Sexta-feira.
Encontrei-me sozinho e deprimido. Ninguém para abraçar.
O sol brilhava, esquentava um pouco a atmosfera, o dia estava bom
para uma caminhada, ou apenas pra ficar giboiando após o
almoço, quem sabe. Ficar pensando sobre a vida, ou apenas
aproveitando o sol... péssima idéia, pensar sobre a
vida!
Sexta
passada, apesar da bela tarde de sol, após a manhã
cinzenta, de neblina fria, senti-me como se um céu de chumbo
estivesse sobre mim, pressionando-me com seu peso, prenunciando uma
terrível tempestade, que poderia cair a qualquer minuto. Claro
que o céu de chumbo estava em mim, e não fora. O frio
deu uma boa amenizada, naquela tarde! Na verdade, o sol prenunciava
um fim de semana que poderia ter sido agradável, se não
tivesse se repetido a condição de sexta-feira apenas no
sábado!
Ruminando
velhos sentimentos naquela tarde, no comecinho do final de semana, me
senti so last week, embora a sensação de céu de
chumbo, ao ler apenas uma frase “romântica” de meu amor não
tão platônico assim, dedicada a alguém que diz
ser seu “amor dos sonhos”, embora haja controvérsias,
aquele a quem chama de “vida”, o que me causou dolorosos
recuerdos de nossa última temporada, a que ela me expulsou de
sua vida, jurando que estaria bem melhor sem mim; anterior a esta
nova temporada nossa, em que eu já não sentia mais
tanto sua falta, mas lhe doía a minha falta, a ponto de
humildemente vir me procurar, pra saber “se ainda estava aqui”.
Senti novamente aquelas velhas dores de minha antiga obsessão,
do tempo em que estupidamente acreditei que meu amor era também
minha vida. Isso me lembra, minha pequenina dizer que o seu “homem
dos sonhos” é sua “vida” me causa uma curiosa graça
– não como aquelas Graças divinas, e sim como de
achar engraçado mesmo, de me divertir a idéia – algo
em mim não crê totalmente em sua felicidade amorosa com
esse cabra, mas se felicita por preferir vê-la bem, não
importa o que aconteça. “Isto é o amor que ela
esnoba!”
Mas
me preocupa a velha tristeza voltar a conseguir me dominar, trazer
aquelas velhas frustrações, a velha infelicidade de ser
muito bom a ponto de fazer falta na vida de alguém, mas nunca
bom o bastante para merecer pensamentos sentimentais e românticos.
Me faz pensar no porque estive tão reticente a retomar
qualquer relacionamento com essa garota, mesmo pela amizade que diz
sentir, mesmo que tenha me sentido lisonjeado por sua procura depois
de um ano de afastamento. Na sexta-feira aquela mesmo pensei, ao
anoitecer, como estava melhor sem ela de volta a minha vida. Não
tinha por quem me preocupar, não tinha ninguém mais por
quem pensar sentimentalmente, por quem romantizar um encontro,
observando um pôr do sol às margens do rio Negro,
abraçados, etc. Mas estava melhor assim!
Estava
pretendendo colocar aqui, neste post, a letra de uma música de
Morrisey, antigo líder de uma das grandes bandas inglesas dos
anos 1980, The Smiths. O nome da música é That's How
People Grow Up – quem quiser, vale a pena procurar – e há
uma estrofe da música que diz mais ou menos assim:
“I
was wasting my time
Looking
for love
Someone
must look at me
And
see there's someone of their dreams
I
was wasting my time
Praying
for love
For
the love that never comes from
Someone
who does not exist”
Traduzindo:
“Eu estava desperdiçando meu tempo
Procurando
por amor
Alguém
deve olhar e ver em mim
A
pessoa dos seus sonhos
Eu
estava desperdiçando meu tempo
Esperando
por amor
Pelo
amor que nunca vem
De
alguém que não existe”
Essa
música me calou fundo no coração, na época,
quando estava preso a essa relação que, para mim,
estava sendo altamente destrutiva, por conta da obsessão, por
conta da inconformidade por não ser, como diz na música,
a pessoa dos sonhos de ninguém. Nem de alguém, que é, existe, mas pra quem nunca existi desta forma - ou de qualquer outra forma! Hoje, voltando a escutá-la
depois de tanto tempo, lembro de como é verdadeira, também
quanto a mim. Apenas desperdicei meu tempo, esperando ser visto pela
garota a quem me revelei completamente apaixonado, a quem me dediquei
mais do que o recomendável – para minha própria
sanidade – da mesma forma que a via, ou talvez um pouco mais. Em
vezes anteriores, foi igual, me peguei decepcionado, frustrado,
sofrendo atrozmente e minha vida em nada melhorou com isso.
Não
esperei mais por ninguém, não me dediquei mais a
ninguém, por mais interesse que pudesse ter. Alienando-me, ou
não, preferi projetar apenas dentro de mim os pensamentos
românticos, os sentimentalismos, as idealizações.
Sofro menos. Penso que fico mais racional, e talvez insensível
aos sofrimentos alheios, mesmo de garotas por quem tenha algum
interesse além da simples amizade. Ela soube que esteve
equivocada no seu modo de tratar nossa relação, não
estava “sofrendo” por minha culpa, ou por não suportar o
meu sofrer. O tempo que nos deu foi muito melhor pra mim. E eu estive
muito melhor sem ela. Estive muito melhor sozinho e sem pensar nela.
Ela que me quis de volta a sua vida, e sem nenhuma vantagem para mim,
na verdade. Não quero voltar ao sofrimento de antes. Não
quero lembrar e ruminar toda decepção que tive com ela.
Não quero pensar no que ela se assemelha com as outras, e nem
no que uma bela garota com olhar sereno e brinco de pena pode parecer
com ela. O que me consola é saber que pode ser que não
nos vejamos nunca mais fora dos messengers da vida...
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