Hoje
estou um ano mais velho. Hoje completo 33 anos de idade. Fora as
piadinhas clássicas, tipo “minha cruz tá pesada pra
caramba”, ou “hoje acordei pregadão”, a única
coisa que consigo pensar é: grandes merdas! Tô um ano
mais velho! Tá, e aí? O que mais tem de diferente? Que
diferença isso faz pros outros? Que diferença deveria
fazer pra mim, portanto?
A
véspera e o dia do meu aniversário costumam serem as
datas mais deprimentes pra mim. Mais do que Natal, ou Ano Novo. São
nossos Natal e Ano Novo pessoais. Quando a gente faz um recapitula
dos últimos 365 dias entre o aniversário anterior e o
de hoje. O que tenho pra comemorar? Beleza, tenho o fato de ter
completado mais um ano neste frágil caroço de pupunha
que é o nosso planeta! Tenho o fato de estar saudável,
tanto quanto possa estar! Concordo, tenho o dever de agradecer e
comemorar esses dois fatos. E de resto? Quais foram as outras
conquistas? Onde estou? E minha família? Minha situação
pessoal, no que mudou? Pois vou dizer: nada!! Nada mudou!!
Não
estou em casa. Faz quase três anos que voltei pra debaixo do
mesmo teto de minha mãe. Não é minha casa. Não
é o meu lar. Semanas atrás escrevi um texto, refletindo
sobre o que seria o nosso lugar, o nosso lar, a nossa casa. O nosso
lugar no mundo. Não estou no meu lugar no mundo! Estou
enfrentando dias frios e úmidos. Estou vivendo num lugar que
não é o meu. Minha terra não é minha
terra natal, mas não me importo nem um pouco. É fácil
ser gaúcho em qualquer lugar do país. Difícil
mesmo é sê-lo fora do Brasil; na Europa, no Oriente
Médio, no Extremo Oriente, na Austrália... nesses
lugares fica mais difícil ser gaúcho! E, ainda assim,
tem gente que consegue. Dia desses vi, num telejornal, um
entrevistado brasileiro morando em Nova Orleans, na Louisiana, estado
do Sul dos Estados Unidos. Tava lá, ele com a sua cuia de
chimarrão, conversando com o repórter, falando da
demora na reconstrução da cidade, depois daquele
tornado que teve, há uns cinco anos. Como eu disse, ser-se
gaúcho, no Brasil, é relativamente fácil, no
resto do mundo é mais difícil, mas sempre se dá
um jeito. Agora: tente ser amazonense fora do Amazonas! Tente ser
manauara fora de Manaus! É bem mais difícil. Talvez
seja só eu, talvez pra quem nasceu amazonense, ou seja, pra
“elite” dos “verdadeiros amazonenses”, seja bem mais fácil
NÃO ser amazonense. Eu não sentia falta do chimarrão,
não sentia falta do frio, não sentia falta do minuano
gelado alfinetando meu rosto. Já tava me acostumando a chamar
qualquer carne grelhada de churrasco. Não via nenhum problema
em torcer para um time de fora do Amazonas, porque, afinal todos meus
amigos amazonenses faziam o mesmo! Agora, é difícil
suportar o frio do clima e das pessoas. Não conseguia me
enturmar antes de sair daqui, hoje parece ainda mais complicado. Era
pra eu estar comemorando meu aniversário em alguma peixaria,
ou no pagode do Ao Mirante, vai saber.
Meu
irmão mais novo tem um ano e alguns meses menos que eu. Já
casou duas vezes. De cada casamento, teve um filho. E eu? Eu sou só
tio! Nunca sequer tive um namoro realmente sério! Que dirá
ter filhos! Fui tio cedo, meu primeiro sobrinho nasceu quando eu
tinha uns sete anos. Teve um dia que eu jurava que seria pai tão
cedo quanto fui tio, um pouco menos, talvez. Hoje passaram 33
tenebrosos invernos e não tenho nem um filho sequer. Ou filha.
Gosto de crianças. Gosto mais de meninas. Sinto o que chamam
de “inveja boa”, quando vejo um homem levando sua filha pequena
pra passear no parque, no shopping, no trem... sempre me vi como o
pai de uma menina. Gozado, nunca me vi cuidando de um menino. Sei que
é difícil homens pensarem em nomes pros filhos, quando
não se está casado, ou não se está com
alguém com quem se planeje ter filhos. Mas eu pensava.
Geralmente pensava em nomes de meninas. Me via sempre como pai de
pelo menos duas. Natalie e Nicole, ou Nadine; por um tempo tive o
ideal de dar nomes afrancezados. Depois dei uma guinada rumo ao leste
europeu: Polônia, Rússia, Ucrânia. Natasha e Nádia
– sim mais legal na forma deles, Nádjia, também acho!
