PESCANDO NO BODOSAL

terça-feira, 18 de maio de 2010

33


Hoje estou um ano mais velho. Hoje completo 33 anos de idade. Fora as piadinhas clássicas, tipo “minha cruz tá pesada pra caramba”, ou “hoje acordei pregadão”, a única coisa que consigo pensar é: grandes merdas! Tô um ano mais velho! Tá, e aí? O que mais tem de diferente? Que diferença isso faz pros outros? Que diferença deveria fazer pra mim, portanto?
A véspera e o dia do meu aniversário costumam serem as datas mais deprimentes pra mim. Mais do que Natal, ou Ano Novo. São nossos Natal e Ano Novo pessoais. Quando a gente faz um recapitula dos últimos 365 dias entre o aniversário anterior e o de hoje. O que tenho pra comemorar? Beleza, tenho o fato de ter completado mais um ano neste frágil caroço de pupunha que é o nosso planeta! Tenho o fato de estar saudável, tanto quanto possa estar! Concordo, tenho o dever de agradecer e comemorar esses dois fatos. E de resto? Quais foram as outras conquistas? Onde estou? E minha família? Minha situação pessoal, no que mudou? Pois vou dizer: nada!! Nada mudou!!
Não estou em casa. Faz quase três anos que voltei pra debaixo do mesmo teto de minha mãe. Não é minha casa. Não é o meu lar. Semanas atrás escrevi um texto, refletindo sobre o que seria o nosso lugar, o nosso lar, a nossa casa. O nosso lugar no mundo. Não estou no meu lugar no mundo! Estou enfrentando dias frios e úmidos. Estou vivendo num lugar que não é o meu. Minha terra não é minha terra natal, mas não me importo nem um pouco. É fácil ser gaúcho em qualquer lugar do país. Difícil mesmo é sê-lo fora do Brasil; na Europa, no Oriente Médio, no Extremo Oriente, na Austrália... nesses lugares fica mais difícil ser gaúcho! E, ainda assim, tem gente que consegue. Dia desses vi, num telejornal, um entrevistado brasileiro morando em Nova Orleans, na Louisiana, estado do Sul dos Estados Unidos. Tava lá, ele com a sua cuia de chimarrão, conversando com o repórter, falando da demora na reconstrução da cidade, depois daquele tornado que teve, há uns cinco anos. Como eu disse, ser-se gaúcho, no Brasil, é relativamente fácil, no resto do mundo é mais difícil, mas sempre se dá um jeito. Agora: tente ser amazonense fora do Amazonas! Tente ser manauara fora de Manaus! É bem mais difícil. Talvez seja só eu, talvez pra quem nasceu amazonense, ou seja, pra “elite” dos “verdadeiros amazonenses”, seja bem mais fácil NÃO ser amazonense. Eu não sentia falta do chimarrão, não sentia falta do frio, não sentia falta do minuano gelado alfinetando meu rosto. Já tava me acostumando a chamar qualquer carne grelhada de churrasco. Não via nenhum problema em torcer para um time de fora do Amazonas, porque, afinal todos meus amigos amazonenses faziam o mesmo! Agora, é difícil suportar o frio do clima e das pessoas. Não conseguia me enturmar antes de sair daqui, hoje parece ainda mais complicado. Era pra eu estar comemorando meu aniversário em alguma peixaria, ou no pagode do Ao Mirante, vai saber.
