim. Tenho sentido o ambiente um tanto
carregado de negatividade, ultimamente, têm me envolvido nas suas desavenças
pessoais, têm me usado de pára-raios para todas suas frustrações, quando não
isolam-me, ou não resolvem de divertirem-se às minhas custas.
Alguns dias tenho dormido demais, outros
dias, de menos, tenho tido sono desregulado e agitado, desde que cheguei. Depois
de uns bons dois anos em que isso não acontecia, senti um aperto e uma dor no
peito, como se algo estivesse pressionando meu coração. Uma tristeza que às
vezes nem parece minha, uma depressão, um desânimo, têm me afligido... tenho
sentido, às vezes, que vou explodir, algum dia, mandando toda essa cambada bem
longe, tomar caju, sinto, por vezes, um profundo arrependimento de ter vindo
para cá. Desde o primeiro dia, sendo questionado sobre quando vou partir...
sendo sistematicamente ridicularizado, alimentando aquela gente com o meu
dinheiro, dos meus passeios e compromissos na cidade, servindo de motivo de piadas
sempre sem graça e de gosto absolutamente duvidoso... suportando o que, tenho
certeza, hóspede nenhum é obrigado a suportar, só por estar em alguma “casa de
família”. Enfim... nem se preocupem em saber quando eu vou, ou como eu
partirei... seja como for! Eu vou! E não volto!
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