Mas cada ano a mais, cada novo aniversário me deixa com a
incômoda impressão de que serei mesmo é só
tio, e olhe! Tantos nardonis por aí que conseguem ser pais e
eu sou só tio! Tanta gente sem a menor vontade de ser pai e
eu, que tinha sonhos de ser pai, chegar a ser avô, bisavô...
sou tio! Eu era pai. Um dia fui pai... ou melhor, um dia eu me senti
como pai! A irmã mais nova daquela a quem me refiro como “a
ex”, para preservar sua identidade e privacidade, embora não
mereça... abrindo um parêntese, tá, em um
universo de mais ou menos 1,7 milhão de habitantes, em Manaus,
nem precisa tanto. Então tá, vamos desassegurar essa
privacidade: a ex pertence a um universo de mulheres de 25 a 30 anos,
moradoras do Parque Dez, filhas de gaúcho. Tenho certeza que
tem menos de 1,7 milhão nesse grupo! Então... tinha
essa ex, e a irmã mais nova da ex. Quando fui a conhecer
pessoalmente a ex, a menina, a quem me referirei como minha
“filhota”, tinha seis, sete anos... e ela me adotou já na
época para pai! Ela brincava, dizendo que, como tinha mais
contato com a irmã, ou seja, com a ex, ela é que era
sua mãe, e que, portanto, eu era seu pai! Achei engraçado,
na época. Depois me acostumei com a idéia. Gostava da
ex, mas meu amor pela filhota foi construído paralelamente, à
revelia do amor que eu nutria pela ex. Tanto que tenho mais é
uma relação de “ex”, mesmo, com a ex, ao passo que
a relação, e o carinho pela menina continuaram sendo de
pai. Me sentia pai, não sentia, portanto a frustração
de não ter filhos e ser apenas tio. Agora já não
sei mais... ela não dá nenhum sinal de vida. Nem sei se
lembrará de dar algum sinal de vida, hoje. Temo não ter
mais filha, nem adotiva... e assim, sinto a frustração
de nunca ter sido pai, de ser apenas o tiozão!
Apenas
o tiozão... eterno amigão... ano passado, após
meu aniversário, minha querida advogada era minha obsessão.
Estava me fazendo mal. Até ela achar de romper comigo, jurando
que eu é que sentiria falta, que correria atrás, e que
ela estaria bem melhor sem mim. Beleza. O tiro saiu pela culatra. Ao
ter ela rompido, na calada da noite, senti-me quase como se
renascendo, senti-me livre e feliz. Estava perdendo minha paixão,
a pessoa a quem me dedicara nos últimos tempos, por quem tinha
pensamentos românticos e sentimentalistas. Mas estava ganhando
a minha liberdade, estava me ganhando de volta. Quando ela voltou a
tomar contato comigo, não me preocupei muito se estaria só
novamente – ela sumia quando estava com um novo amor “pra vida
toda”, e só reaparecia dali há um, dois meses, quando
o “grande amor” tinha dado o pira – me senti lisonjeado por ser
procurado depois de quase exato um ano de rompimento, ri com a ironia
da situação, ou seja, ela acreditou que eu sentiria a
sua falta e que ela é que estaria se libertando de mim, quando
o que aconteceu foi o exato oposto... até um fim de semana
atrás! Comecei a me questionar se não fora uma tremenda
sacanagem de sua parte querer me procurar depois de tanto tempo, se
eu não estava muito melhor antes, sem ela. Tive as más
sensações de se estar próximo sem se estar,
novamente. Ruminei pela enésima vez os sentimentos mesquinhos
e deprimentes que tinha há exato um ano por ela. E eu jurava
que já os havia enterrado de vez, neste tempo em que estivemos
isolados um do outro. Voltei a me questionar sobre quais os reais
motivos dela para ter querido voltar a me azucrinar. Eu tinha algo
que o “amor de sonhos” não tinha? Pois então, o
quê?? Será que era disso mesmo que estava sentindo
falta, de alguém que ficasse se doendo por amá-la e não
ter sua atenção? Não, porra, eu não quero
isso! Estou francamente cansado de ser preterido. 33 anos completos
hoje e mesmo a ex preteriu quem sacrificou quase sua vida por ela.
Sou sempre alguém tão bom, cujo carinho é tão
apreciado... então por que cargas d'água não
posso ter o olhar onde uma mulher possa encontrar o amor de sua vida?