Meu irmão mais novo tem um ano e alguns meses menos que eu. Já casou duas vezes. De cada casamento, teve um filho. E eu? Eu sou só tio! Nunca sequer tive um namoro realmente sério! Que dirá ter filhos! Fui tio cedo, meu primeiro sobrinho nasceu quando eu tinha uns sete anos. Teve um dia que eu jurava que seria pai tão cedo quanto fui tio, um pouco menos, talvez. Hoje passaram 33 tenebrosos invernos e não tenho nem um filho sequer. Ou filha. Gosto de crianças. Gosto mais de meninas. Sinto o que chamam de “inveja boa”, quando vejo um homem levando sua filha pequena pra passear no parque, no shopping, no trem... sempre me vi como o pai de uma menina. Gozado, nunca me vi cuidando de um menino. Sei que é difícil homens pensarem em nomes pros filhos, quando não se está casado, ou não se está com alguém com quem se planeje ter filhos. Mas eu pensava. Geralmente pensava em nomes de meninas. Me via sempre como pai de pelo menos duas. Natalie e Nicole, ou Nadine; por um tempo tive o ideal de dar nomes afrancezados. Depois dei uma guinada rumo ao leste europeu: Polônia, Rússia, Ucrânia. Natasha e Nádia – sim mais legal na forma deles, Nádjia, também acho! Mas cada ano a mais, cada novo aniversário me deixa com a incômoda impressão de que serei mesmo é só tio, e olhe! Tantos nardonis por aí que conseguem ser pais e eu sou só tio! Tanta gente sem a menor vontade de ser pai e eu, que tinha sonhos de ser pai, chegar a ser avô, bisavô... sou tio! Eu era pai. Um dia fui pai... ou melhor, um dia eu me senti como pai! A irmã mais nova daquela a quem me refiro como “a ex”, para preservar sua identidade e privacidade, embora não mereça... abrindo um parêntese, tá, em um universo de mais ou menos 1,7 milhão de habitantes, em Manaus, nem precisa tanto. Então tá, vamos desassegurar essa privacidade: a ex pertence a um universo de mulheres de 25 a 30 anos, moradoras do Parque Dez, filhas de gaúcho. Tenho certeza que tem menos de 1,7 milhão nesse grupo! Então... tinha essa ex, e a irmã mais nova da ex. Quando fui a conhecer pessoalmente a ex, a menina, a quem me referirei como minha “filhota”, tinha seis, sete anos... e ela me adotou já na época para pai! Ela brincava, dizendo que, como tinha mais contato com a irmã, ou seja, com a ex, ela é que era sua mãe, e que, portanto, eu era seu pai! Achei engraçado, na época. Depois me acostumei com a idéia. Gostava da ex, mas meu amor pela filhota foi construído paralelamente, à revelia do amor que eu nutria pela ex. Tanto que tenho mais é uma relação de “ex”, mesmo, com a ex, ao passo que a relação, e o carinho pela menina continuaram sendo de pai. Me sentia pai, não sentia, portanto a frustração de não ter filhos e ser apenas tio. Agora já não sei mais... ela não dá nenhum sinal de vida. Nem sei se lembrará de dar algum sinal de vida, hoje. Temo não ter mais filha, nem adotiva... e assim, sinto a frustração de nunca ter sido pai, de ser apenas o tiozão!
Apenas o tiozão... eterno amigão... ano passado, após meu aniversário, minha querida advogada era minha obsessão. Estava me fazendo mal. Até ela achar de romper comigo, jurando que eu é que sentiria falta, que correria atrás, e que ela estaria bem melhor sem mim. Beleza. O tiro saiu pela culatra. Ao ter ela rompido, na calada da noite, senti-me quase como se renascendo, senti-me livre e feliz. Estava perdendo minha paixão, a pessoa a quem me dedicara nos últimos tempos, por quem tinha pensamentos românticos e sentimentalistas. Mas estava ganhando a minha liberdade, estava me ganhando de volta. Quando ela voltou a tomar contato comigo, não me preocupei muito se estaria só novamente – ela sumia quando estava com um novo amor “pra vida toda”, e só reaparecia dali há um, dois meses, quando o “grande amor” tinha dado o pira – me senti lisonjeado por ser procurado depois de quase exato um ano de rompimento, ri com a ironia da situação, ou seja, ela acreditou que eu sentiria a sua falta e que ela é que estaria se libertando de mim, quando o que aconteceu foi o exato oposto... até um fim de semana atrás! Comecei a me questionar se não fora uma tremenda sacanagem de sua parte querer me procurar depois de tanto tempo, se eu não estava muito melhor antes, sem ela. Tive as más sensações de se estar próximo sem se estar, novamente. Ruminei pela enésima vez os sentimentos mesquinhos e deprimentes que tinha há exato um ano por ela. E eu jurava que já os havia enterrado de vez, neste tempo em que estivemos isolados um do outro. Voltei a me questionar sobre quais os reais motivos dela para ter querido voltar a me azucrinar. Eu tinha algo que o “amor de sonhos” não tinha? Pois então, o quê?? Será que era disso mesmo que estava sentindo falta, de alguém que ficasse se doendo por amá-la e não ter sua atenção? Não, porra, eu não quero isso! Estou francamente cansado de ser preterido. 