É duro ser pobre... na verdade, isso não me traz tantos incômodos assim! Claro, preferiria que tivéssemos um sistema de transporte coletivo público mais rápido e eficiente, mas não sinto falta de um carro particular, eu só penso, às vezes, que ter carteira de motorista me abriria mais algumas portas no mercado de trabalho, e na verdade não me importo de pegar ônibus, só poderia ser menos lotado... também não me incomoda tanto ser um assalariado, estar meio liso da segunda metade de um mês para o início de um outro, ter que economizar mais tempo, ou ter que abrir crediário, pra adquirir algum bem de consumo; por exemplo, o meu novo celular, um mp7 – oito, ou nove, não sei direito – com espaço para dois chips de operadoras de telefonia e tevê analógica, preto e branco, porque era o que podia comprar, não deu pra adquirir o aparelho melhor, com mais funções, com câmera de 5 megapixels, TV digital a cores, internet wi-fi... preferiria ter adquirido aquele outro modelo, mas estou satisfeito com o que tenho, dá pra fazer e receber ligações, assistir televisão e tirar fotos, ou seja, pra mim, tá bom! Sério, não sou tão consumista, se tivesse grana pra valer, ia gastar muito mais em livros, música e viagens que em produtinhos eletrônicos, carros, enfim, bens de consumo... então, qual é o problema mesmo em ser pobre? O problema é que não posso pagar TV a cabo! É dureza... queria ter assistido ao jogo do Internacional, em Quilmes, contra o Estudiantes de La Plata, ontem, pela Copa Libertadores! Mas, infelizmente, tive que me contentar em escutar no radinho – do celular – ao jogo. Tive que confiar numa narração insegura, capenga e tendenciosa... CONTRA o meu time, e não A FAVOR! Me incomoda profundamente que as rádios e tevês gaúchas transmitam os jogos do porto-alegrense tendenciosamente a favor e, quando é o Internacional, são tendenciosamente contra.
Dessa
forma, se não estou vendo, não sei se meu time está
mesmo jogando mal, não sei se está muito recuado, se
está muito adiantado, se não tá nem lá,
nem cá. Não tenho como saber se estão sendo
precisos na informação que estão me passando, de
que o time está “jogando mal”, só se visse um vt do
jogo, o que eles obviamente não vão transmitir, nem
mesmo no horário de insônia, por volta das 2 horas da
madrugada. Não sei se o juiz agiu acertadamente ao dar um
cartão amarelo para um jogador do Inter, ou ao deixar de
fazê-lo com um jogador do time adversário; não
tenho como saber se o nosso atacante estava mesmo adiantado na hora
do chute a gol, quando marcaram impedimento; não sei se o time
adversário está realmente dominando o jogo, como estou
ouvindo eles dizerem que está. Não tenho como saber!
Não tenho tevê a cabo! Não posso pagar uma
mensalidade de uma operadora de tevê paga!
Assistindo
ao jogo do porto-alegrense na televisão, eu podia ter certeza
de que o narrador e o comentarista estavam transmitindo os fatos com
imparcialidade, ou não. E podendo ver, tinha absoluta certeza
de que eles não estavam sendo imparciais! Tudo bem, o narrador
é de uma rede de comunicações, a maior do sul do
Brasil – não costumo citar nomes, mas enfim, estou falando
da RBS – os comentaristas também, então faz parte do
trabalho deles “torcerem” para o time dito sul-riograndense, no
caso, o porto-alegrense (grêmio, para os neófitos).
Haviam dois comentaristas, e um deles, embora trabalhando na rede
sulista, afiliada do maior conglomerado de comunicações
do país, esse vocês sabem qual é, é
colorado, ex-craque do clube, dos tempos de Falcão, Figueroa e
companhia, o Batista, então imagine o desconforto dele com a
“torcida” escancarada dos seus colegas! Principalmente com
comentários que também me deixaram desconfortável...
do tipo: “a vitória do Santos é a vitória da
individualidade...” (!!) Tá, como assim, quer dizer então
que o porto-alegrense não estava jogando contra um time de
futebol? Quer dizer o que, que o Santos é um amontoado de
jogadores, que não precisa de um técnico, que não
tem trabalho estratégico? Então que merda é esse
time do comentarista, né! Está perdendo pra um
amontoado de jogadores sem disciplina, nem técnica, nem
tática! Eu não vi nada disso. O Santos joga aberto,
belê, concordo. Tem jogadores pra isso, sim, certo, também
concordo. Mas também tem um técnico que sabe aproveitar
essa vocação ofensiva dos seus jogadores, sabe armar o
time para ser efetivo na frente. Corre grandes riscos atrás,
tem um goleiro fraco, uma zaga insegura, leva gols em todos os jogos,
porém a proporção dos que faz é bem
maior! E sim, os jogadores do porto-alegrense já estavam
contando com a classificação como certa, não
consideravam o Santos um time perigoso, consideraram que Paulo
Henrique Ganso não era o grande jogador alardeado no centro do
país. Juravam que o Santos não tinha como reverter a
“vantagem”, mesmo sabendo que bastava 1x0 pra o time do litoral
paulista se classificar. O resultado foi que o peixe ganhou dos
viados campeiros da Azenha por dois gols de diferença, um além
do necessário pra se classificar pra final da Copa do Brasil.
