PESCANDO NO BODOSAL

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Jogo de Xadrez



É duro ser pobre... na verdade, isso não me traz tantos incômodos assim! Claro, preferiria que tivéssemos um sistema de transporte coletivo público mais rápido e eficiente, mas não sinto falta de um carro particular, eu só penso, às vezes, que ter carteira de motorista me abriria mais algumas portas no mercado de trabalho, e na verdade não me importo de pegar ônibus, só poderia ser menos lotado... também não me incomoda tanto ser um assalariado, estar meio liso da segunda metade de um mês para o início de um outro, ter que economizar mais tempo, ou ter que abrir crediário, pra adquirir algum bem de consumo; por exemplo, o meu novo celular, um mp7 – oito, ou nove, não sei direito – com espaço para dois chips de operadoras de telefonia e tevê analógica, preto e branco, porque era o que podia comprar, não deu pra adquirir o aparelho melhor, com mais funções, com câmera de 5 megapixels, TV digital a cores, internet wi-fi... preferiria ter adquirido aquele outro modelo, mas estou satisfeito com o que tenho, dá pra fazer e receber ligações, assistir televisão e tirar fotos, ou seja, pra mim, tá bom! Sério, não sou tão consumista, se tivesse grana pra valer, ia gastar muito mais em livros, música e viagens que em produtinhos eletrônicos, carros, enfim, bens de consumo... então, qual é o problema mesmo em ser pobre? O problema é que não posso pagar TV a cabo! É dureza... queria ter assistido ao jogo do Internacional, em Quilmes, contra o Estudiantes de La Plata, ontem, pela Copa Libertadores! Mas, infelizmente, tive que me contentar em escutar no radinho – do celular – ao jogo. Tive que confiar numa narração insegura, capenga e tendenciosa... CONTRA o meu time, e não A FAVOR! Me incomoda profundamente que as rádios e tevês gaúchas transmitam os jogos do porto-alegrense tendenciosamente a favor e, quando é o Internacional, são tendenciosamente contra.
Dessa forma, se não estou vendo, não sei se meu time está mesmo jogando mal, não sei se está muito recuado, se está muito adiantado, se não tá nem lá, nem cá. Não tenho como saber se estão sendo precisos na informação que estão me passando, de que o time está “jogando mal”, só se visse um vt do jogo, o que eles obviamente não vão transmitir, nem mesmo no horário de insônia, por volta das 2 horas da madrugada. Não sei se o juiz agiu acertadamente ao dar um cartão amarelo para um jogador do Inter, ou ao deixar de fazê-lo com um jogador do time adversário; não tenho como saber se o nosso atacante estava mesmo adiantado na hora do chute a gol, quando marcaram impedimento; não sei se o time adversário está realmente dominando o jogo, como estou ouvindo eles dizerem que está. Não tenho como saber! Não tenho tevê a cabo! Não posso pagar uma mensalidade de uma operadora de tevê paga!
Assistindo ao jogo do porto-alegrense na televisão, eu podia ter certeza de que o narrador e o comentarista estavam transmitindo os fatos com imparcialidade, ou não. E podendo ver, tinha absoluta certeza de que eles não estavam sendo imparciais! Tudo bem, o narrador é de uma rede de comunicações, a maior do sul do Brasil – não costumo citar nomes, mas enfim, estou falando da RBS – os comentaristas também, então faz parte do trabalho deles “torcerem” para o time dito sul-riograndense, no caso, o porto-alegrense (grêmio, para os neófitos). Haviam dois comentaristas, e um deles, embora trabalhando na rede sulista, afiliada do maior conglomerado de comunicações do país, esse vocês sabem qual é, é colorado, ex-craque do clube, dos tempos de Falcão, Figueroa e companhia, o Batista, então imagine o desconforto dele com a “torcida” escancarada dos seus colegas! Principalmente com comentários que também me deixaram desconfortável... do tipo: “a vitória do Santos é a vitória da individualidade...” (!!) Tá, como assim, quer dizer então que o porto-alegrense não estava jogando contra um time de futebol? Quer dizer o que, que o Santos é um amontoado de jogadores, que não precisa de um técnico, que não tem trabalho estratégico? Então que merda é esse time do comentarista, né! Está perdendo pra um amontoado de jogadores sem disciplina, nem técnica, nem tática! Eu não vi nada disso. O Santos joga aberto, belê, concordo. Tem jogadores pra isso, sim, certo, também concordo. Mas também tem um técnico que sabe aproveitar essa vocação ofensiva dos seus jogadores, sabe armar o time para ser efetivo na frente. Corre grandes riscos atrás, tem um goleiro fraco, uma zaga insegura, leva gols em todos os jogos, porém a proporção dos que faz é bem maior! E sim, os jogadores do porto-alegrense já estavam contando com a classificação como certa, não consideravam o Santos um time perigoso, consideraram que Paulo Henrique Ganso não era o grande jogador alardeado no centro do país. Juravam que o Santos não tinha como reverter a “vantagem”, mesmo sabendo que bastava 1x0 pra o time do litoral paulista se classificar. O resultado foi que o peixe ganhou dos viados campeiros da Azenha por dois gols de diferença, um além do necessário pra se classificar pra final da Copa do Brasil.