33 anos completos hoje e mesmo a ex preteriu quem sacrificou quase sua vida por ela. Sou sempre alguém tão bom, cujo carinho é tão apreciado... então por que cargas d'água não posso ter o olhar onde uma mulher possa encontrar o amor de sua vida? Por que tanto cafajeste consegue enganar que é o príncipe sonhado de tanta menininha de treze a trinta e poucos e eu não sou visto assim? Por que deveria me conformar em apenas sonhar e desejar ter o colo e o abraço perfeitos para as garotas fantásticas, extraordinárias e até mesmo normais? Não mereço mesmo que alguém deseje ter em mim um porto seguro para onde voltar, um colo onde deitar a cabeça e esquecer as tristezas, um abraço caloroso onde se aconchegar nas noites de frio e solidão? Se eu, que não sou melhor que ninguém, não mereço, qual homem, afinal, merece?? Aquele zé, cujo olhar, na sua foto, demonstra CLARAMENTE que não é o amor extraordinário que você estaria buscando em seus sonhos? Pois ela, desde que a conheço, não só está buscando – ou dizendo buscar – esse tal amor de sonhos, como sempre o está encontrando! Nas mais diversas caras deslavadas de príncipes encantados que você encontra em qualquer forrozinho da zona leste! Impressionante... eu fui besta de querer dizer-lhe de minha paixão por ela, de como era arrebatado por ela... pra, quando foi preterida, me dar falsas esperanças, brincar que seria capaz de largar tudo pra “nem que fosse” me fazer companhia... só pra depois dizer preferir tentar voltar com o cara que lhe deu um pé na bunda, ou então ficar só. Pra agora estar só ainda, mas disponível e esperando por um zé com uma cara de “maravilhoso só pra você”, quer dizer, ninguém o veria como tal, ninguém o veria como amor da vida, como o amor sonhado e enfim realizado! Sem nenhuma segurança de que ele esteja fazendo o mesmo, sendo fiel a quem lhe espera! Sabendo da minha história, de como desperdicei bons 2 ou 3 anos de minha vida permanecendo fiel e me preparando pra voltar e ficar junto da ex... 33 anos de pura frustração, por ter sido o cara que sempre agiu como toda mulher romantiza que o cara perfeito agiria... pra ser preterido! Ou então ser encarado como “paizão”, “amigão”, ou o amigo gay pra quem você conta de seus problemas com os homens e desilusões amorosas! Sim, tem uma garota que só lembra de mim pra falar de sua mais nova paixonite frustrada! Como se eu fosse um confidente gay que fica olhando sério pra ela, soltando comentários que na verdade não querem dizer nada, de hora em hora... pior, como se não merecesse ser visto de outra maneira, como se não fosse homem o bastante pra lhe dar o consolo que um “homem de verdade” lhe daria. Aos 33, eu não sou “homem de verdade”! E nem “amor dos sonhos”!! De ninguém!!! Nunca fui!!! Amores, tive vários, paixões, coração pulsando mais forte, total dedicação, como já falei, fiel, carinhoso, que queira construir algo junto, ter família, ter filhos... ou filhas! Namoro? O mais longo foi de dois meses. Com a ex, o namoro foi dois anos de virtual... e vinte dias de ficadas! Eu lhe respeitei, lhe valorizei, me mantive firme como seu namorado, sem nem olhar pro lado, sem sair pra pegar ninguém na balada... pra ser desrespeitado, desvalorizado, ter meu sacrifício minimizado, nossa relação de dois anos desconsiderada, ou convenientemente esquecida! O fato de estarmos há milhares de quilômetros de distância um do outro, quando nos conhecemos, ser banalizado! Como se fôssemos europeus! Ou americanos! Como se fosse barato cruzar o país, como se tivessem dezenas de opções de transporte, como se desse pra, pelo menos uma vez no mês, empreender uma viagem dessas! Ou seja: amar, eu amei... de verdade, da rocha, pra valer, a fu... eu amei! Se fui amado na mesma proporção? Óbvio... óbvio que não! Tá na cara que não! Não estaria solteiro, sozinho, e sem filhos; não estaria passando frio, longe, muito longe, de onde quero estar; não estaria sem nenhuma perspectiva do que fazer pra comemorar a data; não estaria frustrado, desencantado e deprimido justo no dia do meu aniversário! Ninguém merece algo assim...
Tava bem sem ela de volta. Tava bem me esquecendo que o tempo tava passando. Tava bem pensando em quem sabe ser o pai da linda filhota de uma linda garota normal. Ou apenas admirando-lhe o belo sorriso da foto. Tava bem amando a todos quase da mesma forma, pois assim não sofria por não tê-los comigo, por não ser amado na mesma proporção, não sofria além do necessário com a dor alheia, que sempre me cala mais fundo quanto mais quero estar com aquela pessoa. Hoje estaria melhor assim!

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