E
ontem à noite, como já disse, o Inter perdeu, na cidade
de Quilmes, na Argentina, para o Estudiantes, da cidade de La Plata,
que fica ao lado. Mas por um resultado que nos servia: 2x1 Inter. Na
semana passada, meu time havia ganho do mesmo Estudiantes de apenas
um gol a zero, mas isso nos bastava, podíamos até
perder o jogo por um gol de diferença – a partir do
resultado mesmo de ontem – que estaríamos nas semi-finais da
Copa Libertadores. Escutando pelo rádio, como já falei,
sem o recurso da televisão, do ver ao jogo, não podia
saber se o narrador e o comentarista estavam sendo verdadeiros ao
dizerem que meu time estava, realmente, jogando tão mal quanto
davam a entender, e se o time argentino foi mesmo tão mais
superior quanto diziam. Apenas hoje pela manhã, pude conversar
com quem VIU o jogo, com quem podia me dizer se as informações
passadas pelo rádio procediam, ou se era recalque de
portoalegrino, que havia sido desclassificado na noite anterior, e
torcia para ver-nos também desclassificados. Aliás,
volto ao motivo de minha irritação com os profissionais
da crônica esportiva gaúcha, já citado acima:
quarta à noite, vi esses profissionais torcendo
escancaradamente para o clube contrário, já ontem à
noite, ouvi o narrador e o comentarista, sob a desculpa da
“imparcialidade” não demonstrarem a menor boa-vontade que
fosse em ver o Inter se classificar. Minto: eles pareciam bastante
satisfeitos com o fato de o jogo estar 2x0 para os argentinos, até
quase o fim da partida... quando, então, o jogador de
meio-campo Giuliano, aproveitando uma bobeira do goleiro, que estava
adiantado, chuta e marca o gol que nos bastava! Se você está
transmitindo uma partida de futebol para a sua região, é
certo você “torcer” pra equipe “da casa”, não é?
Se vocês tricolinos acham isso aceitável quando se trata
do clube contrário, nós também achamos, quando
se trata do nosso! Mas não, a coisa não funciona assim.
Engraçado que em SP e RJ, você vê os cronistas
transmitindo os jogos “torcendo” para os times de seu Estado,
independente de quais sejam. “Oh, mas é cultural, isso, aqui
tem que ser-se imparcial pra um dos lados...” Meu ovo!
Aí,
diz o comentarista pelos microfones da rádio: “O Inter vinha
sendo covarde, e quando ousou, foi que conseguiu o gol e a
classificação”. Sim, o cara falou isso mesmo...
“covarde” (sic)! E o mesmo indivíduo repetiu duas ou três
vezes que o técnico uruguaio do Glorioso era isso mesmo: um
covarde! Tinha que reforçar essa ideia, muito mais fruto de um
recalque, do que uma constatação, ou uma percepção
dos fatos e acontecimentos do jogo. O comentarista, em vez de ser
primeiro um comentarista de futebol, depois um torcedor
porto-alegrino, preferiu agir de modo contrário. Queria
convencer ao ouvinte, sobretudo ao ouvinte colorado, que seu time era
muito fraco, e que o técnico Jorge Fossati não passava
de um covarde. Pois bem, não me convenceu. Conversas que tive
pela manhã de hoje confirmaram isso. Mas não a estranha
impressão que tive, após o jogo: a de que Fossati não
foi assim tão burro quanto pareceu, e tampouco foi o covarde
que quiseram me convencer que era.
Na
verdade, me parece que, no caso dessa partida de ontem à
noite, em particular, Jorge Fossati foi um estrategista frio e
calculista, um enxadrista. Não sei o que, exatamente, me fez
pensar nisso, mas nesse jogo contra o Estudiantes parece que tudo foi
calculado pelo técnico, como num jogo de xadrez: deixou o
adversário crer que seu time estaria sendo excessivamente
cauteloso, com o meio de campo povoado, com três zagueiros, com
um só cabeça de área lá na frente. Ganhou
a confiança dos jogadores do clube argentino, que acharam dois
gols, em jogadas de muita sorte e nenhuma genialidade – tampouco do
tal Verón, em quem os porto-alegrinos depositavam grandes
esperanças. Eles acreditaram que o alvi-rubro de Porto Alegre
pudesse ter qualquer carta na manga, não esperavam que tivesse
condições para reagir, que tivesse alguma jogada que
pudesse surpreender. Aí, o técnico mudou um peão
e uma torre por uns dois cavalos, aumentou o poderio do ataque
colorado... antes, certificou-se de que os jogadores estudantinos
estivessem bastante confiantes, viu o time adversário
acomodar-se, diminuir o ritmo, tornar-se até um tanto
descuidado, para, só então, colocar em campo o jogador
em quem tinha plena confiança de que viria a decidir o jogo:
Giuliano, que efetivamente decidiu em nosso favor, uma boa jogada,
uma tabela na entrada da área com o outro meia, Andrezinho, um
chute forte, certeiro, aproveitando um dos vários descuidos
dos confiantes jogadores do clube argentino. Xeque mate! O rei caiu!
Nos garantimos nas semi-finais! O melhor jogo de xadrez que já
escutei na minha vida!

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