PESCANDO NO BODOSAL

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Talvez estivesse melhor sem...


Sexta-feira. Encontrei-me sozinho e deprimido. Ninguém para abraçar. O sol brilhava, esquentava um pouco a atmosfera, o dia estava bom para uma caminhada, ou apenas pra ficar giboiando após o almoço, quem sabe. Ficar pensando sobre a vida, ou apenas aproveitando o sol... péssima idéia, pensar sobre a vida!
Sexta passada, apesar da bela tarde de sol, após a manhã cinzenta, de neblina fria, senti-me como se um céu de chumbo estivesse sobre mim, pressionando-me com seu peso, prenunciando uma terrível tempestade, que poderia cair a qualquer minuto. Claro que o céu de chumbo estava em mim, e não fora. O frio deu uma boa amenizada, naquela tarde! Na verdade, o sol prenunciava um fim de semana que poderia ter sido agradável, se não tivesse se repetido a condição de sexta-feira apenas no sábado!
Ruminando velhos sentimentos naquela tarde, no comecinho do final de semana, me senti so last week, embora a sensação de céu de chumbo, ao ler apenas uma frase “romântica” de meu amor não tão platônico assim, dedicada a alguém que diz ser seu “amor dos sonhos”, embora haja controvérsias, aquele a quem chama de “vida”, o que me causou dolorosos recuerdos de nossa última temporada, a que ela me expulsou de sua vida, jurando que estaria bem melhor sem mim; anterior a esta nova temporada nossa, em que eu já não sentia mais tanto sua falta, mas lhe doía a minha falta, a ponto de humildemente vir me procurar, pra saber “se ainda estava aqui”. Senti novamente aquelas velhas dores de minha antiga obsessão, do tempo em que estupidamente acreditei que meu amor era também minha vida. Isso me lembra, minha pequenina dizer que o seu “homem dos sonhos” é sua “vida” me causa uma curiosa graça – não como aquelas Graças divinas, e sim como de achar engraçado mesmo, de me divertir a idéia – algo em mim não crê totalmente em sua felicidade amorosa com esse cabra, mas se felicita por preferir vê-la bem, não importa o que aconteça. “Isto é o amor que ela esnoba!”
Mas me preocupa a velha tristeza voltar a conseguir me dominar, trazer aquelas velhas frustrações, a velha infelicidade de ser muito bom a ponto de fazer falta na vida de alguém, mas nunca bom o bastante para merecer pensamentos sentimentais e românticos. Me faz pensar no porque estive tão reticente a retomar qualquer relacionamento com essa garota, mesmo pela amizade que diz sentir, mesmo que tenha me sentido lisonjeado por sua procura depois de um ano de afastamento. Na sexta-feira aquela mesmo pensei, ao anoitecer, como estava melhor sem ela de volta a minha vida. Não tinha por quem me preocupar, não tinha ninguém mais por quem pensar sentimentalmente, por quem romantizar um encontro, observando um pôr do sol às margens do rio Negro, abraçados, etc. Mas estava melhor assim!
Estava pretendendo colocar aqui, neste post, a letra de uma música de Morrisey, antigo líder de uma das grandes bandas inglesas dos anos 1980, The Smiths. O nome da música é That's How People Grow Up – quem quiser, vale a pena procurar – e há uma estrofe da música que diz mais ou menos assim:
I was wasting my time
Looking for love
Someone must look at me
And see there's someone of their dreams
I was wasting my time
Praying for love
For the love that never comes from
Someone who does not exist”

Traduzindo: “Eu estava desperdiçando meu tempo
Procurando por amor
Alguém deve olhar e ver em mim
A pessoa dos seus sonhos
Eu estava desperdiçando meu tempo
Esperando por amor
Pelo amor que nunca vem
De alguém que não existe”

Essa música me calou fundo no coração, na época, quando estava preso a essa relação que, para mim, estava sendo altamente destrutiva, por conta da obsessão, por conta da inconformidade por não ser, como diz na música, a pessoa dos sonhos de ninguém. Nem de alguém, que é, existe, mas pra quem nunca existi desta forma - ou de qualquer outra forma! Hoje, voltando a escutá-la depois de tanto tempo, lembro de como é verdadeira, também quanto a mim. Apenas desperdicei meu tempo, esperando ser visto pela garota a quem me revelei completamente apaixonado, a quem me dediquei mais do que o recomendável – para minha própria sanidade – da mesma forma que a via, ou talvez um pouco mais. Em vezes anteriores, foi igual, me peguei decepcionado, frustrado, sofrendo atrozmente e minha vida em nada melhorou com isso.
Não esperei mais por ninguém, não me dediquei mais a ninguém, por mais interesse que pudesse ter. Alienando-me, ou não, preferi projetar apenas dentro de mim os pensamentos românticos, os sentimentalismos, as idealizações. Sofro menos. Penso que fico mais racional, e talvez insensível aos sofrimentos alheios, mesmo de garotas por quem tenha algum interesse além da simples amizade. Ela soube que esteve equivocada no seu modo de tratar nossa relação, não estava “sofrendo” por minha culpa, ou por não suportar o meu sofrer. O tempo que nos deu foi muito melhor pra mim. E eu estive muito melhor sem ela. Estive muito melhor sozinho e sem pensar nela. Ela que me quis de volta a sua vida, e sem nenhuma vantagem para mim, na verdade. Não quero voltar ao sofrimento de antes. Não quero lembrar e ruminar toda decepção que tive com ela. Não quero pensar no que ela se assemelha com as outras, e nem no que uma bela garota com olhar sereno e brinco de pena pode parecer com ela. O que me consola é saber que pode ser que não nos vejamos nunca mais fora dos messengers da vida...

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