E ontem à noite, como já disse, o Inter perdeu, na cidade de Quilmes, na Argentina, para o Estudiantes, da cidade de La Plata, que fica ao lado. Mas por um resultado que nos servia: 2x1 Inter. Na semana passada, meu time havia ganho do mesmo Estudiantes de apenas um gol a zero, mas isso nos bastava, podíamos até perder o jogo por um gol de diferença – a partir do resultado mesmo de ontem – que estaríamos nas semi-finais da Copa Libertadores. Escutando pelo rádio, como já falei, sem o recurso da televisão, do ver ao jogo, não podia saber se o narrador e o comentarista estavam sendo verdadeiros ao dizerem que meu time estava, realmente, jogando tão mal quanto davam a entender, e se o time argentino foi mesmo tão mais superior quanto diziam. Apenas hoje pela manhã, pude conversar com quem VIU o jogo, com quem podia me dizer se as informações passadas pelo rádio procediam, ou se era recalque de portoalegrino, que havia sido desclassificado na noite anterior, e torcia para ver-nos também desclassificados. Aliás, volto ao motivo de minha irritação com os profissionais da crônica esportiva gaúcha, já citado acima: quarta à noite, vi esses profissionais torcendo escancaradamente para o clube contrário, já ontem à noite, ouvi o narrador e o comentarista, sob a desculpa da “imparcialidade” não demonstrarem a menor boa-vontade que fosse em ver o Inter se classificar. Minto: eles pareciam bastante satisfeitos com o fato de o jogo estar 2x0 para os argentinos, até quase o fim da partida... quando, então, o jogador de meio-campo Giuliano, aproveitando uma bobeira do goleiro, que estava adiantado, chuta e marca o gol que nos bastava! Se você está transmitindo uma partida de futebol para a sua região, é certo você “torcer” pra equipe “da casa”, não é? Se vocês tricolinos acham isso aceitável quando se trata do clube contrário, nós também achamos, quando se trata do nosso! Mas não, a coisa não funciona assim. Engraçado que em SP e RJ, você vê os cronistas transmitindo os jogos “torcendo” para os times de seu Estado, independente de quais sejam. “Oh, mas é cultural, isso, aqui tem que ser-se imparcial pra um dos lados...” Meu ovo!
Aí, diz o comentarista pelos microfones da rádio: “O Inter vinha sendo covarde, e quando ousou, foi que conseguiu o gol e a classificação”. Sim, o cara falou isso mesmo... “covarde” (sic)! E o mesmo indivíduo repetiu duas ou três vezes que o técnico uruguaio do Glorioso era isso mesmo: um covarde! Tinha que reforçar essa ideia, muito mais fruto de um recalque, do que uma constatação, ou uma percepção dos fatos e acontecimentos do jogo. O comentarista, em vez de ser primeiro um comentarista de futebol, depois um torcedor porto-alegrino, preferiu agir de modo contrário. Queria convencer ao ouvinte, sobretudo ao ouvinte colorado, que seu time era muito fraco, e que o técnico Jorge Fossati não passava de um covarde. Pois bem, não me convenceu. Conversas que tive pela manhã de hoje confirmaram isso. Mas não a estranha impressão que tive, após o jogo: a de que Fossati não foi assim tão burro quanto pareceu, e tampouco foi o covarde que quiseram me convencer que era.
Na verdade, me parece que, no caso dessa partida de ontem à noite, em particular, Jorge Fossati foi um estrategista frio e calculista, um enxadrista. Não sei o que, exatamente, me fez pensar nisso, mas nesse jogo contra o Estudiantes parece que tudo foi calculado pelo técnico, como num jogo de xadrez: deixou o adversário crer que seu time estaria sendo excessivamente cauteloso, com o meio de campo povoado, com três zagueiros, com um só cabeça de área lá na frente. Ganhou a confiança dos jogadores do clube argentino, que acharam dois gols, em jogadas de muita sorte e nenhuma genialidade – tampouco do tal Verón, em quem os porto-alegrinos depositavam grandes esperanças. Eles acreditaram que o alvi-rubro de Porto Alegre pudesse ter qualquer carta na manga, não esperavam que tivesse condições para reagir, que tivesse alguma jogada que pudesse surpreender. Aí, o técnico mudou um peão e uma torre por uns dois cavalos, aumentou o poderio do ataque colorado... antes, certificou-se de que os jogadores estudantinos estivessem bastante confiantes, viu o time adversário acomodar-se, diminuir o ritmo, tornar-se até um tanto descuidado, para, só então, colocar em campo o jogador em quem tinha plena confiança de que viria a decidir o jogo: Giuliano, que efetivamente decidiu em nosso favor, uma boa jogada, uma tabela na entrada da área com o outro meia, Andrezinho, um chute forte, certeiro, aproveitando um dos vários descuidos dos confiantes jogadores do clube argentino. Xeque mate! O rei caiu! Nos garantimos nas semi-finais! O melhor jogo de xadrez que já escutei na minha vida!

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