Por que tanto cafajeste consegue enganar que é o príncipe
sonhado de tanta menininha de treze a trinta e poucos e eu não
sou visto assim? Por que deveria me conformar em apenas sonhar e
desejar ter o colo e o abraço perfeitos para as garotas
fantásticas, extraordinárias e até mesmo
normais? Não mereço mesmo que alguém deseje ter
em mim um porto seguro para onde voltar, um colo onde deitar a cabeça
e esquecer as tristezas, um abraço caloroso onde se aconchegar
nas noites de frio e solidão? Se eu, que não sou melhor
que ninguém, não mereço, qual homem, afinal,
merece?? Aquele zé, cujo olhar, na sua foto, demonstra
CLARAMENTE que não é o amor extraordinário que
você estaria buscando em seus sonhos? Pois ela, desde que a
conheço, não só está buscando – ou
dizendo buscar – esse tal amor de sonhos, como sempre o está
encontrando! Nas mais diversas caras deslavadas de príncipes
encantados que você encontra em qualquer forrozinho da zona
leste! Impressionante... eu fui besta de querer dizer-lhe de minha
paixão por ela, de como era arrebatado por ela... pra, quando
foi preterida, me dar falsas esperanças, brincar que seria
capaz de largar tudo pra “nem que fosse” me fazer companhia... só
pra depois dizer preferir tentar voltar com o cara que lhe deu um pé
na bunda, ou então ficar só. Pra agora estar só
ainda, mas disponível e esperando por um zé com uma
cara de “maravilhoso só pra você”, quer dizer,
ninguém o veria como tal, ninguém o veria como amor da
vida, como o amor sonhado e enfim realizado! Sem nenhuma segurança
de que ele esteja fazendo o mesmo, sendo fiel a quem lhe espera!
Sabendo da minha história, de como desperdicei bons 2 ou 3
anos de minha vida permanecendo fiel e me preparando pra voltar e
ficar junto da ex... 33 anos de pura frustração, por
ter sido o cara que sempre agiu como toda mulher romantiza que o cara
perfeito agiria... pra ser preterido! Ou então ser encarado
como “paizão”, “amigão”, ou o amigo gay pra
quem você conta de seus problemas com os homens e desilusões
amorosas! Sim, tem uma garota que só lembra de mim pra falar
de sua mais nova paixonite frustrada! Como se eu fosse um confidente
gay que fica olhando sério pra ela, soltando comentários
que na verdade não querem dizer nada, de hora em hora... pior,
como se não merecesse ser visto de outra maneira, como se não
fosse homem o bastante pra lhe dar o consolo que um “homem de
verdade” lhe daria. Aos 33, eu não sou “homem de verdade”!
E nem “amor dos sonhos”!! De ninguém!!! Nunca fui!!!
Amores, tive vários, paixões, coração
pulsando mais forte, total dedicação, como já
falei, fiel, carinhoso, que queira construir algo junto, ter família,
ter filhos... ou filhas! Namoro? O mais longo foi de dois meses. Com
a ex, o namoro foi dois anos de virtual... e vinte dias de ficadas!
Eu lhe respeitei, lhe valorizei, me mantive firme como seu namorado,
sem nem olhar pro lado, sem sair pra pegar ninguém na
balada... pra ser desrespeitado, desvalorizado, ter meu sacrifício
minimizado, nossa relação de dois anos desconsiderada,
ou convenientemente esquecida! O fato de estarmos há milhares
de quilômetros de distância um do outro, quando nos
conhecemos, ser banalizado! Como se fôssemos europeus! Ou
americanos! Como se fosse barato cruzar o país, como se
tivessem dezenas de opções de transporte, como se desse
pra, pelo menos uma vez no mês, empreender uma viagem dessas!
Ou seja: amar, eu amei... de verdade, da rocha, pra valer, a fu... eu
amei! Se fui amado na mesma proporção? Óbvio...
óbvio que não! Tá na cara que não! Não
estaria solteiro, sozinho, e sem filhos; não estaria passando
frio, longe, muito longe, de onde quero estar; não estaria sem
nenhuma perspectiva do que fazer pra comemorar a data; não
estaria frustrado, desencantado e deprimido justo no dia do meu
aniversário! Ninguém merece algo assim...
Tava
bem sem ela de volta. Tava bem me esquecendo que o tempo tava
passando. Tava bem pensando em quem sabe ser o pai da linda filhota
de uma linda garota normal. Ou apenas admirando-lhe o belo sorriso da
foto. Tava bem amando a todos quase da mesma forma, pois assim não
sofria por não tê-los comigo, por não ser amado
na mesma proporção, não sofria além do
necessário com a dor alheia, que sempre me cala mais fundo
quanto mais quero estar com aquela pessoa. Hoje estaria melhor assim!
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